Artigos especiais para internet

A democracia ferida. Conferência de Paris.

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TEXTO PRONUNCIADO NO MARCO DA CONFERÊNCIA "O TERRORISMO. CAMUS E A CONSCIÊNCIA", ORGANIZADA PELA MED BRIDGE, SOB A DIREÇÃO DE FRANÇOIS ZIMERAY.
A Conferência desenvolveu-se no Palais de Luxembourg, dia 25 de fevereiro de 2006.
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A DEMOCRACIA FERIDA

"Sou uma dissidente do Islã". Com estas palavras Ayaan Hirsi Ali, a deputada somali que vive sob o jugo de uma condenação à morte fundamentalista, por sua luta a favor dos direitos humanos, encabeça seu último grito ao Ocidente. Companheira do cineasta assassinado Theo Van Gogh, com quem trabalhou lado a lado para denunciar a opressão da mulher no Islã, sua vida está submetida à pressão de uma ameaça que a condenou por ser mulher, por ser muçulmana e por ser livre. Começo esta reflexão citando Ayaan Hirsi Ali porque sua luta e sua tragédia, e também sua solidão, são um fino termômetro da enfermidade que hoje percorre nosso corpo social. Metáfora da resistência em tempos obscuros, dissidente em período de pensamento único, e, sobretudo, testemunho, Ayaan sustenta duas lutas paralelas: contra o totalitarismo de base islâmica, e contra a cultura do "apaziguamento", em plena síndrome Chamberlain, que percorre a Europa. De suas palavras extraio, para o início da minha conferência, esta reflexão que fiz no ato de entrega do prêmio à Tolerância da Comunidade de Madrid: "Quando assassinaram Theo, algumas pessoas na Holanda reagiram dizendo que se não tivesse insultado o Islã não teria sido assassinado. Isso põe em evidência o estado de confusão em que se encontram os relativistas da moral". Relativismo moral, ou, o que dá no mesmo, uma enorme confusão de valores que faz a Europa oscilar, entre o paternalismo acrítico, o medo servil e a renúncia das responsabilidades. Muitos são os sintomas de alarme e alguns se concentram não na ameaça visível do terrorismo ou em sua não menos aterradora ideologia, mas na incapacidade de nossos agentes sociais em manter sólidos os princípios da liberdade. Hoje, no mundo livre, há medo, mas como este é um estado de ânimo no qual não podemos nos reconhecer, camuflamos o medo na aliança das civilizações, no paternalismo terceiro-mundista, na cultura da tolerância ou, diretamente, na aceitação da chantagem. Algumas das mais lamentáveis derivações do conflito das caricaturas dinamarquesas de Maomé resumiriam à perfeição o que estou denunciando.

Vamos por partes. O corolário de fundação da Med Bridge, a organização que tem a amabilidade de nos acolher nestas interessantes conferências, é muito claro. Queria recordá-lo pelo seu valor simbólico. Dizem os fundadores da Med Bridge Strategic Center: "A Europa não é ela mesma se não for fiel aos seus valores, e deve assumir as responsabilidades legadas por sua história". Falam do Oriente Médio, de um futuro europeu ligado à paz na região, do papel que devemos assumir. Mas, em sua declaração de intenções, estão falando do futuro global da nossa sociedade e nossa liberdade. Certamente, a Europa não é ela mesma se não for fiel aos seus valores. Mas como a história recente da Europa está repleta de profundas traições a esses valores e a si mesma, terá que ativar todos os mecanismos de alerta. Hoje vivemos um novo período de ameaça totalitária, herdeiro natural dos grandes totalitarismos que destruíram o século XX, e ainda são distintas as circunstâncias, a própria natureza do fenômeno, e os desafios que estabelece são parecidos. O radicalismo fundamentalista não é uma religião, mas usa perversamente a mística religiosa. Não é uma cultura, mas bebe das fontes de uma cultura global. Não é uma causa nacional, mas utiliza todas aquelas causas nacionais que povoam o planeta islâmico. Além disso, é ferozmente antimoderno, mas usa sem complexos a tecnologia mais avançada. Como eu disse em seu momento, à raiz do terrível atentado de 11-M (11 de março) em Madrid, "nos matam com celulares via satélite conectados com a Idade Média". E ainda que sua desculpa seja religiosa, parece ser, como todo totalitarismo, amante da morte. Estranha contradição: a defesa do negativismo em nome de Deus! Mais além de causas conjunturais, com seus motivos e seus direitos, existe uma ideologia supranacional que declarou guerra à Modernidade. Ou seja, aos princípios democráticos que a regem. Em certo sentido, condenando à morte os Salman Rushdie de nossos tempos, o integrismo islâmico está tentando degolar o próprio Voltaire.

É uma ideologia totalitária, mas usa as misérias e as grandezas de nossas democracias para combater-nos, e aí inicia o enorme desafio que temos implementado: "Usaremos vossa democracia para destruir vossa democracia", assegurou não faz demasiado tempo o xeque Omar Bin Bakri, e não o fez de uma madrassa corânica em Karachi ou no Sudão. O fez em sua condição de cidadão britânico, perfeitamente assentado nos privilégios que lhe outorgava a dita cidadania. Ante este duplo desafio, ideológico e violento, que já matou milhares de pessoas e fanatizou milhões, cabe perguntar-se como conseguiremos manter os princípios democráticos e, por sua vez, combater com toda a dureza o terrorismo. Difícil equilíbrio cujos limites são imprecisos e provavelmente flexíveis. Estamos fazendo o correto? Mais ainda, estamos fazendo o necessário? Ou, como ocorreu ante o nazismo e também ante o stalinismo, levamos para passear nosso guarda-chuva do apaziguamento, vamos saudar o totalitário de plantão, e dormimos a sesta dos justos? Disse no início deste texto, e a ele remeto: temo que o fantasma de Chamberlain voltou do passeio.

Começarei pelo mais fácil, ainda que pareça muito complexo: o terreno da segurança. Sem dúvida, a democracia não pode trair seus princípios fundamentais, sem trair a si própria, mas pode ativar todos os seus mecanismos legais para lutar, da legalidade, contra uma ameaça violenta. Neste sentido, creio que é necessário revisar as leis, os códigos penais e toda a rede legal que nos ampara, para descobrir quais resquícios, quais fissuras o terrorismo utiliza para infiltrar-se. Nem tudo pode amparar-se no guarda-chuva da liberdade individual, religiosa ou associativa, e o exemplo mais claro disso foi a França expulsando os imãs integristas, ou o próprio Tony Blair estimulando uma lei que persegue a apologia do integrismo nas mesquitas. À diferença destes dois países, o ministro espanhol do Interior deu evidentes mostras de não entender nada quando assegurou, em pleno debate da lei Blair, que "na Espanha há liberdade de culto". Há, e a democracia ampara esse direito fundamental. Entretanto, o que tem a ver a religião com a chegada em massa dos imãs wahabitas, profusamente pagos pela Arábia Saudita, que inundam as mesquitas européias de discursos antiocidentais e antidemocráticos, num planejado processo de colonização ideológica? O que tem a haver a transcendência espiritual de cada religião, com os ulemás que pregam o ritual do martírio e ensinam a amar a Deus odiando aos demais? E, o que tem a ver a religião com o desprezo às mulheres, sua segregação e sua escravidão? Uma mesquita onde se reza a Alá é um lugar de culto. Uma mesquita onde, em nome de Deus, se glorifica a morte, é uma fábrica de intolerância, fundamentalismo e, em sua última conseqüência, terrorismo. Um imã é um ser espiritual. Mas um imã que usa a sua privilegiada condição espiritual para incitar a violência, é um delinqüente. Se a democracia quer manter os princípios da liberdade, não pode cair no liberalismo amoral, mas tem que tomar partido contra os inimigos da dita liberdade. Porque um cidadão muçulmano de nossos países é uma peça fundamental da condição multicultural de uma sociedade livre. Mas um fanático radical é, claramente, um inimigo. As sociedades democráticas têm que ter claro um princípio fundamental da democracia: que, apesar de nossa íntima cultura de maio de 68, o verbo proibir é uma garantia. Ou adequamos nossas liberdades aos limites que as garantam, ou, como diz o imã Bakri, poderão utilizá-las para nos destruir.

O que proponho? Aquilo que parece evidente e que, em pouca ou muita medida, começa a se fazer na Europa: considerar os terroristas como ideólogos do terror e, em conseqüência, seu processamento legal. É tão importante, para garantir a segurança democrática, caçar as células suicidas, como desmontar as redes intelectuais e culturais do integrismo. Redes que freqüentemente se alimentam de nossas ajudas sociais, transmutam-se em ONG’s solidárias, organizam-se em associações culturais e religiosas e inclusive conseguem ser os interlocutores de nossos próprios governos. Temos investigado, minimamente, as ONG's islâmicas que povoam nossas redes de internet? Conhecemos seus discursos antiocidentais e furibundamente anti-semitas? Parece evidente que a luta contra o terrorismo não pode nem deve produzir-se destruindo as liberdades individuais. Mas parece evidente, também, que nossos sistemas legais contêm margens de atuação que ainda não temos explorado seriamente. E não me refiro às atuações indecorosas que cortam, desnecessariamente, as liberdades individuais. Mas, entre um Guantánamo, e o liberalismo mais extremo, há um campo de atuação amplo, sensato e racional. Esse campo, em muitos países europeus, ainda é inexplorado. Policialmente temos começado a fazer as lições. Politicamente, socialmente e intelectualmente, estamos longe de assumir de forma prioritária nossa responsabilidade. Ao contrário. Hoje em dia, muitas das políticas, das declarações, das correntes de opinião, são, de forma inconsciente ou consciente, ativos aliados da loucura radical. A famosa e mítica frase de Martin Luther King, "o que me preocupa não é a maldade dos maus, mas o silêncio dos bons", está mais vigente do que nunca.

Quais são os buracos negros de nossa atuação coletiva? A primeira irresponsabilidade, na defesa das liberdades democráticas, produz-se no âmbito da atuação política, cujo duplo rasante em função dos interlocutores, foi letal. O exemplo do Oriente Médio é, neste sentido, paradigmático. Durante anos a Europa criminalizou Israel, a única democracia que existia na região, alimentou um discurso paternalista e heróico de Arafat e, com ele, de todos os movimentos palestinos, incluindo os terroristas, impediu o controle democrático das ajudas ocidentais, minimizou a ingerência de diversas ditaduras árabes no conflito — todas contrárias à paz —, e, pela via de defender interesses espúrios, ajudou, consolidou e mimou as diversas teocracias, ricas, fanáticas e ditatoriais, que dominam a região. Durante décadas temos abandonado os cidadãos muçulmanos à sorte dos regimes despóticos que os empobreceram e fanatizaram, e que não só não os preparou para a democracia, como os vacinou contra ela. Décadas de integrismo islâmico oficial, estruturado, convertido em pensamento único, e perfeitamente oficializado com seu assento na ONU e suas nobres alianças ocidentais, formaram o caldo da cultura de uma ideologia mortífera. É compreensível que cinqüenta anos de petróleo não tenham gerado nem um só prêmio Nobel? Mais ainda, é compreensível que a tragédia de milhões de mulheres submetidas aos códigos penais escravistas, não tenha preocupado nenhum ministro das Relações Exteriores europeu? E, o que dizer da ONU, autêntico amenizador de ditaduras infames que não só a tem seqüestrada em suas decisões, como também a utilizam para legitimizar aquilo que parece ilegítimo? Enquanto a ideologia totalitária do fundamentalismo islâmico ia crescendo nos bairros periféricos do Cairo, nos subúrbios de Karachi ou nos quarteirões luxuosos de Riad, o mundo ocidental enviava estas três mensagens letais: um ditador islâmico é um interlocutor (não assim um ditador fascista); a opressão da mulher não preocupa ninguém; e Israel é o principal culpado de todos os males. O âmbito político não só não tem estado à altura do direito internacional, como tem minimizado o terrorismo, dado cobertura ao despotismo fanático e não tem considerado o problema de que 1 bilhão e 300 milhões de muçulmanos vivem sem democracia no mundo. Ou seja, sem educação para a democracia.

Muitos seriam os exemplos que eu poderia apresentar, mas há um emblemático. A cobertura política, como referencial épico, intocável e inquestionável, de um líder violento, corrupto e ditatorial que levou os palestinos, durante décadas, pelos caminhos estéreis da guerra. Arafat foi o novo Che Guevara da Europa pós-maio de 68, e pela via de transformá-lo em mártir, se admitiu tudo. Inclusive fazer uma leitura maniqueísta do conflito árabe-israelense, criminalizar Israel em todas as suas decisões, e abandoná-la à sua sorte. O Hamas é, em parte, o resultado de nossas misérias. E poderíamos acrescentar a vergonha de querer julgar Sharon, mas não investigar nenhum só dos crimes cometidos pelas ditaduras do Oriente Médio, o abandono da tragédia de Darfur à sua própria sorte, ou as muitas genuflexões que fizeram alguns políticos europeus diante do conflito das caricaturas de Maomé. Por exemplo, o papel de Chirac, e isso apesar da enorme dignidade a imprensa francesa durante o conflito. Ou o triste papel de Zapatero, assinando um artigo quase de petição de perdão ao Islã. A última vergonha, protagonizada por outro espanhol, Javier Solana, quando, numa viagem à Arábia Saudita, enquanto se queimavam embaixadas, se proferiam ameaças de morte e se enchiam as ruas da confusa estética do fanatismo, defendeu que a islamofobia fosse equiparada, como delito, com o anti-semitismo. O professor Solana conseguiu, com isso, dar a imagem perfeita do europeu chamberliano: num país que destrói todos os direitos fundamentais, não disse nada da liberdade, banalizou o anti-semitismo como se fosse uma versão qualquer de racismo — com a qual, banalizou a Shoá —, e confundiu a liberdade de expressão de alguns desenhistas dinamarqueses, com a islamofobia. Ou seja, aceitou a pressão violenta dos grupos fundamentalistas islâmicos, como se fosse a maneira natural de debater os conflitos. Aceitou, portanto, a chantagem. O pior é que com este tipo de atitudes, e sob o pretendido guarda-chuvas de um bonito título, a aliança das civilizações, estamos deixando órfãos de representação os muçulmanos democráticos. Certamente, aliança das civilizações, mas com quem? Com o islamo-nazista Ahmadinejad, ou com a deputada Ayaan Hirsi?; Com os imãs que amotinam as ruas ou com a oposição democrática marroquina? Com Tariq Ramadan, ou com Salman Rushdie?

Se no âmbito político, não parece que estejamos à altura, o âmbito intelectual carece de alguns dos princípios que teriam que reger sua responsabilidade histórica. Neste sentido, o papel dos intelectuais como vanguarda do pensamento, foi, em muitos casos, deplorável. Autênticos artífices da criação de um pensamento antiisraelense projetaram uma imagem paternalista dos ativos terroristas islâmicos, confundiram causas legítimas com ideologias perversas e relativizaram o impacto que tudo isso podia comportar. Quer dizer, não estiveram, globalmente, e salvo as notáveis exceções que conhecemos, à altura das circunstâncias. É certo que se elevaram as vozes dos Glucksmann e os Alain Filkenkraut, mas também é fato que as universidades, os pensadores politicamente corretos e os foros de opinião preferiram escutar os Saramagos. Alguns Saramagos que choravam com o olho esquerdo cada vítima palestina em mãos israelenses, mas nunca choraram os mais de cem mil mortos do integrismo na Argélia, o milhão de mortos da loucura fundamentalista sudanesa, as centenas de mortos palestinos em mãos árabes, ou os milhares de libaneses cristãos assassinados por palestinos. Certamente, por não chorar, nunca choraram nem uma só vítima israelense, nem globalmente judia. Olhemos o último e terrível caso de Ilan Halimi e o fato, denunciado por Primo-Europa, em sua carta ao ministro Nicolas Sarkosy. Reproduzo um parágrafo:

“Ilan Halimi tinha 23 anos. Ele foi seqüestrado, torturado, depois morto. Tal assassinato foi precedido de diversas tentativas de seqüestro. 80% das vítimas da gang dos bárbaros (sem aspas) pertencem à comunidade judaica, que representa 1% da população francesa. As cifras não deixam lugar à alguma dúvida, à alguma negação”.

Contudo, temos observado o alarme intelectual pelo crescente anti-semitismo que sofrem nossas sociedades? O que teria ocorrido se as vítimas fossem de condição muçulmana? Determinada intelectualidade pratica uma indecente solidariedade seletiva.

Essa solidariedade seletiva, em função de quem morre e de quem mata, é a metáfora da traição intelectual. Uma traição que comportou o abandono da causa feminina, o abandono da luta contra a judeufobia e, o que é ainda pior, o abandono da defesa global da liberdade. Entre o dogmatismo antimoderno dos herdeiros do stalinismo, e o relativismo moral dos gurus do pensamento fraco, o mundo intelectual não foi capaz de criar uma consciência coletiva diante do desafio que nos ameaça.

O que podem fazer as democracias frente à loucura terrorista? Pergunta-se a este Congresso como mantemos nossas liberdades e, por sua vez, protegemos a segurança? Estas seriam minhas propostas básicas de atuação:

1.- Revisar os códigos penais e civis, para adequá-los à nova ameaça da qual padecemos. Isso implica no processamento legal de toda a rede ideológica e social do fundamentalismo islâmico, incluindo imãs que promovam a violência, ONG’s que a exaltam e todo tipo de propaganda que estimule a destruição dos valores democráticos. O fundamentalismo islâmico é uma forma de fascismo. Tem que ser tratado como o que é, uma ideologia totalitária que declarou abertamente a guerra à Carta de direitos fundamentais. Perseguir policialmente os autores dos atos terroristas, e não perseguir os ideólogos assentados em nossas sociedades e que gozam de todos os instrumentos democráticos para sua cruzada, é um erro que estamos pagando. Neste sentido, qualquer paternalismo para o fundamentalismo, com a sã intenção de proteger a multiculturalidade, é uma autêntica irresponsabilidade. A democracia tem que garantir a pluralidade de culturas de nossas sociedades. Com a mesma intensidade, tem que combater aqueles que usam essas culturas como desculpa para impor uma ideologia totalitária.

2.- Considerar a luta contra o anti-semitismo como uma prioridade política, intelectual e, é claro, policial. Por que o anti-semitismo como prioridade, e não o racismo ou a islamofobia ou qualquer expressão de xenofobia? Porque o anti-semitismo é, de todas as formas de intolerância, a que mais matou na história, a que conformou uma autêntica escola de ódio, e a única que foi capaz de criar uma indústria de extermínio. Poderíamos dizer que o anti-semitismo é a escola primeira da intolerância e que o fato de que hoje, no mundo, volta a ser um fenômeno em claro apogeu, é um indicador da gravidade da situação. Um termômetro que avisa da febre que padecemos. Um bilhão e 300 milhões de cidadãos estão sendo educados, de forma sistemática, no ódio a um povo cuja dimensão não chega aos 13 milhões de pessoas. Num estudo sobre o anti-semitismo islâmico intitulado "Viagem ao inferno", que tive a honra de preparar para o Centro Simon Wiesenthal de Paris, me expressei nestes termos: "o anti-semitismo islâmico conseguiu unir todos os lugares-comuns da judeufobia, dos religiosos, até os sociais ou políticos, e assim se encontram em alegre companhia desde os mitos infantis do anti-semitismo medieval cristão, passando pelos político-sociais da Okhrana russa em seus "Protocolos", até os modernos do anti-sionismo (entendido como combate contra o ‘imperialismo’) ou os próprios mitos corânicos". São tão populares as Suras dedicadas aos judeus, como lidos são o "Mein Kampf" ou os próprios Protocolos, e isso, da Síria até a Malásia, do Sudão até a Palestina. Não só não existe uma revisão dos preconceitos históricos, como personagens de sinistro passado tais como o antigo grão mufti de Jerusalém, Haj Amin Al Husseini, o amigo pessoal de Ribbentrop, Rosenberg e Himmler, responsável pelo esquadrão "Hanjar" que provocou a matança de 90% dos judeus bósnios e responsável também por haver pressionado Adolf Eichman, para que não pactuasse com o governo britânico a troca de prisioneiros de guerra alemães por 5.000 crianças judias, que deviam ser embarcadas para a Terra Santa, e que viajaram para a Polônia, são considerados heróis épicos. Como disse o estudioso do fenômeno Patrício Brodsky, "o antijudaísmo na mundo árabe alcança a categoria de sentido comum", "ocupa um lugar central no pensamento hegemônico dominante — único — na totalidade dos países árabes, e, pela via da interação dos preconceitos construída como política de Estado, vai criando lentamente o consenso de que "os judeus não são parte da humanidade". Daí resulta fácil a educação massiva no estigma, o preconceito e o ódio aos judeus. Na maioria dos casos, esse ódio vai da mão do ódio aos ocidentais. De toda forma, não é o judeu o paradigma dos valores ocidentais? E assim temos contemplado, sem elevar nenhuma só resolução condenatória, como a televisão pública egípcia apresentava, em pleno Ramadã, uma série baseada nos Protocolos e o mito do complô judaico internacional, como se ensina a odiar os judeus nos livros de texto palestinos que financiamos com dinheiro europeu ou mais próximo ainda, como em sete países europeus, acaba de estrear a produção mais cara da história do cinema turco, "O Vale dos Lobos-Iraque". Esta película, que se pode ver em 68 cinemas da Alemanha, relata fatos como o assassinato em massa de crianças e mulheres iraquianas para enviar seus órgãos a Israel, em linda conexão com o mito cristão medieval dos judeus bebedores de sangue de crianças cristãs. Protagonizada pelo famoso ator turco Necati Sasmaz, relata a luta heróica do agente turco Polat Alerndar contra Sam Marshall, um comandante das forças especiais norte-americanas que atua como vice-rei da região. Marshall é um sádico que não tem escrúpulos em assassinar, deportar e torturar civis para impor a hegemonia dos Estados Unidos. Um dos comparsas de Marshall é um médico judeu — uma espécie de doutor Mengele — que trabalha na prisão de Abu Ghraib e pede ao vilão que não lhe envie prisioneiros moribundos porque precisas deles vivos para tirar-lhes os órgãos. Este libelo merecedor de um espaço de honra na biblioteca de Goebbels, não só é um êxito na Turquia, como também o é na Alemanha turca! E não parece que acontece nada...
Combater, pois, o anti-semitismo tem que ser uma prioridade em nossas sociedades, porque é a porta de entrada do desprezo a todos os valores que nos representam. Aprendendo a odiar os judeus, se aprende a odiar.

3.- Na mesma hierarquia de prioridades, é fundamental fortalecer nosso compromisso democrático com os direitos da mulher, porque a escravidão da mulher é a pedra angular do discurso fundamentalista. Se aprendendo a odiar os judeus, as crianças muçulmanas aprendem a odiar os princípios da tolerância, aprendendo a depreciar a mulher, são educados no desprezo à igualdade. Quando a própria mãe, a própria filha, a própria esposa não estão em um plano de igualdade e respeito, porém que possam ser submetidas, desprezadas e segregadas, a sociedade se fundamenta numa profunda miséria moral. O marido dominante pode ser, por sua vez, o servo dominado, e assim até chegar à perda absoluta da identidade. Sustento, com convicção, que a misógina islâmica é a base da cultura do martírio. O problema não é menor quando encontramos, em nossos próprios bairros periféricos, um aumento alarmante do machismo mais violento. Não é uma casualidade e vem ao lado do aumento do integrismo. Com certeza, também aqui estamos fracassando, e permitimos, com a desculpa de respeitar o Islã, um autêntico retrocesso dos direitos das mulheres.

O que dizer, além disso, da bondade com que toleramos que existam no mundo dezenas de países cujos códigos penais convertem as mulheres em escravas? Toleraríamos uma nova África do Sul racista? E, no entanto, toleramos alegremente as Arábias, o Qatar, o Irã do preconceito feminino. Não é um tema fútil, mas um autêntico tour de force entre o Islã e a democracia, daí a importância das proibições como o do véu nas escolas francesas. A França deu alguns passos, mas a maioria dos países está permitindo, tolerando e até "compreendendo" a segregação de nossas mulheres muçulmanas.

4.- Na mesma linha de recuperação de valores, também é fundamental que nossa imprensa e nossa intelectualidade deixem de criminalizar o Estado de Israel, porque por esse caminho a única coisa que conseguem é enviar mensagens equivocadas ao mundo islâmico, legitimar os discursos das tiranias judeófobas da região, e abandonar os caminhos da paz. Não se fica mais próximo da paz minimizando o terrorismo palestino. Nem se fica mais próximo da causa palestina. Só se está mais próximo da demagogia integrista.

5.- E, se for necessário, pressionar com mais seriedade os países que tiranizam seus cidadãos e os educam no fanatismo. O principal inimigo do Islã é a falta de liberdade. E, por extensão, é nosso principal inimigo. Entendo que a geopolítica não assume valores, mas interesses. Mas a Europa, não foi demasiado compreensiva com a implicação da Síria e do Irã na logística terrorista? Não é demasiado indiferente com a loucura sudanesa? Nem a ONU está à altura do momento, muito entretida em demonizar Israel para preocupar-se com umas quantas ditaduras árabes, que seqüestram sua assembléia geral, nem o estão a maioria de nossos próprios países. Ainda não entendemos que o Irã não é um país exótico, com idéias feudais e um pouco de extremismo. O Irã, como outros países da região, é uma grande fábrica de ódio antiocidental, antidemocrático e anti-semita. É a Alemanha nazista do século XXI, passado pelo filtro do discurso islâmico.

6.- Finalmente, podemos retirar direitos individuais, em matéria de vigilância, detenção, controle, para garantir a segurança? Este debate, na maioria dos países, está sendo realizado em termos enganosos. De fato, a democracia revisa permanentemente suas leis para adequar-se aos desafios que a sociedade cria, e os códigos penais são aparados ou reformulados em função de cada momento. Ou não temos tirado direitos na luta contra o maltrato, para colocar o exemplo mais abrupto? Se hoje temos uma ameaça que viaja de metrô ou de trem, ou voa em aviões conduzidos por máquinas de matar humanas, como não vamos tirar alguns direitos individuais? Como não vamos aumentar os controles e a pressão policial? Não estamos destruindo a democracia, estamos reforçando suas fendas. De fato, a estamos defendendo. O difícil é saber medir os limites.

"A tirania totalitária não se edifica sobre as virtudes dos totalitários, mas sobre as falhas dos democratas", assegurou Albert Camus faz já algumas décadas. E aí temos o medo de alguns dirigentes europeus por uns simples desenhos de Maomé. Longe de combater os fanáticos, decidimos restringir a liberdade. Quem vai desenhar, agora, Maomé? Aí temos o Solana falando de islamofobia na Arábia onde se destroem todos os direitos fundamentais. Aí temos a bonita Rússia tomando chá com o Hamas. Aí temos o Kofi Annan mais preocupado com a democracia israelense que com as dezenas de tiranias. Aí temos nossas misérias ao sol, e dessas misérias se alimenta a hidra totalitária. Camus e a consciência. É disto que se trata. De recuperar a consciência da razão frente ao fanatismo, a tolerância frente ao ódio, a cultura da vida frente ao culto da morte. E de recuperar a consciência de nossa responsabilidade com a liberdade. Novamente Camus e com ele finalizo:

"Apesar das ilusões racionalistas, e inclusive marxistas, toda a história do mundo é a história da liberdade."

PILAR RAHOLA
Tradução: Szyja Lorber