Artigos Especiais para Internet - Alerta ONGs!


 
Quando, não faz muito tempo, o jornalista africano Georgianne Nienaber se perguntava, no New Times de Ruanda, se as ONGs não estavam se tornando os novos colonizadores da África, assinalava a fogo uma das misérias mais incômodas do panorama informativo. De toda forma, e como bem sabemos, o mundo das ONGs desfrutou de um autêntico pacto de silencio que, por medo de sujar o bom nome das que trabalham com seriedade e honestidade, calou-se sobre as muitas indecências das que não são senão a desculpa de um negócio bem montado. O movimento humanitário é a chave da sobrevivência em muitas regiões do mundo, mas este mesmo fato, que lhe outorga um plus de confiança, também pode ser a entrada ideal de um mundo de altas finanças e baixas paixões. Não esqueçamos que as ONGs representam, em muitas regiões do planeta, uma parte substancial da economia dos países onde trabalham, e são, portanto, parte da engrenagem do poder financeiro. Debulhar o grão da palha, pois, teria que ter sido uma prioridade informativa e, certamente, esta foi a última das prioridades. Temos tido medo, nós os jornalistas, de analisar criticamente as ONGs? Estou tão segura disso, que creio ser pertinente entoar um mea culpa coletivo pelo paternalismo com que temos tratado o tema. As ONGs têm sido tratadas, informativamente, com algodão, e liberadas da árdua condição jornalística de conhecer a verdade mais além das aparências. Sem dúvida, fizeram parte dos totens inquestionáveis, impolutas num mundo sujo, como sei do conceito de solidariedade que esgrimem, ameniza as intenções, inclusive as mais obscuras.

Sem dúvida, com lentidão, mas com firmeza, vão sendo descobertas algumas das manchas mais evidentes do universo sem mácula que parecia ser o planeta solidário, e não são precisamente manchas pequenas. No lado sórdido, um estudo da Universidade de Harvard, que mostra como mais de uma centena de ONGs americanas, de 95 a 2002, se viram implicadas em atividades criminosas. Há poucas semanas, o jornalista David Jiménez, que tinha seguido o rastro de centenas de ONGs no Sudeste Asiático, especialmente à raiz do desastre do tsunami, publicava uma reportagem no jornal El Mundo, com dados assombrosos: carros de luxo, chegados à Ásia graças às isenções fiscais das ONGs, e revendidos por elas no que se considera um negócio líquido e certo; ONGs que usavam o dinheiro para veicular ideologia islamo-fascista, convertendo a solidariedade numa eficaz arma de proselitismo; casas de luxo, que inclusive produziam uma revalorização do mercado imobiliário e que ele explicava nestes termos: “Em Banda Aceh, capital da destruída província Indonésia de Aceh, o preço da mordia nos melhores bairros, nas áreas mais centrais, triplicou pela concorrência das ONG em conseguir casas maiores e melhor situadas”, o que chegou a significar a expulsão de famílias das casas de aluguel, porque pagavam menos que as ONGs. Poderia acrescentar um longo etcetera que chega, inclusive, ao truculento mundo da prostituição e a venda de crianças em adoção.

Só no Camboja, o movimento humanitário representa a metade do orçamento do país, mas também significa um caos de organizações que vão desde o trabalho sério e contrastado, até um emaranhado de organizações que viajam em carros de luxo e promovem festas épicas. “As festas de Phom Penh são lendárias. Vinho de safra, marisco e bailes até a madrugada, enquanto a poucos metros, incapacitados pela guerra civil que destruiu o país, pedem esmola. São muitos os bares de moda que vivem, exclusivamente, da clientela das ONGs”, denuncia David Jiménez. Com estes dados na mão, não é estranho que pessoas como o senador norte-americano Charles Grassley, estimulem medidas políticas para manter o controle das mais de 60.000 organizações registradas no mundo.

Outro fenômeno muito inquietante é o das ONG vinculadas às organizações islâmicas, a maioria delas com uma ideologia que justifica o integrismo, que alimenta um anti-semitismo feroz e que estabelece uma guerra ideológica aberta contra os valores ocidentais. Estas ONGs apresentam-se como solidárias com as vítimas palestinas ou chechenas, e têm sido muito ativas na tragédia do tsunami. Além das que incorreram no delito de desviar dinheiro para o terrorismo, existem as que o utilizam para a ideologia que as sustenta, e tudo em nome da solidariedade. Estas ONGs não atuam só no Terceiro Mundo. Atuam e conseguem reconhecimento e dinheiro em plena Europa.

Além dos aspectos mais sórdidos, algumas denúncias põem a descoberto as enormes estruturas empresariais que se tornaram as ONGs, com freqüência mais preocupadas em sobreviver e crescer, que em atuar sobre a área. Em nosso país, nesta mesma semana impressionou-nos uma magnífica reportagem da TV3 na qual, Juanita Mateo, uma mulher catalã solidária, explicava seu aborrecimento quando visitou a criança que tinha apadrinhado em El Salvador com a ONG “Ajuda em ação”. A reportagem não colocava em evidência a situação de corrupção, mas sim assinalava uma estrutura empresarial que devorava a maior parte do dinheiro da solidariedade. E, estacava a publicidade enganosa do fenômeno do apadrinhamento, que joga com a isca da foto de um menino real, que, no entanto, nunca recebe diretamente a ajuda solicitada. O fato é que Juanita encontrou seu menino doente, vivendo numa marginalidade extrema, e que, em anos de ajuda solidária dela, só tinha recebido, por parte da ONG, um par de cadernos. No mínimo, e no melhor dos casos, aparece altamente desconcertante.

Sem dúvida, nem tudo é ouro que reluz no universo solidário, por mais que as ONGs que trabalham bem, fazem um trabalho extraordinário. Precisamente por isso, e porque o conceito de solidariedade é tão importante como por sua vez frágil, o pacto de silencio de que desfrutaram até agora tem que acabar. O descrédito das ONG não se evita escondendo suas misérias, mas expondo-as ao sol. Porque já se sabe desde antigamente: se não retirarmos as maças podres, apodrece todo o saco.

Pilar Rahola: Diari Avui. Barcelona.
Tradução: Szyja Lorber