Condições imperiosas para falar de paz
Nos dias que antecederam a conferência de Annapolis houve grandes dúvidas e expectativas pelas declarações feitas meses antes e que, aos poucos, foram sendo diluídas pelo tempo. Observe-se que a base de todo o projeto é que foi apresentado por um governo norte-americano em sua última etapa de mandato, com um presidente muito criticado interna e externamente (leia-se enrascada do Iraque), e que trata de obter algum trunfo antes de retirar-se do cenário político.
Não somos contra a paz. Pelo contrário, o Visão Judaica, diversas vezes, neste mesmo espaço, tem reafirmado sua clara posição de dois Estados no Oriente Médio — um judeu e outro palestino — coexistindo em paz e harmonia, lado a lado. Porém, sejamos realistas: há ainda uma enorme distância até este ideal. Nenhum acordo até hoje deu certo porque, de um lado há democracia, e do outro despotismo ou, exatamente ausência de democracia. Se ambos fossem democráticos, não haveria necessidade de acordos. A convivência seria naturalmente pacífica. Ou alguém já viu guerra entre duas democracias?
Em Israel vemos um primeiro ministro que caiu na impopularidade, e procura fazer todo o possível para ganhar tempo e também algo que melhore sua imagem perante a opinião pública. Do outro lado, em contraste, o presidente da Autoridade Palestina, que nem preside, nem é autoridade, e que já deu mostras suficientes de incapacidade para se impor ou conter os que lhe tomaram Gaza à força e de lá continuam, todos os dias a disparar mortíferos foguetes “caseiros”. Nesse contexto, a Conferência de Annapolis vem a calhar. Mas apesar de tudo, é uma tentativa em busca da almejada paz. E, além disso, reunir-se para fotografias e produzir material para que os jornalistas possam falar de um possível acordo de paz é muito melhor que outras situações mais violentas.
Porém, antes de falar de paz, temos que criar um clima que torne isso possível. Por exemplo, mudar os livros didáticos da Autoridade Palestina, nos quais os mapas da região façam aparecer também o Estado de Israel, que constitui sólida realidade há 60 anos e é fato consumado. Está aí o âmago da questão: à exceção do Egito e da Jordânia, os demais países árabes, incluindo os palestinos, e muitos não árabes, mas muçulmanos, ainda não aceitam a existência do Estado judeu. E no caso do Irã, ao invés de paz, grunhe-se ameaças de apagá-lo do mapa e briga-se com o mundo todo para produzir energia nuclear que cinicamente se alega ser para fins pacíficos.
Que os livros de história palestinos e árabes, ao abordarem a Segunda Guerra Mundial, mencionem também o que foi a Shoá para o povo judeu. Que a base do conflito se encontra não em que "os sionistas expulsaram os palestinos de suas terras", porém na modesta verdade: que os estados árabes são os culpados pela situação dos palestinos ao negarem-se a dividir, em seu momento, a região em dois Estados, como demandava a histórica decisão da ONU na Partilha votada por todos os países-membros sob a presidência do brasileiro Oswaldo Aranha. Os árabes optaram pela guerra, da qual foram fragorosamente derrotados.
Que se ponha fim à contínua incitação da violência contra Israel nas escolas, nas mesquitas, e nas emissoras de rádio e de TV palestinas. Que cessem os atentados e o lançamento de mísseis. Quando tudo isso começar a mudar, aí então, chegará o verdadeiro momento de falar de paz.
Em janeiro damos uma pausa, mas voltamos em fevereiro. Até lá.
A Redação