Uma estranha e interessante história: Yad Vashem abre exposição sobre muçulmanos que salvaram vidas no Holocausto
Em 1934, Herman Bernstein, o embaixador dos Estados Unidos na Albânia escreveu:
”Não há sinais de qualquer discriminação contra judeus na Albânia, porque acontece que a Albânia é um dos raros países da Europa hoje, onde o preconceito religioso e o ódio não existem, até porque os próprios albaneses estão divididos em três fés”.
Uma nova exposição no Yad Vashem (Museu do Holocausto) acaba de ser aberta em Jerusalém. É sobre muçulmanos que deram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto. A exibição conta, com fotografias e testemunhos, a façanha de dezenas de muçulmanos albaneses que, regidos pela ética do Islã, arriscaram suas vidas para salvar centenas de judeus perseguidos pelo nazismo.
É a primeira vez que o Yad Vashem abre uma exposição sobre muçulmanos que salvaram judeus durante o Holocausto. A mostra é centrada nos muçulmanos albaneses que foram previamente reconhecidos como "Justos entre as Nações" — a maior honraria que o museu da Shoá entrega às pessoas que dedicaram suas vidas para salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
A exposição é intitulada "Besa: Um código de honra - Muçulmanos albaneses que resgataram judeus durante o Holocausto", e consta de uma coleção de imagens do fotógrafo norte-americano Norman Gershman, a maior parte delas, retratos dos albaneses Justos e suas famílias, acompanhados de breves textos.
Antes da Segunda Guerra Mundial, tão só 200 judeus viviam na Albânia. Após a ascensão de Hitler, em 1933, milhares de judeus que escapavam dos nazistas cruzaram a fronteira a partir da Iugoslávia, da Alemanha, da Áustria e da Sérvia.
Quando os alemães ocuparam a Albânia em 1943, a população albanesa recusou-se a colaborar com os nazistas entregando-lhes, como pediam, listas de judeus residentes naquele país.
A ajuda que salvou a vida de muitos judeus na Albânia, predominantemente muçulmana, baseou-se em Besa, um código de honra que literalmente significa "manter uma promessa". Quase todos os judeus viviam na Albânia durante a ocupação alemã puderam salvar-se, e mais, é um dos poucos países que, depois da guerra, contava com uma população judaica maior que antes da guerra.
"A extraordinária história da Albânia, onde uma nação inteira, incluindo o governo e a população, atuou para resgatar judeus, é verdadeiramente notável", disse a diretora do museu, Yehudit Shendar. "Muitos, se não todos, estavam bastante influenciados nesta escolha pelo Islã. É uma história muito humana, que ressalta um aspecto pouco conhecido do Holocausto".
"É uma história que raramente foi tornada pública" afirma sobre ela o sobrevivente da Shoá Iaacov Altarat, de 74 anos, que vive atualmente em Tel Aviv, Israel. Altarat escapou para a Albânia com seus pais quando tinha só 8 anos, em 1941, e o país o abrigou durante a guerra. "Esta é a história de uma nação que salvou todos os seus judeus por um código de comportamento", declarou ele.
"Por que meu pai salvou um estranho, colocando em risco sua vida e ao povo inteiro?" — pergunta Enver Alia Sheqer, filho do Justo entre as Nações Ali Sheqer Pashkach, cuja obra é contada na exposição. "Meu pai era um devoto muçulmano. Ele acreditava que salvar uma vida era entrar no paraíso".
A exposição fica aberta no Yad Vashem até meados do próximo mês, e depois será levada a Nova York, onde estará exposta nas Nações Unidas no dia 27 de janeiro, para o Dia Internacional da Recordação do Holocausto. (Traduzido e adaptado do The Jerusalem Post).