Minhas primeiras memórias de contato com o judaísmo são os Sedarim de Pêssach na casa do meu bisavô. Lembro que fazíamos o primeiro Seder lá, com o meu bisavô lendo a Hagadá baixinho e todos à sua volta conversando. Ninguém entendia bem o que estava acontecendo, somente sabiam que deveriam esperar terminar a leitura para começar a comer. No primeiro ano após o falecimento dele tentamos fazer uma leitura da Hagadá, cada um lendo um pouco, mas não deu certo. A partir do segundo ano decidi tomar a frente, tirando xerox de uma Hagadá que eu havia ganho na Escola Israelita e pedi ao meu avô para falar as principais partes. Nesta época, até o meu bar-mitzvá era praticamente tudo que tínhamos, além, é claro, do tradicional jantar de sexta-feira na casa da minha avó e o almoço de sábado, na casa da outra avó, porém sem grande significado religioso.
Alguns anos depois comecei namorar a Patrícia (hoje minha esposa), que veio de São Paulo. Sua família tinha mais tradições judaicas e um dia participei de um Kabalat Shabat seguido de jantar na sinagoga do Beit Chabad. Como freqüentei a sinagoga depois do meu bar-mitzvá, sendo algumas vezes chazan, a reza no Beit Chabad me era conhecida. O jantar de shabat foi cansativo para mim, principalmente a última oração, do Bircat Hamazon. Hoje em dia, aguardo a semana inteira para este jantar com minha família, rezo o Bircat Hamazon, muitas vezes acompanhado dos meus filhos.
Eu e o Maurício (meu cunhado) acabamos ficando amigos e sócios em uma franquia de escola de informática. Depois de chegar a Curitiba, ele se aproximou muito do rabino Fitche, seu processo de teshuvá foi rápido. Uma das principais mitzvót é o estudo da Torá e quão rápido uma pessoa se interessa pelo judaísmo ela começa procurar aulas, palestras, aconselhamentos com rabinos. Como o Maurício gastava bastante tempo na empresa, nada mais natural que o Rabino viesse dar aulas para ele na própria escola. Eu não gostava muito desta estória. Afinal, via o Rabino e tudo o que ele representava, como uma versão muito antiga do judaísmo. Eu acreditava que a Torá tinha sido escrita por Moisés em uma época que não tinha geladeira. Se ele a tivesse escrito nos dias de hoje, com certeza poderíamos comer porco e camarão tranquilamente... De qualquer jeito parecia combinado, o Rabino entrava para começar a aula e eu tinha algum compromisso inadiável que não me permitia ficar...
Algum tempo depois o Maurício foi morar nos Estados Unidos para estudar em uma yeshivá (seminário para educação religiosa judaica). Em seguida, fui fazer um curso de liderança em Israel. Antes do curso fui visitar o Maurício (que na época continuava na yeshivá em Monsey – perto de Nova Iorque). Apesar de então não me interessar em estudar religião, pelo menos era um lugar em que poderia dormir de graça e ir para Nova Iorque todos os dias, principalmente no dia em que ele ficaria “preso” na yeshivá – o Shabat. Quando cheguei, recebi uma acolhida muito grande por parte do Maurício, dos rabinos e dos colegas dele que também estavam lá. Várias coisas me marcaram quando ali permaneci, por exemplo, o senhor de mais de 60 anos sentado junto aos outros alunos de 18-20 anos estudando no nível básico. Também as palestras dos rabinos e a profundidade da Torá. Uma das grandes conversas que tive foi com um dos rabinos que me explicou com detalhes o processo de outorga da Torá por D-us no Monte Sinai, com detalhes que parecia que eu estava assistindo um filme de cinema. Em seguida, o Maurício me comunicou que já tínhamos duas casas para fazer refeições no Shabat e que minha presença era obrigatória. No começo achei um pouco estranho, mas a partir de um certo ponto até acabei gostando da experiência.
Na volta ao Brasil eu finalmente retomei contato com o Rabino Fitche, começando a ir no Kabalat Shabat às sextas-feiras. Passei a estudar semanalmente à noite (enquanto a Patty estava na faculdade). Estudamos um pouco de tudo, mas principalmente o básico – Parashat Hashavuá e também Chassidut, que a cada aula me deixava mais fascinado e curioso pelo tema, e foi isto que me deu uma base para querer sempre crescer mais e mais no judaísmo.
Quando eu a Patty resolvemos casar, decidimos cuidar de Taharat Hamishpacha (leis de pureza familiar). Não sabíamos muito bem o que era, mas concordamos que era uma coisa muito importante para nosso casamento. Um dia antes a Patty foi à mikvê pela primeira vez junto com várias mulheres da família e com D. Tila. Os convidados do nosso casamento ficaram impressionados com as palavras do Rabino Fitche.
Um ano e meio depois fomos para os Estados Unidos, eu fui fazer MBA numa Universidade perto de Boston. Durante nossa estada lá fomos várias vezes nas “Chabad Houses” (como são chamados os Beit Chabad por lá), tanto em Boston (onde passamos Rosh Hashaná e Iom Kipur) quanto em Harvard. É incrível perceber que em quase qualquer lugar do mundo para onde se viaje existe um Beit Chabad onde a pessoa é bem recebida, tem um lugar para rezar e jantar na sexta-feira à noite, e para dormir se for preciso... (Também em Curitiba temos este mérito, graças a D-us). Um outro evento que participamos durante nosso tempo lá foi a Kinus Hashulchim (reunião mundial dos emissários do Beit Chabad em todo o mundo) que é realizado anualmente em Nova Iorque. No começo eu a Patty não estávamos muito confortáveis com a idéia, mas o Rabino Fitche nos ligou algumas vezes pedindo que fossemos para encontrá-lo lá. Foi uma grande emoção ver o trabalho que é realizado pelo Beit Chabad ao redor do mundo, nos lugares mais remotos possíveis...
Quando voltamos dos Estados Unidos, decidimos nos mudar para São Paulo, por motivos profissionais e para dar uma educação e um ambiente mais religioso para nossos filhos (apesar de na época não termos nenhum, já tínhamos nossos planos).
Nestes seis anos que estou em São Paulo, mantive contato com diversos rabinos, pois é impressionante a diversidade de linhas e sinagogas da comunidade judaica paulista; entre eles outros Beit Chabad, como o Central – com o Rabino Yossi Halpern e o Knesset Israel com o Rabino Malowany, que nos acolheram calorosamente em nossa mudança para São Paulo. Também neste tempo não perdemos o contato com o Rabino Fitche, sempre trocando idéias de novos projetos, desafios e dificuldades, já que o processo de teshuvá é um caminho longo e individual — ainda tenho minhas divergências com a Patty, meus pais e familiares.
Visitamos meus pais em Curitiba a cada um ou dois meses e um dos primeiros a saber que estamos chegando são o Rabino Fitche e a D. Tila, pois minha mãe vai fazer as tradicionais encomendas de comida kasher no Ki Tov do Beit Chabad.
Gostaria de agradecer ao Rabino Fitche e à D. Tila que tanto sacrificaram de suas vidas pelo lindo trabalho que realizaram e pelo impacto que tiveram na minha vida e na vida da minha família. Muito obrigado e parabéns pelos 25 anos de Curitiba. Que Hashem os abençoe em todos os novos projetos e consigam seguir na sua missão de trazer mais luz da Torá para esta comunidade.
* André Kriger é empresário, natural de Curitiba e reside atualmente em São Paulo.