A mídia mundial detesta Israel

Reinaldo Azevedo *



 
Em uma dobradinha política com o Hamas, o Hezbolá, financiado por Síria e pelo Irã, seqüestrou dois soldados israelenses. Israel bombardeia o sul do Líbano, que abriga os terroristas. Civis acabam morrendo. E, claro, a imprensa mundial, incluindo boa parte da brasileira, faz o quê? Censura, de novo, a vítima. Na primeira página da Folha de São Paulo do domingo seguinte, há uma chamada para o texto de um tal Rami G. Khouri que é de estarrecer. Khouri é editor-chefe do jornal Daily Star, de Beirute. O que isso quer dizer? Nada, é claro. Mas parece que o credencia para nos dar lições sobre como entender não apenas o Oriente Médio, mas também a política externa dos EUA. Sim, o tal Khouri, do influente Daily Star de... Beirute! É um resumo de todos os equívocos, quiçá malandragens, sobre a questão. Para ele, o conflito pode ser dividido num jogo de quatro duplas: Hezbolá-Hamas; governo da Autoridade Nacional Palestina-governo do Líbano; Síria-Irã e Israel-EUA. Das quatro, adivinhem qual é, para o rapaz, a mais intransigente? Não levará um foguete do Hezbolá na testa quem apostou na última. Tentando ser irônico, diz ele que Israel — “que ama a paz” — responsabiliza os governos da ANP e do Líbano pelo conflito. Que absurdo, não?
A ANP é hoje governada por um grupo terrorista. Há homens seus entre os seqüestradores do soldado. O governo do Líbano tolera a presença do Hezbolá em seu território. Ora, dirão: tolera porque é obrigado. Não teria como expulsá-lo. Então que divida o poder com ele e, pois, as dores e as delícias dessa convivência. Se é uma divisão consensual do governo do país, as conseqüências também serão divididas. Ou que vá à guerra.
Khouri refaz todo o roteiro da mitologia antiisraelense, repetida bovinamente por parte da mídia nacional. O fato de a política de segurança de Israel não ter conseguido eliminar o terrorismo seria a prova de que está errada. Ok. Admitamos que esteja. Qual era a alternativa? Negociar. Mas negociar com quem? Com o Hamas? Com o Hezbolá? Qual é a pauta de ambos? Por enquanto, é varrer Israel do mapa, o que não parece uma perspectiva com a qual israelenses devam condescender ou flertar. Negociava-se com o braço legal da Fatah. E pensar que Arafat, com Barak, poderia ter levado 95% do que pedia... A esta altura, os palestinos já teriam conquistado o resto. Não! Quando ele viu que a paz era possível, recuou.
O analista junta o par Hamas-Hezbolá não porque os veja como terroristas, mas porque seriam o abrigo de um povo sofrido e radicalizado, desconfiado da autoridade das suas lideranças moderadas. A lógica perturbada do cretino é a seguinte: eles praticam atentados contra Israel; Israel reage e acaba atingindo civis; isso só fortalece os dois grupos, o que é ruim para todo mundo. Como ele imagina romper este círculo vicioso? Israel leva um foguete na cabeça ou seus cidadãos são assassinados em atos terroristas, mas fica quietinho, à espera do próximo alvo? Em nenhum momento, os dois bandos são chamados pelo que são: “terroristas”. Em vez disso, “grupos de resistência”.
O outro par, governo do Líbano-governo da ANP, merece um tratamento ridiculamente risível. Vá lá que o Líbano não consiga botar o Hezbolá para correr, mas que se reconheça que são coisas distintas. O governo da ANP não está seqüestrado por terroristas; ele é um governo terrorista.
Sobre a dupla Síria-Irã, observa o pensador, que são financiadores dos “resistentes” e que travam “batalhas políticas mortais” contra Israel. Se vocês lerem o artigo, no parágrafo em que parece que vai haver, enfim, uma condenação dos dois Estados, quem leva a pior? Os EUA! Diz ele que os americanos nada mais fazem do que reconhecer o direito de Israel à autodefesa — direito, observa, negado aos civis palestinos e libaneses. Quem seriam esses “civis”? Hezbolá e Hamas?
Chega a ser espantoso, mesmo para esse padrão de jornalismo, que não se deixe claro, com todas as letras, que Israel foi, nos dois casos, vítima de uma agressão. Chega a ser espantoso que não se lembre que o país fez alguns movimentos importantes rumo à paz: deixou o Líbano (e o Hezbolá saiu dando tiros para o alto, chamando o fato de uma conquista sua); retirou, no muque, seus colonos de Gaza — emitiu, enfim, sinais de entendimento; rompeu a velha dualidade partidária entre trabalhistas e Likud, com a formação de um centro moderado.
E levou em troca o quê? Atentados, seqüestros, foguetes. O artigo do sujeito traz um absurdo lógico repetido ad nauseam por aqui: as reações de Israel só fortalecem os grupos islâmicos radicais. Nem mesmo se conjectura como ou onde poderiam estar os israelenses hoje se não tivessem resistido. A Guerra dos Seis Dias revelou a índole pacífica de seus inimigos...
A Folha de São Paulo dedica depois mais uma página aos “fracassos” do governo Bush, a quem se atribui a responsabilidade pela radicalização do Oriente Médio! A reportagem diz ouvir “analistas independentes”. Todos os independentes, curio­samente, são anti-Bush... Aí já estamos diante de uma salada russa, em que a questão palestina e a ocupação do Iraque são servidos numa mesma cumbuca, como se fossem temas casados. E não são. Se os israelenses migrassem todos para o Pólo Norte, os radicais islâmicos se contentariam em passar o dia tentando descobrir de que lado fica Meca? Tenho a certeza de que, em seguida, tentariam derrubar os governos islâmicos laicos (ainda que ditaduras ou semiditaduras) e depois insuflariam uma intifada entre a população islâmica européia.
Israel não teve outra saída a não ser atacar. É a sua única defesa. E, anotem aí: se for necessário, com muito sangue, é certo, vai reocupar Gaza para valer; vai se instalar no sul do Líbano, ampliar a zona de segurança para seus cidadãos. E tem o dever moral de fazê-lo, a exemplo de qualquer Estado atacado por forças hostis. Mais: retomará a política dos assassinatos seletivos de líderes terroristas, o que, claro, escandaliza mais o mundo do que atentados a ônibus que transportam crianças israelenses. Seus pedaços não costumam ganhar as primeiras páginas.
A seriedade de análises como a deste senhor, que pauta um setor da mídia brasileira, se resume na expressão de um outro pensador: “Até onde chegará essa loucura? Porque por trás dessa loucura está o desejo de domínio do império [americano], um desejo que não tem limites e que pode levar o mundo a um Holocausto. D-us nos livre!”. Trata-se de Hugo Chavez, um palhaço internacional, disposto a apoiar a aventura nuclear iraniana.
Israel tem, sim, algumas tarefas urgentes: fazer o que estiver a seu alcance para proteger seus cidadãos e, caso os EUA não o façam por qualquer das inúmeras razões que poderiam ser elencadas, impedir que o Irã venha a ter armamento nuclear. A exemplo do que já fez com o Iraque em 1981. “Humanistas”, a exemplo do tal Khouri, vão reclamar. A última vez em que “humanistas” dessa natureza pediram calma, Hitler chegou ao poder pelas urnas e depois deu um golpe.
E uma primeira observação final: o Hamas não chegou ao poder na Palestina porque seu povo está em desespero e porque Israel desmoralizou a Fatah, de Arafat. Chegou porque os palestinos reagiram contra um dos governos mais corruptos de que se tem notícia. Se a família de Arafat repatriasse o dinheiro seu que está no exterior, dava para fazer um Fome Zero para os palestinos. E uma segunda observação final: enquanto Israel estava no Líbano, os foguetes do Hezbolá mal passavam a fronteira. Agora, estima-se que já possa chegar a Tel-Aviv. Se o governo do Líbano não fizer nada a não ser choramingar, Israel terá de fazê-lo. E, nesse caso, só sair quando os terroristas tiverem ido todos para o inferno.

"Chega a ser espantoso que não se deixe claro, com todas as letras, que Israel foi vítima de uma agressão"

* Reinaldo Azevedo é jornalista, editava a aplaudida revista “Primeira Leitura”, que deixou de circular, e atualmente escreve para a Revista Veja e no blog
blogdoreinaldoazevedo.blogspot.com