Eu não posso me esquecer de um velho professor meu. Lembro-me de seu nome, que acredito era Jacob, de maneira difusa e imprecisa. Lembro-me de como me ensinou tantas coisas. Era o início da década de sessenta, e eu vivia em Santo André. A escola judaica se esgotava na quarta série. O querido e bem lembrado moré (professor em hebraico) Moisés Kandelman nos acompanhara até então no extinto Externato Hebreu Brasileiro Independente, depois Externato Oswaldo Aranha, também já fechado, onde aprendi a ser moré também, no final dos anos sessenta e depois na segunda metade dos anos setenta.
O senhor Jacob era um sobrevivente do Holocausto que sabia hebraico, tefilá (orações) e Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés) e noções de Judaísmo. Um homem de boa índole, pouco crítico e conhecedor de sua tradição e crenças. Que D-us o proteja e abençoe no Gan Éden. A ele devo muito de minha pequena base de Judaísmo. Os outros pilares foram, minha mãe de abençoada memória, a “rebetzin” (apelido que lhe deram em Santo André, devido a seu saber judaico) Fani Feldman Z”L e meu tio-avô Leibl Kuperman Z”L, que me preparou para o Bar Mitzvá (maioridade religiosa).
O senhor Jacob era aberto a dúvidas e questionamentos. Sendo eu um rapaz curioso e cheio de perguntas, ele não me deixava fazê-las antes de apresentar os pontos e lições e aprender as matérias novas. Nos últimos cinco minutos da aula particular (que durava uma hora e meia), eu podia perguntar o que quisesse. Um dia, no final da aula, eu lhe perguntei se os milagres realmente existiam ou se eram “bube mainsies” (histórias da vovó). Ele enrubesceu e me olhou por cima de seus óculos de leitura, querendo me repreender com severidade, mas logo admitiu. Sem pecado e punição (medo) e sem milagres, muita gente não acreditaria mais na religião. Era preciso prover de exemplos do poder de D-us e da sua ação a favor de seu Povo, para que as pessoas tivessem fé.
Eu fiquei estupefato e voltei para casa. Em casa havia, de um lado, a “rebetzin” com sua fé inabalável e sua doçura única que cativava a quem lhe conhecera, e de outro, meu pai de abençoada memória, Aron Feldman Z”L, que era um artista e um artesão das imagens. Um “clienteltshik” (vendedor ambulante judeu) e ao mesmo tempo um cineasta amador, criativo, crítico e sensível. Alimentava simpatias pelas idéias de esquerda, sem nunca ter militado em nenhum agrupamento. Nas palavras dele: ele era “materialista dialético”. Ao que minha mãe contrapunha: “Graças a D-us, [...] graças a D-us”. Uma suave tensão de idéias e um respeito bilateral transcorriam em casa, nesta pacífica convivência de idéias antagônicas. O Judaísmo progressista de meu pai permitia que ele participasse das orações sinagogais sem abrir o Sidur ou Machzor, mas sem desrespeitá-las. Aliás sabia de cor e salteado muitas orações, mas não podia admitir, que ele era perito nesta “arte”. Rezou Kadish por seus pais, após perdê-los, por todos os anos de sua vida. Um bom judeu e uma mente acesa, criativa e crítica.
Fui direto a meu pai. Perguntei sobre milagres e sobre pecado e castigo. Ele falou que isso seria a religião dos pobres de espírito, que não conseguiam entender os valores elevados e éticos do Judaísmo. Para os sábios e cultos, isso não se fazia necessário.
Confesso que não entendi. Minha mãe logo se contrapôs e me convenceu de que nem tudo se explicava e que nem tudo o ser humano poderia entender. Há verdades que a razão desconhece. Contive minha curiosidade. O poder espiritual da minha mãe era maior que as minhas dúvidas. Alias a espiritualidade dela impregna a minha razão, até hoje. Daí conviver bem com a herança tanto materna, quanto paterna. Ambos me acompanham.
Passados anos eu me vi, de novo diante deste dilema. Meus alunos em cinco escolas de SP me questionavam. Era discípulo do grande professor Walter Rehfeld Z”L. Um culto, sereno e profundo intelectual. Ele me ensinou algumas noções de filosofia judaica. A sua percepção era clara. O eixo mestre da Torá seria a Lei. O Criador ordenou o Mundo e a natureza. Na seqüência deu aos Homens sua Lei. Ordenou o mundo de acordo as leis da natureza. As suas criaturas devem ser regidas pelas leis que ele organizou, para que haja equilíbrio e estabilidade. Humanos, animais e vegetais: todos atuam de acordo à leis naturais.
Na visão do Judaísmo Liberal havia uma diversidade de respostas fundamentadas na tradição e que poderiam servir para uma mente aberta e dotada de Razão. Optei por adaptar uma que “encontrei” nas entrelinhas da obra “Estrela da Redenção” de Franz Rozenzweig, autor do início do século passado. Rehfeld me ensinou algumas de suas idéias. Vejamos uma síntese superficial desta concepção, adaptada para meus propósitos. A estrela seria um Maguen David (Estrela de David).
A Estrela de David tem dois triângulos: um direcionado para cima, tem no seu vértice superior D-US, e nos seus dois vértices inferiores, o HOMEM, e o MUNDO. No triângulo que tem sua base invertida temos a relação entre os três elementos anteriores: D-US criou o MUNDO = CRIAÇÃO; D-US deu ao HOMEM a sua Lei ou Torá = REVELAÇÃO; ao HOMEM cabe executar o projeto divino no MUNDO = REDENÇÃO.
Ou seja: D-us é o Criador do Mundo e deu ao usuário (Homem) de Seu “projeto” um manual de utilização. O projetista e executor do produto sabe como deve ser utilizado. Os manuais de instruções são: a Torá e as leis da natureza. Devemos segui-los para obter o melhor uso do mesmo. O Mundo foi feito em perfeição e equilíbrio, divinamente planejado. Limpo, belo, agradável e adequado para vivermos.
Mas o “fabricante” não vai nos ensinar a desrespeitar a lei e a regra, intervindo e alterando o bom andamento que “ele programou”. Não se questiona a onipotência Divina (Seu poder), mas se questiona a Sua coerência. D-us não é tolo como os pobres de espírito que precisam de “alterações nas regras” para acreditar. Ele criou e ordenou o Mundo e ensinou o Homem a respeitar a Lei e a ordem da natureza.
Milagres podem ser entendidos como fenômenos naturais viáveis, mas nunca como extra naturais ou sobrenaturais. A dimensão real do mundo é divinamente criada.
Já superamos o neolatonismo que dissociava a esfera das idéias (espiritualidade) da esfera do mundo sensorial e terreno. Não acreditamos que os prazeres sensoriais sejam pecaminosos. Aliás, o Judaísmo medieval, nunca entendeu o mundo dissociando o mundo espiritual do mundo sensorial e terreno. Isso ocorreu com a Cristandade. O mundo natural, sempre foi visto pelo Judaísmo como parte da Criação de um Único D-us, que fez o Mundo Bom. Ao final de cada dia da Criação, D-us reafirma que era Bom. Não há natureza dissociada do Homem. Não há Pecado Original no Judaísmo: há um equilíbrio entre os três elementos. O Criador ordena a suas criaturas (Homem e Mundo) a agir sob e através da Lei. As leis da natureza são divinamente ordenadas e criadas. Milagres são inviáveis e desnecessários, salvo para usos pedagógicos e sob óticas simbólicas.
O milagre de Chanucá é simbólico. Seu símbolo profundo e perene. A pequena Judéia sobrevive ao Império Selêucida, que visava impor a helenização dos seus súditos judeus. A luz da Chanuquiá tem um múltiplo e rico simbolismo: a luz e as trevas. O Judaísmo com seu D-us único e sua ética humanista X a idolatria e o hedonismo os monarcas helenistas. Outras belas simbologias poderiam ser feitas.
O Judaísmo acabou por se encontrar com o Helenismo. Trocas e conflitos, aproximações e choques violentos se sucederão. Em Alexandria surge a tradução grega da Torá: a Septuaginta; neste mesmo palco surgirão conflitos e muitos mitos anti-judaicos. Em Alexandria viverá e escreverá o sábio Fílon, que fará a primeira aproximação de duas concepções de mundo antagônicas. Não seguimos iguais desde então: não ficamos isentos de contágio pela cultura grega. Chanucá não impediu que nos helenizássemos um pouco.
Serviu para nos fortalecer a identidade coletiva, para iluminar nossa difícil jornada na Diáspora (Galut ou Golá) de dois mil anos, que se sucedeu a esta pequena e gigante vitória. Ao celebrarmos Chanucá, ao acendermos suas sagradas velas, lembramos de nossa resistência cultural e religiosa através de vinte séculos de discriminação e tentativas de absorção dos judeus no seio de religiões majoritárias. A luz de Chanucá foi um farol na Diáspora: o monoteísmo ético, a negação da idolatria e os valores judaicos foram nosso vanguardismo.
A negação da natureza não foi e nunca será a nossa verdade. A natureza foi e segue sendo regida por leis. Não se mudam as leis e o Senhor do Universo, nunca as alteraria para “convencer alguns tolos” que se alimentam de uma crença superficial.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.