Visão Judaica - Edição N° 31
:. Palavras inteligentes de uma mente fascinante.:

José A. Itzigsohn responde a Saramago

Meu nome é José Alberto Itzigsohn. Sou psiquiatra e psicólogo. No passado fui diretor da cátedra de Psicologia na Universidade de Buenos Aires e professor convidado aos cursos de doutorado da Universidade Pontifícia de Salamanca. Atualmente, resido em Jerusalém onde presido a associação de trabalhadores da saúde mental de língua hispânica de Israel.
Causaram-me grande preocupação alguns aspectos do artigo de José Saramago: “Das pedras de David aos tanques de Golias“, o que me motivou a escrever esta carta aberta a Saramago, que lhes apresento a seguir:

Carta Aberta a José Saramago

De minha maior estima.

Sou psiquiatra e resido em Jerusalém. Li seu artigo “Das pedras de David aos tanques de Golias”, onde alguns dos seus aspectos me causaram grande preocupação e me motivaram a escrever-lhe de forma pública.
Antes de tudo quero dizer-lhe que sou integrante ativo de movimentos pacifistas israelenses e que lutei pelos direitos humanos desde minha juventude, e por essa razão, concordo com sua preocupação e sua dor pelos sofrimentos do povo palestino e também, com sua condenação dos ataques contra a população civil israelense, de cujos efeitos sou testemunha muito próxima por viver neste meio e por minha profissão.
Minha preocupação por sua carta não parte pois de seu apoio aos direitos do povo palestino, mas de alguns argumentos utilizados nela que, a meu ver, se prestam a uma leitura inadequada.
Você nos diz que acabar com os palestinos para depois negociar com os que ficam é, com ligeiras variações, meramente táticas, a política israelense desde 1948. Aqui você mistura todos os governos israelenses, incluindo o de Rabin e o de Sharon, em uma mesma caçarola. Sr. Saramago: que confusão de carne com madeira. Mais adiante você nos fala dos sonhos expansionistas contaminados com a monstruosa e firme certeza de que neste mundo... existe um povo escolhido por Deus.
Qualquer leitor pode crer que esta idéia da escolha divina, que corresponde a uma etapa determinada da evolução do pensamento religioso é compartilhada por todos os judeus. Isto não é correto. A maioria dos judeus do mundo, incluindo os de Israel, são leigos ou
pertencem a correntes religiosas que interpretam a escolha como um conjunto de obrigações, e não como um privilégio que possa justificar uma conduta agressiva para com os demais. Você sustenta que desse sentimento de escolha se deriva um racismo agressivo, psicopatológico exclusivista. Você não economiza esses adjetivos quando se refere aos judeus, Sr. Saramago.
Mais adiante você se refere ao Deuteronômio, onde está escrito como palavra de D-us "Minhas são a vingança e a recompensa". Frase terrível que corresponde a um momento inicial do pensamento religioso judaico, mas saiba você, que no mesmo Deuteronômio, há indícios de humanidade que ainda não se cumpriram, e que depois dele, vieram profetas como Isaías, os tão vilipendiados fariseus com sua visão mais tolerante e as múltiplas
gerações de estudiosos, a quem os judeus designam coletivamente como nossos sábios, bendita seja sua memória, que trataram de ajustar os preceitos iniciais à realidade de um mundo em mudança e complexo. A religião judaica de hoje não é a mesma que a da época tribal como você insinua, e como tem sustentado a tradição reconciliadora, que separava, de maneira aguda, o mundo judeu exclusivista, materialista e tribal, do
pensamento cristão, do que haveria de vir mais adiante.
Bom é saber que as religiões que têm uma longa história como o judaísmo, o cristianismo e o Islã, refletem momentos históricos diferentes e concepções transformadoras. Qualquer governante ou grupo de poder pode escolher dentro deles os elementos que convirjam à sua política, mas isso não implica toda uma cultura e as pessoas que participam disso.
Você pretende que neste mundo catastrófico e absurdo, como você o denomina com razão, que nós os judeus esqueçamos nossas feridas e baixemos a guarda, talvez para acolhermos os benefícios da globalização ou das utopias de plantão, e não arranhemos sem parar nossas feridas. Saiba você que isso não nos faz falta porque outros se encarregam permanentemente de fazê-lo: o stalinismo, o neonazismo, a propaganda de alguns países árabes que utilizam os Protocolos dos Sábios de Sião como se fosse uma verdade comprovada e paro por aí. Em outro momento você se pergunta em relação aos judeus, se o haver sofrido tanto não seria o melhor motivo para não fazer sofrer aos demais. Estranho pensamento é este que, sem dúvida, se transformou em um lugar comum, segundo o qual, o sofrimento deveria fazer melhor a um povo. Talvez para alguns indivíduos, mas não a um povo em seu conjunto. Pelo contrário, os sofrimentos inacreditáveis, mesmo sem chegar aos extremos de Auschwitz, as humilhações reiteradas, fazem um povo mais cético e mais convencido que não tem nada a esperar do mundo, e que só pode confiar em si mesmo. Alguns políticos podem explorar esse sofrimento como bandeira e para justificar suas próprias ações, mas o sentimento no povo é muito mais profundo que essa utilização.
Você comparou o sofrimento dos palestinos com o sofrimento dos judeus em Auschwitz, o que evidentemente não está certo, mas de outro lado, o sofrimento de um povo não precisa ser igual ao de Auschwitz para ser profundo e para ser levado em conta. Cada povo tem seu Auschwitz real ou simbólico ao qual referir-se, e sofrimento, em todos os casos, não mensurável e divisível; é total.
Sr. Saramago, se extrairmos o fio condutor de suas declarações, e para isso não faz falta a técnica psicanalítica nem o bisturí escolástico ou talmúdico, encontraríamos o seguinte: Existiria um grupo de homens separados, os judeus, que seriam exclusivistas e tinham idéias religiosas primitivas e uma moralidade arcaica e que tinham criado no Estado politicamente imoral e que para o cúmulo, usariam coletivamente seus sofrimentos para ignorar os dos outros. Em resumo: uma comunidade perversa.
Sr. Saramago, eu tenho apoiado e continuo apoiando em Israel, contra o vento e a maré, de que é possível ser solidário com o povo palestino e criticar atitudes concretas de governos israelenses específicos, sem ser por isso anti-semita. Não faço terrorismo ideológico utilizando Auschwitz contra ninguém, mas você, no artigo concreto que estou analisando, se torna vetor de uma mescla intolerável de preconceitos do antigo e novo cunho contra o povo judeu, a religião judaica e o Estado de Israel em seu conjunto.
Atenciosamente.

José Alberto Itzigsohn.
Dori Lustron
www.porisrael.org





 

 


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