Visão Judaica - Edição N° 31
:. No Iraque pode ganhar o Irã .:


Nahum Sirotsky *

(De Israel) — O presidente Bush e o chefe do governo interino não desistem de realizar as eleições no Iraque em 30 de janeiro. Existe a idéia do chefe do governo iraquiano de fazê-las em etapas e por vários dias. Minimizaria as ameaças de violências dos insurgentes que têm sinônimos como militantes e terroristas, alega ele. Ainda não se sabe se a sugestão será aceita. Mas a verdade verdadeira sobre o que preocupa não está sendo enfatizada. E só pode ser propositalmente. Os americanos entraram no país com tropa militarmente preparada e com armamento superior. Politicamente, porém, ignorando o primário e óbvio de que invadiam um país ainda muito dividido em tribos e seitas religiosas. Não prepararam os soldados nem percentual suficiente da oficialidade para o encontro com o povo local. E deu no que deu.
O Iraque tem cerca de 440 mil quilômetros quadrados de extensão e 26 milhões de habitantes. A segunda maior reserva de petróleo conhecida, além de outros recursos naturais. De 75 por cento da população, que é árabe, cerca de 60 por cento são da seita muçulmana minoritária, a xiita. Os sunitas, que são 90 por cento dos muçulmanos no mundo, são cerca de 32 por cento dos iraquianos. Mas tinham o poder. Saddam Hussein é sunita. Não confiava nos xiitas, a cujos protestos ou rebeliões, respondia com massacres.
O Iraque tem 4.400 quilômetros de fronteiras com seus vizinhos árabes muçulmanos, dos quais, 1.458 quilômetros com o Irã, que é 90 por cento xiita e cerca de 3 por cento apenas sunita. Outra fronteira extensa iraniana é com o Paquistão. O resto é com mares e oceanos. Estudadas, verifica-se serem mínimas as diferenças na prática do Islã entre xiitas e sunitas. Mas não se apreciam. Quem lê o noticiário da guerra do Iraque logo nota que sunitas e xiitas se concentram em regiões diferentes do país. E devem ter contas a ajustar entre eles. Saddam favorecia sunitas nos bons empregos, destaques orçamentários, obras. Fisicamente não são diferentes, porém, a questão é a prática da fé.
Os xiitas já avançaram na organização de partidos e como candidatos para as eleições cuja realização em boa ordem e sem fraudes devem marcar o início da implantação da democracia no Iraque. O começo da proposta-sonho do presidente Bush de um Oriente Médio politicamente democratizado. Estado com os Poderes Executivo, Judiciário, Legislativo, como nos países com sistemas democráticos. Partidos, organizações da sociedade civil, liberdade de opinião e crença, e etc. Mas ser PT ou PMDB não é ser sunita ou xiita. O PT ganhou com Lula mas tem de negociar cada passo com partidos e grupos diferentes. Os sunitas têm a tradição de anos no poder. Os xiitas, porém, se as eleições forem honestas, ganharão. A grande dúvida sobre as eleições se resume em, se os sunitas vão aceitar a perda do poder na esportiva.
O Irã dos aiatolás, o que financia o Hezbolá, afirmam os israelenses e americanos, a fortíssima guerrilha na fronteira norte de Israel que governa o sul do Líbano, tende a ajudar os seus irmãos na fé. E não aceitará ajeitadas no pleito.
Não apostaria num período de tranqüilidade no Iraque nem até 30 de janeiro, nem depois. O custo da democracia no Iraque tende a ser muito, muito elevado.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.

 


 

 


Voltar