Vittorio Corinaldi *
A televisão de Israel dedicou alguns programas matutinos de Shabat
a uma série de entrevistas con Itzchak Ben Aharon. Com isto tornou
possível a um largo público observar, não um fenômeno,
mas um verdadeiro milagre no panorama político deste país.
Ben Aharon é um personagem largamente conhecido e admirado por aliados
e mesmo por adversários. Mas o que é absolutamente extraordinário é que – na
idade de 98 anos – ele apresenta uma clareza de opiniões, uma
visão global de processos e fenômenos, e uma argumentação
lúcida, categórica e atualizada sobre tudo o que se passa na
sociedade israelense e no mundo moderno.
Não é por acaso que muitos vêm nele um porta-voz de honestidade
intelectual e coerência ideológica, e aguardam ansiosos e sedentos
qualquer pronunciamento seu a respeito de questões de atualidade e
de princípio — numa expectativa por um sinal de liderança
de que tanto se sente a falta hoje, e que políticos muito mais jovens
não conseguem transmitir.
De onde provêm a autoridade moral de Ben Aharon?
Será de seu absoluto desinteresse por posições de prestígio
e influência, apesar da longa trajetória de missões políticas
que percorreu?
Será de sua qualidade de membro convicto de Kibutz – um kibutz
do qual se recusa a ratificar tendências atuais que contradizem a original
vocação pioneira e revolucionária do Movimento Kibutziano?
Será de seu envolvimento pessoal em tarefas de importância material
ou espiritual para os destinos do país e do povo judeu, ou de sua
identificação com causas de justiça social e igualdade
humana? Estes o levaram a inúmeros desafios – desde a participação
em movimentos revolucionários ainda na Europa, através da Aliá e
da adesão ao movimento obreiro de Eretz Israel, passando pelo alistamento
voluntário no exército britânico durante a Segunda Guerra
Mundial (que lhe custou um cativeiro como prisioneiro de guerra, espantosamente
escapado do trágico destino dos judeus que caíram nas redes
do nazismo); e chegando até os cargos de Secretário Geral da
Histadrut (na qual distinguia um papel muito mais criativo do que o da representação
exclusivamente sindical que veio a adquirir de anos para cá), ou os
de ministro em vários govêrnos.
Será de sua corajosa e aberta defesa da unificação das
forças obreiras do país, numa época na qual ainda vigoravam
numa parte da esquerda israelense divisões ideológicas que
se apoiavam numa ilusória interpretação do regime soviético?
Ou de seu obstinado antagonismo às atuais correntes socioeconômicas
neocapitalistas de inspiração Thatcheriana, que vêm solapando
a estrutura igualitária da segurança social no país?
Ou ainda de suas posições claramente anticlericais frente às
obsoletas exigências do Judaismo Ortodoxo para com a maioria leiga
e liberal da população?
Será simplesmente de sua cativante personalidade, irradiada por meio
de um diálogo polêmico mas respeitoso e civilizado, ou de sua
afável mas rígida intransigência ética?
Quem quer ver em Israel a concretização moderna dos ideais
mais elevados do Judaismo; quem aspirar às metas mais luminosas que
o Sionismo se propôs — recusa-se em seu espírito a ver
na figura de Ben Aharon apenas o portador da cifra admirável de seus
anos, e procura se fixar no quase século de uma ação
coerente, convicta, autêntica, contínua, dedicada e desinteressada:
ação que encerra toda a essência da maravilhosa aventura
do renascimento nacional judaico, praticamente em todas as fases de seu histórico
desenvolvimento.
E ao contemplar esta singular figura, reaviva-se a fé no caminho que,
embora acidentado e atravessando trechos de altura mas também de baixada,
não tem igual como roteiro de progresso e de justiça, orientado
por homens de tal estatura. E cresce a esperança de que eles permaneçam à sua
frente, sempre jovens em seus muitos, longos e experientes anos de vida.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.