Visão Judaica - Edição N° 31
:. Milagre na TV .:


Vittorio Corinaldi *

A televisão de Israel dedicou alguns programas matutinos de Shabat a uma série de entrevistas con Itzchak Ben Aharon. Com isto tornou possível a um largo público observar, não um fenômeno, mas um verdadeiro milagre no panorama político deste país.
Ben Aharon é um personagem largamente conhecido e admirado por aliados e mesmo por adversários. Mas o que é absolutamente extraordinário é que – na idade de 98 anos – ele apresenta uma clareza de opiniões, uma visão global de processos e fenômenos, e uma argumentação lúcida, categórica e atualizada sobre tudo o que se passa na sociedade israelense e no mundo moderno.
Não é por acaso que muitos vêm nele um porta-voz de honestidade intelectual e coerência ideológica, e aguardam ansiosos e sedentos qualquer pronunciamento seu a respeito de questões de atualidade e de princípio — numa expectativa por um sinal de liderança de que tanto se sente a falta hoje, e que políticos muito mais jovens não conseguem transmitir.
De onde provêm a autoridade moral de Ben Aharon?
Será de seu absoluto desinteresse por posições de prestígio e influência, apesar da longa trajetória de missões políticas que percorreu?
Será de sua qualidade de membro convicto de Kibutz – um kibutz do qual se recusa a ratificar tendências atuais que contradizem a original vocação pioneira e revolucionária do Movimento Kibutziano?
Será de seu envolvimento pessoal em tarefas de importância material ou espiritual para os destinos do país e do povo judeu, ou de sua identificação com causas de justiça social e igualdade humana? Estes o levaram a inúmeros desafios – desde a participação em movimentos revolucionários ainda na Europa, através da Aliá e da adesão ao movimento obreiro de Eretz Israel, passando pelo alistamento voluntário no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial (que lhe custou um cativeiro como prisioneiro de guerra, espantosamente escapado do trágico destino dos judeus que caíram nas redes do nazismo); e chegando até os cargos de Secretário Geral da Histadrut (na qual distinguia um papel muito mais criativo do que o da representação exclusivamente sindical que veio a adquirir de anos para cá), ou os de ministro em vários govêrnos.
Será de sua corajosa e aberta defesa da unificação das forças obreiras do país, numa época na qual ainda vigoravam numa parte da esquerda israelense divisões ideológicas que se apoiavam numa ilusória interpretação do regime soviético? Ou de seu obstinado antagonismo às atuais correntes socioeconômicas neocapitalistas de inspiração Thatcheriana, que vêm solapando a estrutura igualitária da segurança social no país? Ou ainda de suas posições claramente anticlericais frente às obsoletas exigências do Judaismo Ortodoxo para com a maioria leiga e liberal da população?
Será simplesmente de sua cativante personalidade, irradiada por meio de um diálogo polêmico mas respeitoso e civilizado, ou de sua afável mas rígida intransigência ética?
Quem quer ver em Israel a concretização moderna dos ideais mais elevados do Judaismo; quem aspirar às metas mais luminosas que o Sionismo se propôs — recusa-se em seu espírito a ver na figura de Ben Aharon apenas o portador da cifra admirável de seus anos, e procura se fixar no quase século de uma ação coerente, convicta, autêntica, contínua, dedicada e desinteressada: ação que encerra toda a essência da maravilhosa aventura do renascimento nacional judaico, praticamente em todas as fases de seu histórico desenvolvimento.
E ao contemplar esta singular figura, reaviva-se a fé no caminho que, embora acidentado e atravessando trechos de altura mas também de baixada, não tem igual como roteiro de progresso e de justiça, orientado por homens de tal estatura. E cresce a esperança de que eles permaneçam à sua frente, sempre jovens em seus muitos, longos e experientes anos de vida.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.



 

 


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