Visão Judaica - Edição N° 31
:. Maria Teresa Campos e o cão judeu .:

 

Pilar Rahola *

Tiro um tempo, que é um ladrão de vidas, algumas horas para suar. Sou dessas mulheres, não sei se modernas ou se muito antiquadas — dizem que a imperatriz Sissi era dessas —, que se deleitam retesando os músculos na esteira rolante. Com um tanto a meu favor: faço-o desde a adolescência, distanciada das modas que costumam agora correlacionar a pasta de executiva ao corpo de ginasta. Sempre precisei de um espaço íntimo (a esteira está em casa), uns quantos boleros sugestivos e uma horinha do meu tempo para aliviar a pressão, os probleminhas, o trabalho, as confusões, até os amores desfeitos… Mas, desde há um mês, e sucumbida à fatal influência do homem de minha vida, que navega pelo mundo com um televisor incorporado, nosso ginásio dispõe de uma magnífica tela onde correm, enquanto corro, personagens múltiplas, fofocas fascinantes e o melhor do teatro nacional.
E assim, entre bolero e bolero, com freqüência chego ao ponto máximo do suor enquanto Josep Cuní, no TV3, me explica como obter renda, o que vale um casamento, ou quanto de elegância mantém esse outro amor meu, amor de meus amores, que é Jan Laporta. Ontem deu a deixa ao Cuní com Teresa Campos, talvez porque a lembrança de minha renda me gelava o suor e mandava para o espaço todas as minhas intenções de tranqüilidade zen. O programa não ia mal. Essa grande mulher, que é Maria Teresa, se emocionava na tela por seu aniversário, Jorge Javier nos divertia com sua inteligência aguda, o tema era suficientemente idiota, como para não me preocupar sobre nada, e os protagonistas da notícia (uma pobre mãe que chorava, um garoto expulso da casa de sua família e uma noiva má que fazia cara de má), suficientemente extraterrestres para parecerem divertidos.
Eu suava feliz enquanto completava meu quilômetro sete, quando, de repente, Rociíto, falando da briga mãe-filho, deixou escapar algo assim como que o rapaz merecia um qualificativo estilo “cão judeu”. Antes havia dito que “isto não se faz nem aos cães” e o pessoal da casa, especialmente meu colega antitaurino Jorge Javier, havia saído em defesa dos cães. Mas, quando ao cão juntou-se o “judeu”, como a coisa já não era com cães, ninguém se queixou, ninguém balbuciou, ninguém se manifestou, e a conversa continuou com a alegria descontraída das manhãs de Campos. Fiquei perplexa sobre a esteira e, chegado aos nove quilômetros, que é meu limite hepático, ”fígado na boca”, me fiz a pergunta que motiva este artigo: “vale a pena dar alguma importância a isso? Totalmente, com as bobagens que se diz na televisão, uma a mais…, é uma diversão. Contudo, como é óbvio, cheguei á conclusão que sim, vale a pena, pois há expressões verbais que são todo um universo de preconceitos ancestrais e que o mais gritante em tudo isso não foi a frase da menina, mas o silêncio do resto dos colegas. Ou seja, a indiferença.
O anti-semitismo é um lugar comum na história espanhola e, certamente, o flagelo mais sangrento da história da Europa. Contrariamente ao que poderia parecer, não somente não é passado, mas configura um presente preocupante, denunciado com riqueza de argumentos no último informe do European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia. Segundo Pat Cox, que o apresentou em Estrasburgo, em março passado, “a Espanha é o país de toda Europa que exporta, hoje, mais ódio contra os judeus”. E a pesquisa do Gallup, para a Liga Antidifamação é explícita: 72% dos espanhóis deportariam os judeus de Israel; só 12% aceitariam ter vizinhos judeus; 69% crêem que os judeus ostentam demasiado poder e uns 55% lhes atribui “intenções obscuras” que não sabem especificar. É claro que estamos falando de um novo anti-semitismo, especialmente circunscrito na imprensa e na esquerda espanholas — tão ferozmente antiisraelenses que acabaram militando no anti-semitismo —, não podemos esquecer que nós tivemos Isabel a Católica e que fomos os artífices da perversa Inquisição, a grande instituição demonizadora do povo judeu. O anti-semitismo, pois, faz parte do córtex cerebral, da medula coletiva, e o ovo da serpente se alimenta por canais inconscientes e insólitos. Por isso, quando alguém diz na televisão “cachorro judeu”, e ninguém se dá conta da infâmia da expressão, nem nota como range na trompa do ouvido, nem percebe a profunda indignação de um povo cansado de tanto…, quando nem Maria Teresa Campos — de quem conheço seu sentido de eqüidade democrática — se vê na necessidade de dizer algo, é porque há desprezos que fazem parte da normalidade. Há insultos que estão incorporados na bondade da Real Academia cotidiana.
Nada estranho sob o sol de um país que nunca teve nenhuma necessidade de ensinar a lição trágica do Holocausto. Vivemos tão de costas com esta vergonha — que nos tange diretamente, uma vez que fizemos parte da perseguição ancestral que a tornou possível —, que temos conseguido banalizá-la completamente. Há pouco li como López Agudín, com assombrosa tranqüilidade, comparava Auschwitz com Abu Graib, e até se sentia inteligente. Se o Holocausto não existe na memória coletiva, se Isabel a Católica foi uma defensora dos direitos humanos (como disse há poucos dias, na TVE, um historiador), se a Inquisição somente foi um excesso de tom da cristandade, como irá resultar estranho que os cães e os judeus convivam, em franca irmandade, no dicionário de insultos de Rociíto? E que a Campos nem se altere? A Espanha nunca fez os deveres com sua culpa anti-semita. E dessa falta de memória ativa, renasce o preconceito mais lacerante.
Eu sei. É só uma alegre manhã na televisão. Mas alguém [como eu] que não é judia, sempre se sente judia ante o insulto anti-semita. Não somente por solidariedade. Por responsabilidade. E, é por responsabilidade que faço este artigo: há brincadeiras tais que mostram a pata do monstro que carregamos dentro de nós.

* Pilar Rahola foi deputada no Parlamento espanhol e foi vice-prefeita de Barcelona. Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão). Dirige programa de entrevistas na TV espanhola e participa de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática da mulher, da infância e do Oriente Médio. Tem vários livros publicados em catalão e castelhano. Traduzido do espanhol pelo jornalista Szyja Lorber. (www.pilarrahola.com).

 

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