Visão Judaica - Edição N° 31
:. A Dom Quixote que deu certo.:

 

Heliete Vaitsman *

Sorriso radiante, decote profundo, metralhadora verbal que atira em todas as direções, a escritora e jornalista catalã Pilar Rahola é famosa na Europa pela paixão com que defende causas variadas. Aos 46 anos, essa feminista pós-moderna, ex-militante da Izquierda Republicana Catalana --- partido pelo qual foi deputada e vice-prefeita de Barcelona — corre mundo denunciando tudo o que considera injusto e perigoso. Numa noite pode estar na TV espanhola, jurando boicotar para sempre os filmes de Pedro Almodóvar, porque ele, horror dos horrores, matou sete touros para rodar “Fale com ela”. No dia seguinte voa para o Rio, ou Nova York, em campanha contra o integrismo religioso islâmico, que considera a maior ameaça para a humanidade neste início de século XXI.
“ Se D-us existe, é mulher, negra, lésbica e pobre”— proclama, com a segurança de filha da alta burguesia católica, mãe de três filhos, que descobriu o feminismo “não por trauma pessoal mas por solidariedade”.
Para manter o equilíbrio em meio a uma agenda superlotada — só em 2003, cruzou o Atlântico 15 vezes — Pilar Rahola corre nove quilômetros diários na esteira do ginásio instalado nos fundos da casa de Badalona, em Barcelona, enquanto assiste na telinha aos programas femininos matutinos cujos lugares-comuns desanca em colunas nos jornais “El País”, “El Periódico” e “Avui”.
A TV faz parte do “enxoval” do segundo marido, empresário basco com quem só se casou por exigência do governo russo, quando o casal foi à Sibéria adotar Ada, a terceira filha, hoje com 4 anos.
Pilar tem outros dois filhos, Noé, 12 anos, também adotado, e Sira, 24 anos, do primeiro casamento. Viajante incansável (esteve 20 vezes no Oriente Médio, cobriu conflitos como o dos Bálcãs e a guerra da Etiópia-Eritréia), gosta de promover roteiros culturais familiares pela Europa.
Antes de José Saramago se declarar, em 2002, contra a ação israelense nos territórios palestinos, comparando-os aos crimes praticados contra os judeus no Holocausto, Pilar seguiu com Sira, em Portugal, o percurso do livro “Memorial do convento”, lendo emocionada as descrições do escritor. Agora, o define como “o exemplo mais relevante de que alguns podem escrever como anjos e pensar como imbecis”.
Segundo Pilar, o anti-semitismo da esquerda européia, expresso por Saramago, é uma questão mal resolvida que remonta à Inquisição. Atribui ao anti-semitismo, na esteira da crise Israel-palestinos, a condescendência do pensamento politicamente correto ante o integrismo religioso islâmico.
— É o maior risco vivido pelo mundo desde o nazismo e o stalinismo. A esquerda repete erros do passado ao flertar com uma ideologia que desafia a modernidade — critica.
As acusações, reiteradas no Rio durante recente palestra no Hotel Glória, a convite do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, não vêm embaladas em sisudez. Gestos expansivos, bem humorada, Pilar se define como uma libriana veemente, igualmente pronta a bradar contra o uso político da religião e a sonhar a utopia que descreve no livro “Mujer liberada, hombre cabreado” (editora Planeta argentina, 2000):
— A grande revolução do século XXI será a descoberta do homem por si mesmo, porque o machismo destruiu a mulher e o homem. A maior revolução feminina será a revolução do homem, que precisa libertar-se de seus medos, de sua necessidade de domínio, de sua insegurança. Por enquanto não existe esse homem novo, o que existe é o homem desconcertado diante das novas exigências femininas.
Graças a uma campanha de que Pilar participou ativamente, o novo Código Penal da Espanha, de 1996, incluiu um artigo tipificando como delito penal a violência doméstica, antes considerada “falta” civil cuja única conseqüência era a multa, embora mate mais mulheres espanholas entre 25 e 35 anos que o câncer de mama. O “machismo criminoso” ibérico não cede facilmente. Um aspecto dele, adverte Pilar, são as touradas, responsáveis pelo fim de seu “idílio” com Pedro Almodóvar e pela ira com que os homens espanhóis a criticam:
— Se tourada é cultura, então canibalismo é gastronomia — afirma.
Cinéfila na juventude (“Amarcord” é meu filme-fetiche), agora curte assistir com Ada a filmes como “Shrek” e “Idade do gelo”. Reivindica “o direito à frivolidade” na sala escura:
— Para mim, ao contrário do teatro e da literatura, cinema é evasão, mas não pode ser retrógrado. Gosto dos músculos de Ben Affleck para me divertir sem pensar. O que não tolero são as telenovelas latinas, com seu estereótipo da mulher dominada. “Bete, a feia” não é inocente, com aquela mensagem perniciosa de que a protagonista só tem salvação se ficar bonita.
Não que Pilar rejeite a beleza. Atraente, sandálias coloridas altíssimas, perfumada com Angel, de Thierry Mugler — item essencial da bagagem, junto com o leite de soja da dieta vegetariana — o que ela abomina é a “pressão excessiva” em favor do emagrecimento e das cirurgias plásticas. Não tem intenção de passar pelo bisturi, garante. Tanta auto-estima talvez venha da valorização das mulheres em sua família, que teve membros fuzilados e empresas confiscadas durante a Guerra Civil:
— Crescemos, eu e minha irmã, numa casa livre, onde se discutia de tudo no almoço e no jantar, embora do lado de fora existissem a educação católica e a ditadura de Franco. Aprendi com meu pai o sentimento da solidariedade. Um dia ele me disse que eu era judia, querendo dizer que assim devia me sentir para entender o que os judeus tinham sofrido.
A vida familiar incluía verões em Cadaquès, na quinta vizinha à de Salvador Dali, hoje museu, cujo muro pulava com as amigas, para conversar com o pintor. Estudante da Universidade de Barcelona, formou-se em Filologia Hispânica e Catalã, conheceu o mundo de mochila nas costas, bebeu na fonte de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, e descobriu a dificuldade masculina de conviver com mulheres bem-sucedidas.
Para promover os direitos femininos no presente, diz, é preciso ir além do nível pessoal e defender primeiro o Estado laico. Daí o apoio à proibição do véu islâmico nas escolas francesas e a indignação com governos que proíbem o aborto legal, “o que leva milhares de mulheres à morte em abortos clandestinos”.
— Nenhuma fé tem o direito de dar ordens a cidadãos livres. “Deuses em casa, leis na rua” é o lema do pacto republicano cujo rompimento seria trágico para o mundo — inflama-se. Em viagem recente ao Chile, comprou briga com a Igreja Católica, que dificulta a aprovação do divórcio no país. Pilar liderou a campanha que acabou tirando das livrarias da Espanha, há quatro anos, o livro em que um imã islâmico, com milhares de seguidores entre os imigrantes pobres norte-africanos, defendia o “espancamento leve” das mulheres pelos maridos em casos de “mau” comportamento.
A livre circulação no Oriente Médio de livros como o do imã — ou do “Mein Kampf”, de Hitler, e dos apócrifos “Protocolos dos sábios de Sião” — não chega a espantar Pilar, por ocorrer numa região governada por “ditaduras despóticas e teocráticas que alimentam o fanatismo”. O que a espanta é a convivência dos europeus com os imãs mais fundamentalistas, que, financiados pelos sauditas, expulsaram as lideranças progressistas das organizações comunitárias islâmicas em várias cidades européias. As maiores vítimas do pensamento integrista são as mulheres:

— Há hoje 135 milhões de mulheres vítimas de mutilação genital no mundo. Milhares de moças que vivem na Europa são enviadas todos os anos pelas famílias aos países de origem, principalmente na África, para a circuncisão do clitóris, um processo doloroso e arriscado, um crime. Por que aceitamos que isso continue? Dói-me que a dor feminina seja silenciosa e não tenha espaço na agenda política. Ainda existe apedrejamento feminino por adultério e isso não parece preocupar ninguém. Essa é uma das minhas broncas contra a ONU, organização tão inútil, que recentemente nomeou a Líbia para presidir uma comissão de direitos humanos!
Ao mencionar a Líbia, Pilar Rahola ressalva: não sofre de islamofobia, “doença” que vitimou a jornalista italiana Oriana Fallaci. O que a jornalista catalã diz combater é “o islamismo paranóico, que pode destruir o Islã, assim como o nazismo quase destruiu a Europa e o stalinismo destruiu nossas utopias”. Acredita no sucesso de sua cruzada para que os pensadores de esquerda abandonem a idéia de que os integristas, inclusive na sua vertente terrorista, representam a rebelião de pobres contra ricos:
— Na verdade, estamos diante de um fenômeno alimentado por elites milionárias e ditaduras que estão no poder há meio século e agora usam celular e tecnologia de ponta para praticar uma política medieval. O terrorismo é planejado para destruir a liberdade, não para distribui-la.

* Heliete Vaitsman escreveu este artigo que foi publicado em O Globo, dia 22 de outubro de 2004

Olhos

“O que a espanta é a convivência dos europeus com os imãs mais fundamentalistas, que, financiados pelos sauditas, expulsaram as lideranças progressistas das organizações comunitárias islâmicas em várias cidades européias. As maiores vítimas do pensamento integrista são as mulheres.”

“ Na verdade, estamos diante de um fenômeno alimentado por elites milionárias e ditaduras que estão no poder há meio século e agora usam celular e tecnologia de ponta para praticar uma política medieval. O terrorismo é planejado para destruir a liberdade, não para distribui-la.”

 

 


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