Por: Jane
Bichmacher de Glasman
Chanucá é uma festa que celebra
milagres. Em 25 de kislev de 165 a.e.c. os macabeus entraram no
Templo e voltaram a dedicá-lo ao serviço de D-us.
No Talmud lemos: "Quando os hashmoneus venceram os gregos,
fizeram uma busca no Templo e encontraram somente um frasco de
azeite intacto e inviolado com o selo do Cohen Há-Gadol.
Continha azeite suficiente para iluminar um dia, mas ocorreu um
milagre e a menorá permaneceu acesa durante oito dias.
Um ano depois, a data foi designada festividade em que se recita
o Halel e oração de graças" (Shabat
21b). [1]
Para recordar, celebramos Chanucá, cujo nome refere-se
à reinauguração do Templo, re-dedicando-o
ao culto judaico. Vem sendo mais visível pela comunidade
geral, desde chanukiót em lugares públicos até
a decoração de janelas com símbolos da festa.
Mas o que significa Chanucá hoje, para nós? Uma
lição de história? Uma comemoração
de milagres do passado? Seria um tempo de re-dedicação
a nós mesmos e nossa às nossas comunidades e famílias?
Celebramos os milagres, acendendo a chanukiá e comendo
levivot e sufganiot. Cantamos Al há-nissim: "Acendemos
estas velas pelos milagres que realizaste para nossos antepassados,
naqueles dias, nesta época" e Maoz Tsur, louvor a
D-us por ter nos libertado de opressões. [2]
Será que você seria um macabeu?
Será que os judeus de hoje se posicionariam ao lado dos
macabeus? Eles não lutaram por independência política
- foi por religião. Os gregos trouxeram civilização
e progresso aos lugares conquistados. Os judeus estavam divididos:
uns acreditavam ser a assimilação uma influência
moderna; um grupo preparou-se para lutar e morrer para preservar
o Judaísmo.
Podemos desenvolver uma identidade que nos permita conviver com
o mundo exterior sem nos sentirmos ameaçados e, ao mesmo
tempo, apreciar e assimilar o que há de bom em volta. O
destino de Israel e da Diáspora depende de como internalizamos
os valores judaicos, para interagirmos com o mundo, como judeus
e como cidadãos universais. "A luta dos macabeus nos
ensina que particularismo e universalismo não são
mutuamente exclusivos. Não podemos e não devemos
optar entre o gueto e a assimilação". [3]
Nós estaríamos com os macabeus ou acharíamos
que a assimilação era o caminho para o futuro? Será
que lutaríamos, hoje, pelo Judaísmo, prontos para
morrer pelo estudo da Torá e pelo Shabat? Vivemos uma crise
de identidade como há 2.500 anos...
Milagres e Mensagens
Milagres continuam acontecendo, todos os dias. Todos nós
conhecemos ou vivemos uma estória real com o miraculoso
toque divino. Talvez sem os "efeitos especiais" de milagres
do passado... Talvez sem uma visão especial nossa, sem
que os percebamos como tais...
Não vemos o Mar Vermelho se abrindo, nem um pouquinho de
óleo ardendo por 8 dias. A ciência avança
e responde a um número crescente de questões sobre
o funcionamento do universo. O homem pode reproduzir embriões
in vitro e explicar a reprodução - mas não
pode explicar o que é a vida: por que um óvulo fertilizado
transforma-se num ser humano? Cientistas desvendam segredos da
sexualidade - mas não podem explicar o amor! Por mais que
se avance nas origens do universo, a ciência não
responde: e antes do antes?
Chanucá comemora a fé, a luta pela liberdade de
culto, de poucos contra muitos, de fracos contra poderosos - a
eterna luta do povo judeu por sua existência.
A vela simboliza o ser humano: "a alma do homem é
a vela de D-us" (Provérbios 20:27).
O Shamash, nosso desafio perante o mundo em que vivemos.
Muitos acendem pavios dentro de óleo, que é, com
a azeitona, símbolo do Povo Judeu. Conseguimos o mais puro
prensando a azeitona com muita força. Às vezes,
nas horas de maior pressão, é que nossas melhores
características despontam. Sobrepujar pressões é
um dos desafios decisivos da vida e tema recorrente na História
Judaica. As luzes de Chanucá devem ser fonte de fé
e inspiração para todos os homens, de todos os credos;
devemos acendê-las em local visível para pirsumei
nissá (Shabat 23b), divulgar o milagre.
Acendemos uma vela por noite cumulativamente. Nós somos
as velas, a luz, e podemos aumentar a do mundo. A menor luz acaba
com a maior escuridão. Como cada flama ilumina um pequeno
espaço; juntos podemos iluminar o mundo.
Vemos muitas pessoas com "pavios" apagados, tristes,
carentes de atenção. Doando nossa luz, podemos fazer
com que sintam calor humano. A mitzvá é cumprida
quando todas as velas são acesas - assim como nós,
unidos pelos elos da dedicação ao outro. [4]
Chanucá vem do mesmo radical hebraico de chinuch, que significa
educação - que não se promove com grandiosos
prédios, mas com valores e práticas.
Chanucá nos ensina a lutar pelo que acreditamos. Não
podemos esquecer a razão pela qual lutamos. Se nada fizermos
por nós mesmos, não somos merecedores da vitória.
E como disse Ben Gurion: "Um judeu que não acredita
em milagres não é realista"...
Notas:
[1] Embora seja a explicação mais conhecida para
a festa, ela remonta a tempos bíblicos: em 25 de kislev,
um ano após o Êxodo do Egito, foram concluídas
as obras do Mishkán (Tabernáculo) nosso primeiro
Santuário.
[2] Letra do século XIII e melodia adaptada de uma canção
folclórica alemã do século XV.
[3] Os Porquês do Judaísmo, Capítulo 12: Chanuká
Rabino Henry Sobel (www.cipsp.org.br)
[4] Ver www.netjudaica.com.br "O Brilho da Fé",
escrito pelo professor Sami Goldstein.
Jane Bichmacher de Glasman é escritora,
doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica
na USP, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa
de Estudos Judaicos da UERJ.