Le Chaim !!!
Um código de vida que tem 30 séculos
e é incrivelmente atual
Por: Morris
Abadi *
Sim. Acontecem tragédias diariamente. Segundo
a segundo. E acabou acontecendo uma tragédia com pessoas
muito próximas. Lógico, começou um debate
intenso, cheio de emoções. Pronto: debater a pena
de morte estando cheio de emoção. Caminho andado
para conclusões errôneas, precipitadas. Mais um pouco,
e o uso de uma kipá (solidéu) poderia identificar,
aos olhos do grande público, como "praticante de uma
religião que é a favor da pena de morte".
Judaísmo e pena de morte. Vou começar pela conclusão:
definitivamente, duas idéias completamente excludentes,
para não dizer antagônicas. Mas, dirão os
conhecedores, a Lei Mosaica prevê a pena de morte! Mas,
responderão os que são realmente conhecedores, é
uma lei feita para não ser aplicada!
Assim, vamos relembrar um pouco. Vamos analisar o motivo de, para
falar da pena de morte no judaísmo, estas linhas foram
entituladas com "Le Chaim" (à vida).
O judaísmo, é uma base, um código de leis
e condutas humanistas por excelência. Um código de
leis que prega o respeito à vida. Um conjunto de normas
de conduta que determina, em seu todo, há mais de trinta
séculos, o direito das mulheres, das crianças, a
divisão de renda, o trato correto para com empregados,
com animais, e até com a terra e o meio ambiente. Muito
antes dos movimentos feministas, muito antes da emancipação
dos trabalhadores com seus direitos, muito antes da emergência
dos ecologistas, ambientalistas e defensores dos direitos dos
animais, lá estava o judaísmo, com normas que fariam
os mais arrojados corarem ante tanta atualidade em textos tão
antigos. Mas, o assunto não era a pena de morte? Vou chegar
lá.
As mulheres que não eram agradadas, ou que eram maltratadas
pelos seus maridos tinham um divórcio concedido pelos rabinos,
com direito a indenização e tudo. Um judeu que atrasasse
o salário de seus empregados ficaria em apuros perante
a lei. Maltratar animais, nem pensar. Parte dos lucros, destinado
aos menos afortunados. Obrigação de amparar viúvas
e órfãos. Deixar a terra descansar de tempos em
tempos. Proibição de autoflagelo. Obrigação
de manter o corpo limpo, a mente ativa (para, algumas dezenas
de séculos depois, celebrarem o mens sana in corpore sano).
Alimentação e vida regradas. Até a possibilidade
de se embebedar está prevista e codificada. Segurança:
a obrigação de colocar um parapeito nos terraços
para evitar acidentes. Isto tudo datado de mais de trinta séculos.
Respeito à vida. Respeito à humanidade, a toda forma
de vida. Restrição a qualquer tipo de abuso.
Como é possível que, um código de leis e
condutas tão humanista possa ter, em seus anais, a pena
de morte? A resposta é muito simples: ela existe, sim.
Mas ela é praticamente impossível de ser aplicada.
As exigências são tantas, as minúcias são
tantas, as conseqüências são tantas, a quantidade
de pessoas envolvidas em casos assim é tão grande,
que a aplicação é praticamente impossível.
Para tanto, basta lembrar de um detalhe: durante todos os séculos
em que existiu o Sinédrio, a pena de morte foi aplicada
uma única vez. E a consideração a respeito
é tão restritiva, que o Sinédrio em questão
é citado como o "Sinédrio Assassino".
Os judeus se destacaram, e se destacam, pelas suas pesquisas e
descobertas. Vacinas, tecnologia, medicina, direito, finanças,
agronomia, física, química, matemática, direito.
Basta verificar a quantidade de Prêmios Nobel com que judeus
foram agraciados. Não pelo fato de serem judeus. Pelo fato
de serem judeus que trabalharam para que tenhamos uma vida, uma
saúde, enfim, um mundo melhor. Se assim não fosse,
não teríamos assim tantos irmãos envolvidos
em causas e movimentos sociais ao redor do mundo.
O judaísmo é ainda uma religião que, em sua
base, renega e abomina, considerando uma aberração,
qualquer tipo de racismo ou pretensa superioridade de um grupo
em relação a outro. Tanto que nem posso ou devo
usar o conceito de raça, pois todos sendo descendentes
de Adam haRishon (Adão o Primeiro), tal conceito não
faz o menor sentido.
E se sobrevivemos a 4000 anos de perseguições quase
ininterruptos, não é por vivermos para a morte.
É por vivermos para a vida. É por trabalharmos e
defendermos a vida. E não a morte. E muito menos a pena
de morte.
É por isso que, com satisfação e alegria,
além de muita consciência, é que, quando levantamos
nossos copos, sempre dizemos: Le Chaim !!!!
* Morris Abai é administrador de empresas.