19/12 a 27/12 - 25 de Kislev
1ª
noite - 19/12
Chanucá é a mais recente e o menos importante dos
feriados judaicos, ainda que sua história e o cerimonial
que envolve estejam mais vivos do que nunca.
Chanucá celebra a bem-sucedida rebelião dos judeus,
nos dias do Segundo Templo, contra os gregos selêucidas,
herdeiros da parcela síria do império derrotado
de Alexandre Magno. O oitavo sucessor da coroa da dinastia selêucida,
Antíoco Epifânio, queria a todo custo implantar a
religião grega na Judéia, baseado na sempre atual
teoria de que o inconformismo religioso era uma ameaça
ao Estado. Seus esforços foram tão bem sucedidos
que, no ano de 168 a.e.c., suas forças armadas instalaram
um ídolo no Templo de Jerusalém e designaram sacerdotes
judeus convertidos para oferecer o sacrifício de porcos
aos deuses gregos nos pátios do Rei Salomão.
Antioco tornou crime passível de pena de morte em toda
a Terra Santa o ensino da Bíblia e a circuncisão.
Seus exércitos percorriam o país, colocando ídolos
e sacerdotes convertidos em toda a aldeia, sem provocar qualquer
reação das populações assombradas
e amedrontadas. Um choque se deu quando Matatias, um ancião
da família dos príncipes hasmoneus, recusou-se a
oferecer um sacrifício ao objeto da idolatria instalado
em sua cidade, Modiin, e com suas próprias mãos
matou o homem que iria abater o porco em seu lugar. Seus cinco
filhos o salvaram das mãos dos militares, levando-o para
as colinas e organizando uma rebelião que, em três
dias, varreu os gregos de toda a Judéia. Assim, o gesto
decidido de um velho fez desviar o curso dos acontecimentos. Todo
o futuro do judaísmo pode perfeitamente ter se baseado
na atitude de Matatias.
No vigésimo quinto dia de Kislev, no ano de 165 a.e.c.,
as tropas legalistas lideradas por Judá, o Macabeu, filho
guerreiro de Matatias, recapturaram o Templo e deram início
a oito dias de purificação e reconsagração
do mesmo. Chanucá significa "consagração".
A festa assinala os oito dias durante os quais o Templo foi restaurado
para o culto de D-us. Os serviços religiosos prosseguiram
desde então durante mais de dois séculos, até
que os romanos derrubaram Jerusalém no ano 70 e destruíram
a casa do Eterno, que ainda está para ser reconstruída.
Chanucá em nossos dias
Até aqui a história de Chanucá foi sintetizada
porque, ao contrário das narrativas bíblicas, ela
não integra o acervo comum da cultura ocidental. Durante
um milênio de existência nacional em Canaã,
os judeus muitas vezes expulsaram os opressores e reconquistaram
a independência. Mas somente a guerra dos macabeus, que
foi uma batalha pela liberdade religiosa, destacou-se e tem espaço
nos rituais de nossa fé. Foi a primeira confrontação
dos judeus, em larga escala, com uma questão que iria acompanhá-los
nos dois milênios seguintes: pode uma pequena nação,
vivendo em meio a uma cultura majoritária triunfante, participar
da vida geral e ainda assim preservar uma identidade própria,
ou deve ela ser absorvida pela maioria?
O desafio permanece. A proposta é a mesma: oferece-se um
modo de vida diferente aos judeus e, em troca, eles devem renunciar
à sua religião. Forças não repressoras
sutilmente conduzem os judeus. A posição dos governos
do mundo livre é a de que as comunidades judaicas têm
o direito de se manterem apegadas à fé de seus pais
e devem exercê-lo. Mas a contradição está
implícita na força que Tocqueville já havia
definido em sua inesquecível frase como a maior fraqueza
como a maior fraqueza da democracia: "a tirania da maioria"
- a pressão para imitar os vizinhos, o impulso para se
conformar com opiniões e maneiras populares, o profundo
medo de ser diferente. São estas as forças de Antioco
no mundo em que vivemos.
É o único feriado judaico sem raízes bíblicas
e, à primeira vista, comemora a mais improvável
vitória militar. Mas, na verdade, Chanucá celebra
a vitória da profundidade e riqueza da cultura judaica
contra a superficialidade da cultura helênica.
De acordo com a Lei, as velas de Chanucá devem arder junto
à janela para que possam ser vistas por todos os que passam
na rua. Nossos sábios chamam a isto "proclamar o milagre".
O Talmud diz: "Houve um milagre e acharam um pote de azeite
lacrado com o selo do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote)" (Shabat
21:2).
O único ser humano que tinha o direito de entrar no Kodesh
Hakodashim, o lugar mais sagrado do mundo, era o Cohen Gadol.
Os gregos, não tiveram acesso a este lugar, cuja santidade
é superior ao restante do Templo. Esta foi a razão
pela qual não puderam mexer no pote com o selo do Cohen
Gadol e torná-lo impuro.
Esta foi também a razão pela qual o milagre do azeite
durou oito dias, pois o Kodesh Hakodashim está acima da
natureza. O número oito simboliza o transcendental. Tudo
o que é sagrado está afastado da natureza, que é
simbolizada pelo número sete (sete dias da semana). O número
oito simboliza o que é superior à natureza.
Em hebraico a palavra Shmone - que significa oito - tem as mesmas
letras da palavra Neshamá - alma - e, também da
palavra Hashemen - azeite. Estas três palavras estão
interligadas pelo significado e lembram o transcendental.
Era o suprimento para um dia. Eles sabiam que seriam necessários
pelo menos oito dias para produzir mais óleo puro mas,
mesmo assim, decidiram acender a grande Menorá do Templo.
O óleo ardeu durante oito dias.
Este Midrash (comentários rabínicos muito antigos)
é um resumo da história dos judeus. Toda a nossa
história é a lenda fantástica de um suprimento
de óleo para um só dia que dura oito dias, de campos
incendiados que não se consomem, de uma existência
nacional que pela lógica das coisas já deveria ter
se extinguido há muito tempo e que, no entanto, continua
a arder. Este é o relato que fazemos aos nossos filhos
nas noites de dezembro, quando acendemos as velinhas de Chanucá,
o candelabro de nove braços.
Como celebrar Chanucá
· A primeira vela deve ser colocada na extrema direita
da chanukiá. A cada dia acrescenta-se mais uma vela, sempre
começando da direita para a esquerda.
· A primeira vela a ser acesa fica do lado direito da chanukiá.
Na segunda noite, adiciona-se uma nova vela à esquerda
da primeira e assim por diante até completar oito velas.
Portanto, sempre se começa acendendo a última vela
colocada à esquerda e continua-se acendendo da esquerda
para a direita.
Por que se acende uma vela na primeira noite de Chanucá,
duas na segunda etc, até que na última noite se
acendem oito velas?
No Talmud, é discutido se devemos acender uma vela na primeira
noite, duas na segunda, etc. (que era a posição
de Hilel), ou se na primeira noite acendemos oito velas, sete
na segunda noite, etc. (que era a posição de Shamai).
Decidiu-se seguir a opinião de Hilel, que dizia que, em
assuntos sagrados, deve-se acrescentar (aumentar) e não
diminuir.
Por que se acendem as velas de Chanucá da esquerda para
a direita?
Ao longo dos séculos evoluíram diversos costumes
para o acendimento das velas. A mais aceita hoje em dia segue
a tradição de dar a mesma importância aos
lados direito e esquerdo da chanukiá, indicando que D-us
está presente em todos os lugares. As velas, portanto,
são inseridas da direita pra a esquerda e são acesas
da esquerda para a direita (a vela nova é a primeira a
ser acesa).
Por que se usa uma nona vela, o Shamash, para acender as outras
velas da chanukiá?
Esta é uma continuação do costume seguido
quando o candelabro de sete braços do Tabernáculo
e do Templo era aceso. O sétimo braço em cada uma
destas menorót era denominado shamash ("servidor").
Usado para acender as demais, não era contado como uma
das luminárias.
Também se usa uma nona vela porque as oito velas principais
da chanukiá não podem ser usadas para fins práticos.
· Deve-se acender as luzes da chanukiá de forma
que sua luz seja vista do lado de fora da casa. Significa que
não basta iluminar somente o próprio lar com a luz
e calor do verdadeiro modo de vida judaico de Torá, mas
é necessário difundi-los ao exterior da casa, pela
vizinhança e comunidade em geral.
A origem do Sevivon
Antíoco decretou que cada aula de Torá era crime
punível com morte ou prisão. Em desafio, as crianças
estudavam em segredo, e quando as patrulhas sírias eram
avistadas, fingiam estar jogando uma inocente brincadeira de pião,
também conhecido como dreidel (em iídiche) e sevivon
(em hebraico).
As letras
Todo sevivon possui quatro lados com uma letra hebraica em cada
um deles. Cada letra é a inicial de uma palavra. As quatro
letras são: Nun primeira letra da palavra nes, que significa
"milagre"; Guimel primeira letra de gadol, que significa
"grande"; Hei primeira letra de haya, que significa
"era" ou "foi"; Shin primeira letra de sham,
que significa "lá".
Juntas, estas letras formam a frase: "Um grande milagre aconteceu
lá".
Em Israel, ao invés da letra shin (para designar sham,
lá), o sevivon possui a letra pei de pô, aqui) para
que as letras dos lados do pião forme a frase: "Um
grande milagre aconteceu aqui".
Atualmente
Uma vez que as crianças têm dinheiro e tempo livre,
é natural que acabem brincando com o sevivon.
Mas o sevivon também tem uma mensagem especial: a de que,
mesmo nos momentos de lazer, a pessoa deve lembrar que a Providência
Divina dirige tudo, em todas as situações.
Regras para jogar Sevivon
1) Ao iniciar, cada jogador recebe a mesma quantia de moedas.
2) A cada partida, depositam a mesma quantia na mesa.
3) Cada jogador deverá, alternadamente, girar o sevivon.
Dependendo da letra que cair, o jogador procederá da seguinte
maneira:
"Nun": não perde nem ganha nada; "Guímel":
ganha todas as moedas da mesa; "Hei": ganha a metade
das moedas da mesa; e "Shin": deposita na mesa o mesmo
valor colocado anteriormente.
Chanucá Guelt
Em Chanucá é tradicional dar às crianças
Chanucá Guelt, dinheiro de Chanucá. Uma das razões
deste costume é a oportunidade de lhes oferecer um reforço
positivo por comportamento exemplar e como dedicação
ao estudo de Torá, que era proibido durante a ocupação
dos sírios, além de incentivá-las a doar
uma parte para tsedacá, caridade.
Como acender sua Chanukiá
É preferível que todos os membros da família
estejam presentes ao acendimento da chanukiá.
A chanukiá deve ficar num lugar especial, onde normalmente
não se acendem luzes nem velas. O costume Chabad é
colocá-la no lado esquerdo da porta de entrada, em frente
à mezuzá, sobre uma mesa ou cadeira para proclamar
a todos o milagre de Chanucá.
Ela é acesa ao anoitecer, em cada uma das oito noites da
festa, usando azeite de oliva ou velas grandes o suficiente para
arder, no mínimo, meia hora após o anoitecer (segundo
o costume Chabad, 50 minutos).
Como foi dito, acende-se a primeira vela do lado direito da chanukiá;
na segunda noite, acrescenta-se uma vela nova do lado esquerdo
da primeira, e assim sucessivamente. A vela a ser acesa é
sempre a nova, procedendo da esquerda para a direita.
Na noite de sexta-feira, a chanukiá é acesa antes
das velas de Shabat. A chanukiá não pode ser tocada
ou removida depois de seu acendimento na sexta-feira até
sábado após o anoitecer. Sábado à
noite, a preparação e o acendimento da chanukiá
devem ocorrer somente após o término do Shabat.
Se uma vela apagar durante o período em que deveria estar
ardendo, deve ser reacendida. É permitido apagar as velas
após arderem o tempo determinado (menos na sexta-feira
à noite quando é proibido acendê-las ou apagá-las
devido ao Shabat). Na noite seguinte, os pavios e o azeite restantes
podem ser reaproveitados.
A luz da chanukiá é sagrada e não pode ser
utilizada para outro fim, como leitura ou trabalho.
Primeiro, acende-se o shamash, depois pronuncia-se as seguintes
bênçãos:
1. Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech haolam,
asher kideshánu bemitsvotav, vetsivánu lehadlic
ner Chanucá. (Bendito és Tu, A-do-nai, nosso D-us,
Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos, e nos
ordenou acender a vela de Chanucá).
2. Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech haolam,
sheassá nissim laavotênu, bayamim hahêm, bizman
hazê. (Bendito és Tu, A-do-nai, nosso D-us, Rei do
Universo, que fez milagres para nossos antepassados, naqueles
dias, nesta época).
Na primeira noite ou pela primeira vez, acrescenta-se:
Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech haolam,
shehecheyánu vekiyemánu vehiguiyánu lizman
hazê. (Bendito és Tu, A-do-nai, nosso D-us, Rei do
Universo, que nos deu vida, nos manteve e nos fez chegar até
a presente época).
Em seguida, acendem-se as velas da chanukiá com o shamash.
Após acender as velas, coloca-se o shamash à esquerda
da chanukiá de modo que fique mais alto do que as chamas
da chanukiá, e recita-se:
Hanerot halálu ánu madlikin al hateshuot, veal hanissim,
veal haniflaot, sheassíta laavotênu, bayamim hahêm,
bizman hazê, al yedê cohanêcha hakedoshim. Vechol
shemonat yemê Chanucá, hanerot halálu côdesh
hem, veen lánu reshut lehishtamesh bahen, êla lir'otan
bilvad, kedê lehodot ul'halel leshimechá hagadol,
al nissêcha, veal nifleotêcha, veal yeshuotêcha.
(Nós acendemos estas luzes em virtude das redenções,
milagres e feitos maravilhosos que realizaste para nossos antepassados,
naqueles dias, nesta época, por intermédio de Teus
sagrados sacerdotes. Durante todos os oito dias de Chanucá,
estas luzes são sagradas, e não nos é permitido
fazer qualquer uso delas, apenas mirá-las, a fim de que
possamos agradecer e louvar Teu grande nome, por Teus milagres,
Teus feitos maravilhosos e Tuas salvações).