Visão Judaica - Edição N° 20
:. A Música que cada um leva dentro .:

Se alguma vez estiveram num concerto de Perlman, saberão que chegar ao palco não é uma pequena façanha para ele. Suas duas pernas se apóiam em aparelhos ortopédicos especiais e caminha com a ajuda de duas muletas, conseqüência da poliomielite que contraiu quando criança.
Vê-lo cruzar pelo palco dando um passo de cada vez, custosa e lentamente, é uma visão assombrosa. Desloca-se com dificuldade, majestosamente até que chega à sua cadeira. Uma vez lá, senta-se lentamente, coloca suas bengalas no chão, afrouxa os sustentadores de suas pernas, posiciona um pé para trás e estende o outro para frente. Então, se inclina e levanta o violino, o põe sob sua face, faz um sinal ao diretor e começa a executar seu instrumento.
Este cerimonioso ritual já é algo habitual para a audiência que assiste silenciosa, de forma reverencial e impassível, aos movimentos do maestro, prévios à sua atuação.
Mas desta vez algo saiu errado...
No momento em que terminava suas primeiras estrofes, uma das cordas do seu violino se rompeu. Pudemos escutar o ruído. Soou como um tiro atravessando o salão. Não havia dúvida sobre o que esse som significava. Tampouco havia dúvidas no auditório sobre o que ele teria que fazer: "Levantar-se, colocar os aparelhos ortopédicos novamente, erguer as bengalas e arrastar-se para fora do palco, tudo isso para encontrar outro violino ou para substituir a corda que conspirou contra o êxito da função".
Mas não o fez. Esperou um momento, fechou os olhos e logo deu um sinal ao diretor de que começaria novamente. A orquestra iniciou, e ele tocou desde o ponto que havia se detido. E tocou com tanta paixão, tanto poder e tanta pureza como nunca antes.
É claro que todo mundo sabia que é impossível interpretar um trabalho sinfônico somente com três cordas. Eu sei, e seguramente muitos de vocês também sabem disso. Mas aquela noite, Itzhak Perlman se recusou a nos dar razão.
Foi emocionante vê-lo modulando, modificando, recompondo a peça em sua cabeça. Num ponto, soou como se estivesse substituindo o tom da corda ausente. Quando concluiu, se impôs um silêncio impressionante que só serviu de ante-sala para a aclamação que se seguiu. O auditório não deixava de aplaudir e aclamar de pé, e em cada canto do teatro, um desesperado intento demonstrava o quanto apreciávamos o que Perlman acabava de fazer. O maestro sorria, secava o suor da sua fronte, deteve sua inclinação para nos aquietar e logo exclamou, sem nenhum vestígio de presunção e num tom reverente, pensativo e calmo: "Vocês sabem..., algumas vezes a tarefa do artista é descobrir quanta música uma pessoa pode fazer com o que ainda lhe resta".

 


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