Por: Jamie
Glazov
Os direitos dos judeus a Israel a partir
do Alcorão explicados
por Khaleel Mohammed, professor de Islamismo, convidado pelo
Frontpage Interview. Assistente do Departamento de Estudos da
Religião na Universidade Estadual de San Diego, ele é mais
um muçulmano erudito a confirmar os direitos dos judeus
sobre Israel.
Frontpage: Professor Mohammed, bem vindo ao Frontpage Interview.
Khaleel Mohammed: É uma grande honra para mim. Obrigado
por esta oportunidade de apresentar minhas idéias para
os seus leitores. Como vocês sabem, tenho interesse num
Islã moderado, que seja inclusivo e preocupado com os
direitos humanos. Minha missão é ajudar a recuperar
a beleza que antes era praticada pelo Islã, uma mensagem
não muito em moda atualmente entre os fundamentalistas
ou os muçulmanos mais tradicionais.
FP: O senhor é um muçulmano e, mesmo sendo pouco
convencional entre os clérigos e estudiosos islâmicos,
o senhor ensina que o Alcorão diz que Israel pertence
aos judeus. O senhor pode nos esclarecer sobre este ensinamento
islâmico?
KM: O Alcorão prenuncia vários princípios
que pairam sobre um tema comum: D-us não ama a injustiça
e irá socorrer aqueles que são tratados de forma
errada. E se concentra tanto nisso que a pessoa mais citada no
Alcorão é Moisés – a quem ele (o Alcorão)
apresenta como um revolucionário de D-us, e que conduz
um povo, desprezado e atormentado pela única razão
de terem venerado e cultuado a D-us para fora da terra de escravidão
e em direção à Prometida Terra Santa. O
capítulo 5: 20-21 do Alcorão afirma com bastante
clareza: "Moisés disse a seu povo: Ó, meu
povo! Lembrem-se da generosidade de D-us para com vocês
quando Ele concedeu-lhes os Profetas e fez de vocês reis
e lhes deu aquilo que não foi dado antes a nenhuma outra
dentre as nações. Ó, meu povo! Entrem na
Terra Santa que D-us deixou escrita para vocês e não
recuem, ou serão perdedores”. O Alcorão continua
dizendo porque não foi permitido ao israelitas entrarem
na terra por quarenta anos... Mas o ponto-chave da minha análise
encontra-se onde Moisés diz que a Terra Santa é aquela
que D-us deixou "escrita" para os israelitas. No entendimento
tanto de judeus quanto islâmicos, a palavra "escrita" tem
um significado de finalidade, determinação e imutabilidade.
E assim nós temos a Torá Escrita (imutável)
e a Torá Oral (que representa a mudança para adaptar-se
aos tempos). E no Alcorão nós temos "O escrito
para [inscrito em] vocês é o estável [firme,
seguro]" – para mostrar que isto é algo que
foi decretado e que ninguém ou nada pode mudar. Então
o simples fato aqui é, do ponto de vista da fé:
Se D-us deixou Israel "escrito" para o povo de Moisés,
quem pode mudar isto?
O Alcorão faz referência ao exílio [aos exilados],
mas deixa em aberto a questão do retorno... Diz aos judeus
que se eles mantiverem sua promessa a D-us, então D-us
irá manter Sua divina promessa a eles. Podemos argumentar
que o atual Estado de Israel não foi criado pelos meios
mais pacíficos, e que muitas pessoas foram deslocadas – para
mim, esta não é a questão. A questão é que,
quando os muçulmanos entraram naquela terra no século
VII, estavam bastante cientes sobre seus legítimos proprietários;
e quando eles falharam em agir de acordo com mandato divino (ao
menos como concebido pelos seguidores de todas as fés
abrâmicas), auxiliaram e instigaram um crime. E a situação
atual mostra os frutos de tal ação – onde
palestinos e israelenses estão sendo mortos
diariamente.
Eu também chamo a atenção de vocês
para o fato de que as interpretações medievais
do Alcorão – sem qualquer exceção,
que eu saiba – reconheciam Israel como pertencendo aos
judeus, como direito nato deles. De fato, duas das mais famosas
interpretações do Islã explicavam o termo "escrita" do
Alcorão 5:21 da seguinte maneira:
Ibn Kathir (d.774/1373) disse: "Aquela que D-us escreveu
para vocês", ou seja, "Aquela que D-us prometeu
a vocês pelas palavras de seu pai Israel, e que é a
herança deixada àqueles dentre vocês que
crêem". Muhammad al-Shawkani (d.1250/1834) interpreta
a Kataba como significando "aquela que D-us alocou e predestinou
a vocês em Seu conhecimento primordial, considerando-a
como seu lugar de moradia" (1992, 2:41). A idéia
de que Israel não pertence aos judeus é uma idéia
moderna, provavelmente baseada na rejeição do Oriente
Médio ao colonialismo europeu, etc., mas certamente não
tem nada a ver com o Alcorão. O fato desastroso é que
a maioria dos muçulmanos não lêem o Alcorão
e o interpretam com base nas suas próprias palavras; melhor
seria se eles deixassem que os imãs e os pregadores fizessem
isso para eles.
FP: O senhor diz que quando os muçulmanos chegaram à Terra
Sagrada no século VII eles "auxiliaram e instigaram
um crime". O senhor pode se explicar um pouco mais sobre
isto? Quanto de honestidade há no Islã contemporâneo
para com este fato?
KM: Como os judeus perderam seu direito de viver na Terra Sagrada?
Todos os relatos confiáveis mostram que foi devido às
pilhagens e incêndios que se seguiram desde os anos 70-135
da Era Comum. Quando os muçulmanos chegaram ao lugar em
638, libertando-o dos bizantinos, eles sabiam perfeitamente bem
a quem ele pertencia por direito. Mas constatamos que os historiadores
muçulmanos afirmam que o califa mulçumano que aceitou
a rendição da Bizâncio Cristã feita
por seu representante, Sofrônio, o fez sob certas condições
[impostas por Sofrônio] – uma delas sendo a de que
os judeus não seriam autorizados a entrar na cidade. Pessoalmente,
eu tenho muita dificuldade em aceitar essa história e
alguns aspectos da sua historicidade porque, como o conhecimento
moderno tem demonstrado, os relatos muçulmanos sobre aquela época
foram anotados muito depois de acontecido o fato e não
são tão confiáveis quanto se
pensava. E sabemos também que quando os primeiros cruzados
tomaram posse do
lugar em 1096-1099, eles massacraram judeus e muçulmanos.
Se Omar tinha realmente assinado um acordo naqueles termos, o
que os judeus estavam fazendo lá?
Por auxiliar e instigar um crime, eu me refiro a quando Abdul
Malik construiu lá a mesquita e atribuiu a Maomé falsas
tradições de acordo com as quais o Profeta supostamente
teria dito que um homem deveria pôr-se a caminho em peregrinação
apenas para três mesquitas: as de Meca, Medina e Jerusalém.
Agora, como poderia o Profeta ter dito isso se todos os muçulmanos
concordam que, quando o Alcorão afirma "neste dia
eu terei concluído para você a sua religião" (Q5:3),
Jerusalém sequer fazia parte da geografia muçulmana?
A ‘conclusão' [da religião para os muçulmanos
que completam a peregrinação] significa apenas
isto... [Está de acordo apenas] com o Alcorão arábico
para os povos árabes, e o aspecto de conquista de território
estrangeiro não é uma injunção do
islamismo corânico. Quando os muçulmanos conquistaram
Jerusalém, deveriam ter deixado aberto o direito de retorno
aos proprietários legítimos. É possível
que as crenças judaicas da época apenas permitiam
tal retorno mediante um Messias – mas isto não deveria
ter influenciado a ação muçulmana. E contrastando
com o relato de Sofrônio, acima, há também
outros relatos mostrando que Omar de fato abriu a cidade aos
judeus. Se for este o caso, então a posterior ocupação
muçulmana e construção de uma mesquita no
lugar onde ficava o Templo é algo que não estava
sancionado pelo alcorão. Quanto de honestidade há no
Islã contemporâneo para com este fato? A situação
no Oriente Médio, as "politicagens" etc., impedem
a honestidade.
FP: O senhor faz palestras em universidades
expondo tais fatos politicamente incorretos. Em conseqüência, tem sido
freqüentemente acusado por grupos muçulmanos. Conte-nos
sobre as críticas/acusações deles.
KM: As críticas sobre o meu trabalho são de que
eu estou em desacordo com o movimento geopolítico em direção
ao fundamentalismo. O que seus leitores precisam entender é que
o fundamentalismo está se tornando rapidamente a tendência
atual. Não a moderação. Um exemplo perfeito
disso está em "Islã Sitiado", de Akbar
Ahmed, onde ele aponta que os talebãs não são
mais uma simples facção no Paquistão; muitos
paquistaneses estão sendo persuadidos por seus ensinamentos.
Aqui mesmo, nos Estados Unidos, eu sou um problema para aqueles
nas mesquitas que se utilizam da pressão social para forçarem
outros a aceitar seu extremismo. No nível pessoal com
a minha família: quando minha mulher, depois de anos de
pesquisa, decidiu que não sentia mais que o véu
encobrindo o rosto era obrigatório, e escolheu aventurar-se
abertamente sem ele, muitas das "irmãs" muçulmanas
que ela cumprimentava se recusavam a responder – sem sequer
examinar suas razões ou interpretações.
Muitos muçulmanos se posicionam contra mim pela única
razão de eu dizer que Israel tem direito a existir.
No geral, as críticas contra mim seguem um estranho padrão:
eles ficam desnorteados pelo fato de eu dar qualquer legitimidade
a Israel, supondo que, ao fazê-lo, eu estou negando os
direitos dos palestinos. Eu respondo que de maneira alguma eu
nego que os palestinos têm direitos. Mas isto geralmente
não é levado em conta pelos que criticam a minha
posição, porque para eles é tudo... ou nada.
Numa palestra recente em Santa Cruz, grupos muçulmanos
afixaram pôsteres dizendo
que eu alego que o Alcorão diz coisas ruins sobre os judeus.
Na verdade isto é uma
interpretação grosseiramente incorreta dos fatos:
eu admito que o Alcorão tem versos polêmicos, mas
a minha visão é a de que o Alcorão de fato
respeita os judeus (o que explica Moisés ser tão
freqüentemente citado no texto) e que é a tradição
oral do Islã (o "hadith") quem os demoniza [aos
judeus]. Para muitos muçulmanos, isto é um osso
duro de roer, porque durante quase 12 séculos foi ensinado
a eles que a aceitação das tradições
orais é um elemento doutrinário do Islã.
Freqüentemente eles tentam argumentar com base em citações
específicas do Alcorão, e aqui eles perdem feio – porque
quando se chega às exegeses e interpretações,
eu as estudei por anos a fio. E então há também
o aspecto do "desafio"... em Santa Cruz eles disseram
que queriam debater. Eu concordei sob uma condição:
que o debate fosse público. Eles não apareceram.
Na verdade, os poucos muçulmanos que compareceram e tiveram
paciência para me ouvir não puderam encontrar qualquer
interpretação ou representação equivocada
do Islã.
Em Montreal, eu fui acusado de racista quando disse que 95% dos
muçulmanos contemporâneos estão expostos
a ensinamentos anti-semitas. Minha réplica, que a
Gazeta de Montreal recusou-se a publicar, foi que cada muçulmano
tinha que responder a uma pergunta muito simples. Com honestidade.
Qual é a interpretação dos dois versos finais
do primeiro capítulo do Alcorão? "Guie-nos
no caminho correto – o caminho daqueles a quem foi concedida
sua generosidade, não daqueles que atraíram sua
ira, nem aqueles que estão perdidos”.
Este verso não menciona nada sobre judeus ou cristãos...
Mesmo assim, quase todo
muçulmano aprende que aqueles que atraíram sobre
si a fúria divina foram os judeus e que aqueles que estão
perdidos são os cristãos. O que é ainda
mais problemático é que uma pessoa média
aprende esse capítulo e sua interpretação
entre 5 e 8 anos de idade. E sabemos que o que se aprende nessa
fase de vida torna-se enraizado, quase ao ponto de estar no DNA
da pessoa, se posso me expressar desta forma. Eu sentia que minha
resposta era auto-evidente. Vocês sabem qual foi o resultado?
Alguns dos meus colegas mais próximos negaram que tivessem
sido ensinados dessa forma. Isto foi mais doloroso para mim do
que a rejeição sofrida por parte de alguns líderes
muçulmanos – pois eu sempre peço que, se
negarmos algumas coisas publicamente, ao menos em particular
a gente admita a verdade. E, em particular, meus companheiros
muçulmanos não conseguiram admitir o que é óbvio
a qualquer um, o que em si mesmo é um testemunho do quanto
nós nos afundamos.
Ainda sobre a questão das críticas e contestações – eu
preciso afirmar que são a única forma de argumento,
sem quaisquer ameaças de natureza física. Qualquer
que seja o problema que meus companheiros muçulmanos tenham
com os meus pontos de vista, eles sabem que eu também
sou muçulmano. Eu não refuto a minha religião
e, portanto, nós podemos discutir e debater. Na Universidade
Estadual de San Diego onde leciono, o Coordenador local para
Estudos Acadêmicos iniciou um processo disciplinar contra
mim por eu ter acusado a todos da universidade de anti-semitismo
e homofobia. Eles não levaram o processo adiante – uma
decisão ardilosa pela qual eles pareceriam muito tolos.
Mas a resposta deles dizia que eles também eram semitas
(os autores da carta [de acusação], aliás,
não eram sequer árabes) e que não poderiam
ser acusados de
homofóbicos porque seus vizinhos eram `gays' e lésbicas!
FP: Se o Islã for passar por uma reforma, de quais raízes
ela se originará?
MK: A reforma virá dos muçulmanos que estão
no Ocidente, e as vozes das mulheres serão sonoras e fundamentais.
Vamos dar uma olhada em nomes que para muitos ainda são
desconhecidos, mas que têm feito tanto para mudar o pensamento
islâmico... Nomes de pessoas que podem discordar veementemente
entre si, mas pessoas que, por toda sua diferença, têm
feito muita coisa para purgar o Islã do chauvinismo machista
que o aflige por séculos: Fatima Mernissi, Azizah al Hibri,
Amina Wadud Muhsin, Irshad Manji, Rifat Hasan, Asma Jahangir.
Nem todas as pessoas a favor da reforma são mulheres:
há também nomes como Khalid Abou al Fadl, Abdallah
al-Naim, Sa'd al din Ibrahim, etc.. É importante notar
que todos eles, com apenas uma exceção, estão
hoje no Ocidente – e que todos eles tiveram uma formação
educacional ocidental.
FP: O Islã realmente ensina que Israel pertence aos judeus
e que os muçulmanos são obrigados pelo Alcorão
mesmo, a aceitar sua existência?
KM: O Alcorão afirma bem no começo do segundo capítulo "este é um
livro em que não há dúvida, [é] um
guia para a consciência Divina". Seu conteúdo,
portanto, deve ser encarado por todo muçulmano como sendo
divinamente ordenado – e a ser obedecido [seguido]. Os
versos que falam sobre Israel, como 5: 20-21, não estão
ali apenas para serem lidos; estão ali para serem seguidos.
Também no Islã é válida a máxima
elementar "A catástrofe deve ser afastada" (al
darar yuzal). Os muçulmanos têm que encarar a realidade – desde
que o Estado de Israel foi estabelecido, o objetivo de toda a
região tem sido sua eliminação. E eles não
têm conseguido, e parece que não há esperança
de sucesso [nessa empreitada]. A coisa mais pragmática
a ser feita é atracarem-se com a realidade: Israel está ali
em definitivo, e pode existir num ambiente de coexistência
pacífica, ou num ambiente de belicosidade. O Alcorão
diz aos muçulmanos que D-us não vai mudar sua situação
até que eles mudem a si mesmos – e esta é uma
oportunidade clássica para se praticar este mandamento.
Apenas quando os próprios muçulmanos aceitarem
Israel é que eles estarão seguindo o Alcorão.
Israel poderá negociar a partir de um posicionamento onde
sua segurança estará garantida e, ainda que haja
alguma tensão de tempos em tempos, ao menos a paz será a
regra.
* Jamie Glazov escreveu o texto desta
entrevista que foi publicado na internet, no site FrontPageMagazine.com,
e 3/6/2004 - Traduzido
por Gisella Gonçalves e publicado no site DeOlhonaMidia,com.br
em 14/6/2004.