Visão Judaica - Edição N° 27
:. O Alcorão e os direitos dos judeus em Israel .:

Por: Jamie Glazov

Os direitos dos judeus a Israel a partir do Alcorão explicados por Khaleel Mohammed, professor de Islamismo, convidado pelo Frontpage Interview. Assistente do Departamento de Estudos da Religião na Universidade Estadual de San Diego, ele é mais um muçulmano erudito a confirmar os direitos dos judeus sobre Israel.

Frontpage: Professor Mohammed, bem vindo ao Frontpage Interview.
Khaleel Mohammed: É uma grande honra para mim. Obrigado por esta oportunidade de apresentar minhas idéias para os seus leitores. Como vocês sabem, tenho interesse num Islã moderado, que seja inclusivo e preocupado com os direitos humanos. Minha missão é ajudar a recuperar a beleza que antes era praticada pelo Islã, uma mensagem não muito em moda atualmente entre os fundamentalistas ou os muçulmanos mais tradicionais.

FP: O senhor é um muçulmano e, mesmo sendo pouco convencional entre os clérigos e estudiosos islâmicos, o senhor ensina que o Alcorão diz que Israel pertence aos judeus. O senhor pode nos esclarecer sobre este ensinamento islâmico?
KM: O Alcorão prenuncia vários princípios que pairam sobre um tema comum: D-us não ama a injustiça e irá socorrer aqueles que são tratados de forma errada. E se concentra tanto nisso que a pessoa mais citada no Alcorão é Moisés – a quem ele (o Alcorão) apresenta como um revolucionário de D-us, e que conduz um povo, desprezado e atormentado pela única razão de terem venerado e cultuado a D-us para fora da terra de escravidão e em direção à Prometida Terra Santa. O capítulo 5: 20-21 do Alcorão afirma com bastante clareza: "Moisés disse a seu povo: Ó, meu povo! Lembrem-se da generosidade de D-us para com vocês quando Ele concedeu-lhes os Profetas e fez de vocês reis e lhes deu aquilo que não foi dado antes a nenhuma outra dentre as nações. Ó, meu povo! Entrem na Terra Santa que D-us deixou escrita para vocês e não recuem, ou serão perdedores”. O Alcorão continua dizendo porque não foi permitido ao israelitas entrarem na terra por quarenta anos... Mas o ponto-chave da minha análise encontra-se onde Moisés diz que a Terra Santa é aquela que D-us deixou "escrita" para os israelitas. No entendimento tanto de judeus quanto islâmicos, a palavra "escrita" tem um significado de finalidade, determinação e imutabilidade. E assim nós temos a Torá Escrita (imutável) e a Torá Oral (que representa a mudança para adaptar-se aos tempos). E no Alcorão nós temos "O escrito para [inscrito em] vocês é o estável [firme, seguro]" – para mostrar que isto é algo que foi decretado e que ninguém ou nada pode mudar. Então o simples fato aqui é, do ponto de vista da fé: Se D-us deixou Israel "escrito" para o povo de Moisés, quem pode mudar isto?
O Alcorão faz referência ao exílio [aos exilados], mas deixa em aberto a questão do retorno... Diz aos judeus que se eles mantiverem sua promessa a D-us, então D-us irá manter Sua divina promessa a eles. Podemos argumentar que o atual Estado de Israel não foi criado pelos meios mais pacíficos, e que muitas pessoas foram deslocadas – para mim, esta não é a questão. A questão é que, quando os muçulmanos entraram naquela terra no século VII, estavam bastante cientes sobre seus legítimos proprietários; e quando eles falharam em agir de acordo com mandato divino (ao menos como concebido pelos seguidores de todas as fés abrâmicas), auxiliaram e instigaram um crime. E a situação atual mostra os frutos de tal ação – onde palestinos e israelenses estão sendo mortos
diariamente.
Eu também chamo a atenção de vocês para o fato de que as interpretações medievais do Alcorão – sem qualquer exceção, que eu saiba – reconheciam Israel como pertencendo aos judeus, como direito nato deles. De fato, duas das mais famosas interpretações do Islã explicavam o termo "escrita" do Alcorão 5:21 da seguinte maneira:
Ibn Kathir (d.774/1373) disse: "Aquela que D-us escreveu para vocês", ou seja, "Aquela que D-us prometeu a vocês pelas palavras de seu pai Israel, e que é a herança deixada àqueles dentre vocês que crêem". Muhammad al-Shawkani (d.1250/1834) interpreta a Kataba como significando "aquela que D-us alocou e predestinou a vocês em Seu conhecimento primordial, considerando-a como seu lugar de moradia" (1992, 2:41). A idéia de que Israel não pertence aos judeus é uma idéia moderna, provavelmente baseada na rejeição do Oriente Médio ao colonialismo europeu, etc., mas certamente não tem nada a ver com o Alcorão. O fato desastroso é que a maioria dos muçulmanos não lêem o Alcorão e o interpretam com base nas suas próprias palavras; melhor seria se eles deixassem que os imãs e os pregadores fizessem isso para eles.

FP: O senhor diz que quando os muçulmanos chegaram à Terra Sagrada no século VII eles "auxiliaram e instigaram um crime". O senhor pode se explicar um pouco mais sobre isto? Quanto de honestidade há no Islã contemporâneo para com este fato?
KM: Como os judeus perderam seu direito de viver na Terra Sagrada? Todos os relatos confiáveis mostram que foi devido às pilhagens e incêndios que se seguiram desde os anos 70-135 da Era Comum. Quando os muçulmanos chegaram ao lugar em 638, libertando-o dos bizantinos, eles sabiam perfeitamente bem a quem ele pertencia por direito. Mas constatamos que os historiadores muçulmanos afirmam que o califa mulçumano que aceitou a rendição da Bizâncio Cristã feita por seu representante, Sofrônio, o fez sob certas condições [impostas por Sofrônio] – uma delas sendo a de que os judeus não seriam autorizados a entrar na cidade. Pessoalmente, eu tenho muita dificuldade em aceitar essa história e alguns aspectos da sua historicidade porque, como o conhecimento moderno tem demonstrado, os relatos muçulmanos sobre aquela época foram anotados muito depois de acontecido o fato e não são tão confiáveis quanto se
pensava. E sabemos também que quando os primeiros cruzados tomaram posse do
lugar em 1096-1099, eles massacraram judeus e muçulmanos. Se Omar tinha realmente assinado um acordo naqueles termos, o que os judeus estavam fazendo lá?
Por auxiliar e instigar um crime, eu me refiro a quando Abdul Malik construiu lá a mesquita e atribuiu a Maomé falsas tradições de acordo com as quais o Profeta supostamente teria dito que um homem deveria pôr-se a caminho em peregrinação apenas para três mesquitas: as de Meca, Medina e Jerusalém. Agora, como poderia o Profeta ter dito isso se todos os muçulmanos concordam que, quando o Alcorão afirma "neste dia eu terei concluído para você a sua religião" (Q5:3), Jerusalém sequer fazia parte da geografia muçulmana? A ‘conclusão' [da religião para os muçulmanos que completam a peregrinação] significa apenas isto... [Está de acordo apenas] com o Alcorão arábico para os povos árabes, e o aspecto de conquista de território estrangeiro não é uma injunção do islamismo corânico. Quando os muçulmanos conquistaram Jerusalém, deveriam ter deixado aberto o direito de retorno aos proprietários legítimos. É possível que as crenças judaicas da época apenas permitiam tal retorno mediante um Messias – mas isto não deveria ter influenciado a ação muçulmana. E contrastando com o relato de Sofrônio, acima, há também outros relatos mostrando que Omar de fato abriu a cidade aos judeus. Se for este o caso, então a posterior ocupação muçulmana e construção de uma mesquita no lugar onde ficava o Templo é algo que não estava sancionado pelo alcorão. Quanto de honestidade há no Islã contemporâneo para com este fato? A situação no Oriente Médio, as "politicagens" etc., impedem a honestidade.

FP: O senhor faz palestras em universidades expondo tais fatos politicamente incorretos. Em conseqüência, tem sido freqüentemente acusado por grupos muçulmanos. Conte-nos sobre as críticas/acusações deles.
KM: As críticas sobre o meu trabalho são de que eu estou em desacordo com o movimento geopolítico em direção ao fundamentalismo. O que seus leitores precisam entender é que o fundamentalismo está se tornando rapidamente a tendência atual. Não a moderação. Um exemplo perfeito disso está em "Islã Sitiado", de Akbar Ahmed, onde ele aponta que os talebãs não são mais uma simples facção no Paquistão; muitos paquistaneses estão sendo persuadidos por seus ensinamentos. Aqui mesmo, nos Estados Unidos, eu sou um problema para aqueles nas mesquitas que se utilizam da pressão social para forçarem outros a aceitar seu extremismo. No nível pessoal com a minha família: quando minha mulher, depois de anos de pesquisa, decidiu que não sentia mais que o véu encobrindo o rosto era obrigatório, e escolheu aventurar-se abertamente sem ele, muitas das "irmãs" muçulmanas que ela cumprimentava se recusavam a responder – sem sequer examinar suas razões ou interpretações. Muitos muçulmanos se posicionam contra mim pela única razão de eu dizer que Israel tem direito a existir.
No geral, as críticas contra mim seguem um estranho padrão: eles ficam desnorteados pelo fato de eu dar qualquer legitimidade a Israel, supondo que, ao fazê-lo, eu estou negando os direitos dos palestinos. Eu respondo que de maneira alguma eu nego que os palestinos têm direitos. Mas isto geralmente não é levado em conta pelos que criticam a minha posição, porque para eles é tudo... ou nada.
Numa palestra recente em Santa Cruz, grupos muçulmanos afixaram pôsteres dizendo
que eu alego que o Alcorão diz coisas ruins sobre os judeus. Na verdade isto é uma
interpretação grosseiramente incorreta dos fatos: eu admito que o Alcorão tem versos polêmicos, mas a minha visão é a de que o Alcorão de fato respeita os judeus (o que explica Moisés ser tão freqüentemente citado no texto) e que é a tradição oral do Islã (o "hadith") quem os demoniza [aos judeus]. Para muitos muçulmanos, isto é um osso duro de roer, porque durante quase 12 séculos foi ensinado a eles que a aceitação das tradições orais é um elemento doutrinário do Islã. Freqüentemente eles tentam argumentar com base em citações específicas do Alcorão, e aqui eles perdem feio – porque quando se chega às exegeses e interpretações, eu as estudei por anos a fio. E então há também o aspecto do "desafio"... em Santa Cruz eles disseram que queriam debater. Eu concordei sob uma condição: que o debate fosse público. Eles não apareceram. Na verdade, os poucos muçulmanos que compareceram e tiveram paciência para me ouvir não puderam encontrar qualquer interpretação ou representação equivocada do Islã.
Em Montreal, eu fui acusado de racista quando disse que 95% dos muçulmanos contemporâneos estão expostos a ensinamentos anti-semitas. Minha réplica, que a
Gazeta de Montreal recusou-se a publicar, foi que cada muçulmano tinha que responder a uma pergunta muito simples. Com honestidade. Qual é a interpretação dos dois versos finais do primeiro capítulo do Alcorão? "Guie-nos no caminho correto – o caminho daqueles a quem foi concedida sua generosidade, não daqueles que atraíram sua ira, nem aqueles que estão perdidos”.
Este verso não menciona nada sobre judeus ou cristãos... Mesmo assim, quase todo
muçulmano aprende que aqueles que atraíram sobre si a fúria divina foram os judeus e que aqueles que estão perdidos são os cristãos. O que é ainda mais problemático é que uma pessoa média aprende esse capítulo e sua interpretação entre 5 e 8 anos de idade. E sabemos que o que se aprende nessa fase de vida torna-se enraizado, quase ao ponto de estar no DNA da pessoa, se posso me expressar desta forma. Eu sentia que minha resposta era auto-evidente. Vocês sabem qual foi o resultado? Alguns dos meus colegas mais próximos negaram que tivessem sido ensinados dessa forma. Isto foi mais doloroso para mim do que a rejeição sofrida por parte de alguns líderes muçulmanos – pois eu sempre peço que, se negarmos algumas coisas publicamente, ao menos em particular a gente admita a verdade. E, em particular, meus companheiros muçulmanos não conseguiram admitir o que é óbvio a qualquer um, o que em si mesmo é um testemunho do quanto nós nos afundamos.
Ainda sobre a questão das críticas e contestações – eu preciso afirmar que são a única forma de argumento, sem quaisquer ameaças de natureza física. Qualquer que seja o problema que meus companheiros muçulmanos tenham com os meus pontos de vista, eles sabem que eu também sou muçulmano. Eu não refuto a minha religião e, portanto, nós podemos discutir e debater. Na Universidade Estadual de San Diego onde leciono, o Coordenador local para Estudos Acadêmicos iniciou um processo disciplinar contra mim por eu ter acusado a todos da universidade de anti-semitismo e homofobia. Eles não levaram o processo adiante – uma decisão ardilosa pela qual eles pareceriam muito tolos.
Mas a resposta deles dizia que eles também eram semitas (os autores da carta [de acusação], aliás, não eram sequer árabes) e que não poderiam ser acusados de
homofóbicos porque seus vizinhos eram `gays' e lésbicas!

FP: Se o Islã for passar por uma reforma, de quais raízes ela se originará?
MK: A reforma virá dos muçulmanos que estão no Ocidente, e as vozes das mulheres serão sonoras e fundamentais. Vamos dar uma olhada em nomes que para muitos ainda são desconhecidos, mas que têm feito tanto para mudar o pensamento islâmico... Nomes de pessoas que podem discordar veementemente entre si, mas pessoas que, por toda sua diferença, têm feito muita coisa para purgar o Islã do chauvinismo machista que o aflige por séculos: Fatima Mernissi, Azizah al Hibri, Amina Wadud Muhsin, Irshad Manji, Rifat Hasan, Asma Jahangir. Nem todas as pessoas a favor da reforma são mulheres: há também nomes como Khalid Abou al Fadl, Abdallah al-Naim, Sa'd al din Ibrahim, etc.. É importante notar que todos eles, com apenas uma exceção, estão hoje no Ocidente – e que todos eles tiveram uma formação educacional ocidental.

FP: O Islã realmente ensina que Israel pertence aos judeus e que os muçulmanos são obrigados pelo Alcorão mesmo, a aceitar sua existência?
KM: O Alcorão afirma bem no começo do segundo capítulo "este é um livro em que não há dúvida, [é] um guia para a consciência Divina". Seu conteúdo, portanto, deve ser encarado por todo muçulmano como sendo divinamente ordenado – e a ser obedecido [seguido]. Os versos que falam sobre Israel, como 5: 20-21, não estão ali apenas para serem lidos; estão ali para serem seguidos. Também no Islã é válida a máxima elementar "A catástrofe deve ser afastada" (al darar yuzal). Os muçulmanos têm que encarar a realidade – desde que o Estado de Israel foi estabelecido, o objetivo de toda a região tem sido sua eliminação. E eles não têm conseguido, e parece que não há esperança de sucesso [nessa empreitada]. A coisa mais pragmática a ser feita é atracarem-se com a realidade: Israel está ali em definitivo, e pode existir num ambiente de coexistência pacífica, ou num ambiente de belicosidade. O Alcorão diz aos muçulmanos que D-us não vai mudar sua situação até que eles mudem a si mesmos – e esta é uma oportunidade clássica para se praticar este mandamento. Apenas quando os próprios muçulmanos aceitarem Israel é que eles estarão seguindo o Alcorão. Israel poderá negociar a partir de um posicionamento onde sua segurança estará garantida e, ainda que haja alguma tensão de tempos em tempos, ao menos a paz será a regra.

* Jamie Glazov escreveu o texto desta entrevista que foi publicado na internet, no site FrontPageMagazine.com, e 3/6/2004 - Traduzido por Gisella Gonçalves e publicado no site DeOlhonaMidia,com.br em 14/6/2004.

 


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