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Visão
Judaica - Edição N° 27 |
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Muro árabe de silêncio circunda a cerca
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Por: Yair Ettinger
Tarde de segunda-feira passada, terceiro dia de protestos, o sol
batia impiedosamente
sob a barraca no bairro de A-Ram, norte de Jerusalém. Debaixo do oleado
amarelo vivo, adjacente ao Centro Cultural Um-Razi, estavam sentadas dúzias
de ativistas e suas visitas. Alguns deles usavam braçadeiras onde se lia "greve
de fome" em árabe. As estridentes canções nacionalistas
palestinas enchiam o pesado ar.
Sem muito esforço, a greve de fome e o acampamento de protesto contra
a cerca de separação organizados pelo deputado Azmi Bishara, líder
do Balad (Aliança Democrática Nacional), decolou e atraiu muita
atenção. Membros da Fatah, representantes do Parlamento palestino,
integrantes do Conselho Municipal de A-Ram e esquerdistas israelenses juntaram-se
aos manifestantes.
Centenas vieram encontrá-los, entre eles árabes das cidades árabes-israelenses
centrais do Triângulo, Baka al-Garbiyeh, Taibeh, e Tira. Para a decepção
dos organizadores, uma delegação de estudantes da anti-sionista
Yeshivá Neturei Karta também apareceu, e sentou-se na barraca com
um cartaz grande onde se lia "Parem com muro-gueto nazista”.
As mídias palestina e do exterior cobriram o protesto extensivamente — o
membro do Knesset israelense que só se alimentou de água mineral
e sal, foi observado como um herói. "Ajude-os", declarou ele,
referindo-se a um grupo de crianças de um acampamento de verão
da aldeia palestina de Anata que estava na fila para cumprimentá-lo.
"
Eu não vou parar. Isto é sério", disse Bishara. "Vou
até o fim". Sua meta não é nem incitar o que ele chama
de "tombando o apartheid que cresce no país," nem parar a construção
da cerca.
"A meta é pressionar o governo israelense a partir do mundo e da
sociedade israelense, mudar as pessoas em Jerusalém e o primeiro-ministro
[Ariel] Sharon. O mundo inteiro está tratando da questão se ele
vai deixar Gaza ou não, mas o fato principal está acontecendo aqui,
divisão e separação”.
No período entre a decisão da Suprema Corte de Justiça sobre
a rota da cerca e a decisão do Tribunal Internacional de Justiça
em Haia sobre o projeto inteiro, a cerca tornou-se mais uma vez o assunto quente
da mídia política. Mas Jamal Jum'ah, o coordenador da campanha
palestina contra a "cerca do apartheid” e uma das 25 pessoas que se
uniram à greve de fome durante a semana, foi convencido de que o acampamento
de protesto contra a cerca em A-Ram não é o caso de um movimento
político árabe de Israel traçado sob os esforços
contra a cerca numa base única.
"Nós percebemos recentemente que há muito mais interesse entre
a comunidade israelense árabe em atividades de solidariedade conosco.
As pessoas perguntam o que podem fazer," disse ele. "De agora em diante,
os assuntos começarão a mover-se para frente. As pessoas começam
a reconhecer que a cerca fere as relações em andamento e cultura
dos palestinos em ambos os lados da cerca, como um povo.
Demonstrações de nenhum espetáculo
Ninguém nega que as relações entre árabes israelenses
e palestinos estejam numa conjuntura crítica, em grande parte por causa
da cerca. Esta é um das razões porque os advogados árabes
de Israel conduzem a equipe jurídica que luta contra a cerca e que vários
membros árabes do Knesset, como Mohammed Barakeh e Ahmed Tibi (Hadash-Ta'al),
têm posição fixa e regular nas manifestações
contra a cerca. Mas estranhamente, enquanto deputados árabes estiverem
falando à imprensa, enquanto se unirem à greve de fome e submeterem
moções de desconfiança ao gabinete depois da decisão
judicial de Haia, da rua árabe-israelense a cerca aparenta ser um problema
principalmente palestino. Em Wadi Ara, agitada pela economia regional e pelos
laços de família, há um ano – com exceção
de duas pequenas demonstrações em Baka al-Garbiyeh em fevereiro, — não é feita
nenhuma demonstração árabe, abaixo-assinado ou protestos.
"A coisa mais surpreendente é que as pessoas na aldeia de Wadi Ara
não protestaram”, comenta triste um deputado árabe. " Ali é muito
difícil conseguir que as pessoas saiam contra a cerca", admitiu ele.
Ativistas judeus e árabes integrados ao movimento de protesto contra a
cerca são críticos dos movimentos políticos árabes. "Nós
esperamos que (as comunidades árabes de Israel) se organizem melhor," disse
Jum'ah. “Deveria haver mais campanhas para elevar consciência, grupos
deveriam vir aqui e visitar o muro, deixe-os ver a situação, os
deixe-os expressar solidariedade”, acrescentou.
Hulud Badawi, investigadora de campo da ACRI (Associação de Direitos
Civis de Israel) estima o número de ativistas árabes-israelenses
contra a cerca em não mais que 100. Muitos deles, como ela, estão
identificados com os partidos árabes e participam de atividades de organizações
palestinas ou grupos de esquerda israelenses — grupos judeus árabes
como "Anarquistas Contra a Cerca", "Ta'ayush" (Árabes
Israelenses e Judeus pela Coexistência e Sociedade), e a Coalizão
das Mulheres para Paz.
"Mas os palestinos dos territórios estão profundamente desapontados
com os palestinos de Israel que não estão lutando junto com eles
contra o que está errado," diz Badawi. "Isso [a decepção]
não provém de um sentimento de abandono, mas da concretização
que a cerca trará implicações para os palestinos de Israel,
e está projetando uma nova história para o povo palestino inteiro,
uma segunda naqbah — o nome palestino para a Independência de Israel
(e que significa desgraça). Eles ainda estão esperando. Nós
somos ativistas muito apreciados. Quando eu vou a uma manifestação
e digo que eu sou do Nazaré, eu sempre obtenho um sorriso, um sorriso
de esperança. As pessoas sempre querem ver cada vez mais”.
Há mais de uma resposta para a pergunta por que os protestos entre a população árabe-israelense
são fracos e hesitantes, ou melhor, na realidade nem existem: uma crise
de liderança na sociedade árabe, ativismo político letárgico
em geral, senso de desesperança e apatia, e resistência de muitos árabes-israelenses,
desde os eventos de outubro de 2000, em sair para demonstrar ou expressar uma
posição nacionalista.
"O problema principal é o consenso na sociedade israelense, de ambos,
esquerda e direita, sobre a cerca," explica o deputado Ahmed Tibi. "Qualquer
um que esteja desconectado do sofrimento palestino sobre a cerca está sendo
levado para a idéia com a qual os israelenses estão sendo forrados,
inclusive árabes-israelenses, de que a cerca é uma solução
mágica que é o início do fim do conflito. Esta é uma
falsa magia, uma ilusão, e alguns dos árabes-israelenses caíram
nessa", prossegue.
É interessante não haver lugar para partidários da cerca
nem o diálogo político aberto. "A cerca de separação é racista", “o
muro do apartheid" e o “segundo naqbah" são termos freqüentemente
vistos nos manifestos do Alto Comitê Árabe de Monitoração,
uma agência política e em artigos de jornal que foram publicados
antes e após a decisão de Haia. Estas palavras fortes são
mais que coisas ditas da “boca pra fora”. Durante todo a intifada,
os árabes-israelenses testemunharam o sofrimento dos seus irmãos
do leste da Linha Verde e sentiram sua dor.
Este senso de solidariedade é explicado por alguns que usam o modelo dos
judeus da Diáspora e os judeus de Israel. Se judeus que vivem longe de
Israel podem sentir a angústia dos seus irmãos, aqui, como deveriam
se sentir os árabes-israelenses, às vezes só alguns metros
de distância das aldeias palestinas?
Á rabes a favor da cerca
A cerca não despertou nenhum protesto árabe-israelense nem mesmo
quando seu segmento do norte foi construído durante 2002-03, afastando
as cidades das comunidades palestinas adjacentes com as quais tinham mantido
relações durante 36 anos.
Como isso aconteceu que só algumas dúzias de árabes-israelenses
protestaram contra a cerca enquanto empreiteiros árabes-israelenses participaram
de sua construção? Como aconteceu isso de em alguns lugares, sob
pressão dos conselhos municipais árabes, que a cerca foi desviada
para o Leste, às custas de terras palestinas?
Há árabes-israelenses que apóiam a separação?
Em condição de anonimato, uma personalidade árabe bem-conhecida,
residente no Triângulo, dispõe-se a falar.
"É verdade que o público árabe deseja um acordo de
paz, mas além da dimensão política, 99 por cento dos árabes
em Israel acreditam que a cerca é algo positivo. Bloqueou todas as tentativas
ilegais [dos palestinos] de entrar em Israel, e fez cair os roubos e outros crimes.
A economia está florescendo; milhões que foram investidos em cidades
palestinas agora são investidos em Wadi Ara. E não esqueça
que o público árabe é diferente dos palestinos. Árabes-israelenses
têm um padrão diferente de vida”.
Esta personalidade não está só. "As pessoas dizem: ‘problema
resolvido'", de acordo com um jornalista que vive em Umm al-Fahm. Entre
oradores anônimos, por um lado, e Tibi e Bishara do outro, é difícil
identificar uma única posição árabe, em separado.
Há somente uma pessoa que abertamente expressou seu apoio qualificado à cerca — o
xeique Hashem Abd um-Rahman, prefeito de Umm al-Fahm. Em janeiro, Rahman contou
ao jornal Haaretz que, desde que parte da cerca diante de sua cidade foi erguida
alguns meses antes, "os residentes podem dormir tranqüilamente, e sentem-se
mais seguros. Pessoas não estão atravessando suas casas e nem seus
campos, não estão explodindo nada e não estão colocando
em risco os moradores".
Sua posição é complicada. Ele só apóia a cerca
se ela passar ao longo da Linha Verde, e só se são feitos arranjos
para a passagem de palestinos por ela. Como muitos outros em Umm al-Fahm, situados
na “linha de costura”, Abd um-Rahman está transtornado com
o dano causado à cidade dele e à sua imagem durante a intifada,
por causa de terroristas de Jenin que a atravessavam no seu caminho para levar à cabo
ataques em Israel.
O bom nome da cidade foi difamado de tal forma que os moradores começaram
a usar falsos endereços. "Nenhuma cerca pode me separar do meu povo",
diz o xeique, “mas eu também quero ter segurança e também
quero paz. Desde que o governo colocou a cerca, não houve nem um caso
de um atacante que tenha passado por Umm al-Fahm."
Podem ser ouvidas declarações semelhantes nas ruas em Umm al-Fahm
ou na vizinha Kafr Kara, mas as declarações do xeique Hashem causaram
um terremoto público. De sua cela de prisão, xeique Raed Salah,
o líder do Movimento Islâmico do Norte, apressou-se em publicar
um artigo que condena a cerca. No momento, xeique Hashem está por si mesmo,
só.
Jamal Jum'ah nunca ouviu que há árabes-israelenses que apóiam
a cerca. Quando ele ouvir as citações, terá dificuldades
em esconder sua decepção. "Penso que isso é em grande
parte por falta de informação", desculpa-se no princípio,
mas aí ele começa a ficar furioso.
"
Isto não está certo. Sinto-me ruim ao ouvir tais coisas. Este é um
ponto de vista egoísta. Onde está o ponto de vista do outro? Sabe
o que significa a cerca para os palestinos? Quanta destruição lhes
causa, como os oprime, toma sua terra e seus recursos? Estão sendo destruídas
as vidas dos palestinos. São os únicos que viverão num gueto.
Não creio que dormirá tranqüilamente depois que isto acontecer".
Publicado no jornal Haaretz, em 13/7/2004. www.haaretz.com/hasen/spages/449747.html
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