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Visão
Judaica - Edição N° 25 |
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:. Imagem
e semelhança .: |
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Por: Sergio Feldman
Com a chegada das Grandes Festas fica-nos o questionamento de
alguns de seus símbolos. Entendê-los para vivenciá-los;
refletir sobre seus significados, mas poder ampliar seu simbolismo
e adaptá-los a novos tempos. Vamos elaborar uma reflexão
sobre certos símbolos e sobre alguns dos personagens que
permeiam as leituras do Pentateuco (Torá) realizadas durante
o Ano Novo Judaico (Rosh Hashaná).
Um dos nomes pouco conhecidos da festa é Iom Arat Olam (dia
da criação do Mundo). A tradição judaica
apresenta esta data como o dia do “aniversário” do
Mundo. O primeiro símbolo e ao mesmo tempo questão
sobre o qual podemos refletir seria o porquê da Criação?
Ou seja, qual seria a “razão de ser” do Homem,
o motivo deste ter sido criado? Ao criar o ser humano, D-us afirmou
que o fazia “à sua imagem e semelhança”.
Qual seria o significado desta afirmação? Há diversas
possibilidades interpretativas. Direcionaremos nossa reflexão
através de uma destas: não seria uma semelhança
física pois D-us é um Ser Espiritual e não é dotado
de corpo ou aparência física, dentro das definições
judaicas. Maimônides afirma isso nos Treze Preceitos e não
há oposição a esta definição,
no seio do Judaísmo (“Ein lo demut haguf veein lo
Guf = não tem forma corpórea e nem corpo”,
numa tradução simplificada). Então seria o
quê? Nossa análise nos leva a crer que seria a capacidade
humana de se diferenciar do resto da natureza e transcender ao
reino animal. E como isto seria possível? A tradição
elabora um refinado simbolismo, pelo qual D-us coloca o ser humano
no Jardim de Éden, um vasto e elaborado horto ou bosque.
Ao Homem caberia cultivá-lo e cuidá-lo, mas estava
proibido de comer de duas de suas árvores: a árvore
do Conhecimento do Bem e do Mal e a árvore da Vida. Ao final
da narrativa o casal primordial (Adão e Eva) transgride
esta proibição, e os dois acabam por comer do fruto
da primeira árvore e adquirem uma nova percepção
do Mundo e dos valores morais. Descobrem a diferença entre
o Bem e o Mal, aprendem a discernir entre os valores éticos
e morais. De fato, acabam se humanizando e se tornando “a
imagem e semelhança” de D-us. Transcendem a sua condição
animal e passam a reinar sobre a Terra. Estão prontos para
descerem a este Mundo e começarem a sua difícil missão
de Redenção: criar o Jardim de Éden, na Terra.
Eu acho que não fizeram mais do que o que se esperava
deles.
O Cristianismo denomina esta narrativa (Gênesis, c. 2 e 3),
como o “pecado original”. Mas ao nosso entender, não
há pecado, apesar da desobediência. É semelhante
ao filho que sai da tutela dos pais e segue na vida, adquirindo
consciência da sua razão de ter sido gerado. A razão
de ser do Homem, numa visão judaica contemporânea
seria, ao nosso ver, humanizar-se: descobrir quem é, para
que veio ao Mundo, e aprender através da sua própria
experiência o que é certo ou errado (o fruto do conhecimento
do Bem e do Mal). Cadê o pecado? Que tal refletir sobre
isto?
Outro trecho lembrado e repetido nas leituras do 2º dia do
Ano Novo Judaico (Rosh Hashaná), é o sacrifício
de Isaque. Apesar de sempre ter visto em Abraão um modelo
de ser humano, repleto de valores judaicos e universais, sempre
me causou certo incomodo a atitude de Abraão. Ao ser testado
por D-us, não reluta em obedecê-lo. Abraão
tivera seu filho Isaque em idade muito avançada, (quase
100 anos). Tratava-se do único filho com sua esposa Sara.
Deveria ser o seu sucessor e continuador do pacto com D-us. A ordem
era: tome seu filho Isaque e realize um sacrifício no local
que te indicarei (Monte Moriah). Sendo apenas uma prova de obediência
e de fidelidade, D-us queria ver se Abraão lhe era fiel.
Os povos de Canaã faziam sacrifícios de primogênitos,
de acordo a alguns estudiosos. Não era, portanto um gesto
tresloucado e nem algo incomum. Mas Abraão foi detido por
um anjo, no exato momento em que ia consumar a imolação
de seu amado filho, no altar de sacrifício. No contexto
da época seria algo normal. Mas em meu entender, se trata
de um gesto incoerente com toda a tradição judaica.
Os rabinos trataram de dar interpretações simbólicas
para tal atitude. Abraão agiu em um gesto muito radical
de “fé cega, faca amolada”. O Judaísmo,
utilizou este caso, para proibir, a partir da entrega do Pentateuco
(Torá), todos os sacrifícios humanos. Em Rosh Hashaná,
rogo a meus leitores que leiam e debatam sobre o sacrifício
de nossos filhos. Se estamos sempre condenando e acusando a crescente
violência e o sacrifício de vidas humanas, devemos
condenar a miséria que está espalhada em nossa sociedade
brasileira e mundial, a fome e o sacrifício a que estão
condenados milhares de crianças, aqui e no mundo todo. Isso
deve ser feito no cotidiano, através do ano inteiro. E deve
ser passado para nossos filhos: a salvação de meu
filho, deve ser universalizada para todos os filhos de seres humanos
condenados à fome, à miséria e à violência.
Outra reflexão que incorpora as duas anteriores. Os nossos
filhos são imagem e semelhança do quê? Dos
nossos ancestrais? De valores que defendemos e lutamos? Ou são
valores hedonistas e materialistas?
Temos diante de nós uma geração muito diferente
de tudo que eram nossos avós e do que fomos. São
jovens saudáveis, bem alimentados e inteligentes. Destacam-se
nos estudos e depois nas suas profissões. As exceções
só fortalecem a regra. O que querer mais de nossos filhos?
Qualquer crítica seria radical e exagerada.
Se olharmos por uma ótica distinta, poderíamos ver
que estamos criando uma geração e já criamos
outras nas quais se sente uma crescente indiferença pelo
contexto social que nos cerca, de uma hibridez ideológica
e um hedonismo e consumismo irreprimíveis.
Os avós e bisavós vieram ao Brasil para fazer a América.
Pobres e repletos de sonhos e ideais: uns eram sionistas, outros
progressistas, uns eram religiosos e outros tradicionais. Pobres
materialmente, mas ricos espiritualmente. A solidariedade grupal
era acentuada. A ajuda ao próximo era parte de seu cotidiano.
Sua teoria era semelhante à sua prática judaica.
Isso foi mudando. A geração de transição
(ou as gerações de transição) assumiu
o papel importante de se integrar ao mundo que nos cercava, estudar
e se profissionalizar, e obter a igualdade dentro do mundo não
judeu. E realizou um mecanismo de “centrifugação”:
uns seguiram judeus, mas mudaram seus hábitos e costumes,
adaptando-os as novas necessidades; outros se distanciaram e se
assimilaram ao meio circundante. Tornaram-se híbridos e
sem identidade judaica e humanista. Seres incolores, sem luz e
sem “idishe neshume” (alma judaica). Alguns “deram
a volta” e retornaram às suas raízes.
Mas e os filhos? Estamos sacrificando-os no altar da sociedade
hedonista e consumista, tornando-os seres que não sabem “ser”,
mas apenas “ter”. Me explico: Os jovens raramente têm
ideais e pouquíssima ação social. Vivem iguais
a todos os jovens de classe média. Não há ideologia
entre eles: não são religiosos, nem esquerdistas,
nem assumem posições conservadoras, mas tampouco
são progressistas. Hoje não se quer “ser”,
apenas se quer ter. Viagens a Disneylândia; roupas de griffe
e aparelhos eletrônicos de ultima geração.
Adoram shopping, consumir e “ter”. Se entrarem na faculdade
devem ter um carro! Se vão para o colegial devem fazer intercâmbio
nos EUA. Necessidades de consumo que os distanciam do mundo real.
Necessidades de pessoas que não vão pensar em agir
e melhorar o mundo externo salvo como o veículo de sua ascensão
social e profissional.
E aonde entra o Judaísmo? Sobra algum espaço para praticá-lo?
Reserva-se algum espaço para rituais do ciclo da vida (Brit, Bar e Bat
Mitzvá, etc.). Por vezes a cerimônia perde em importância
para a festa. O “show deve continuar”: desfiles de roupas nas grandes
festas, bar e bat mitzvot ostentando e exibindo riqueza, desdém e incompreensão
pelos símbolos e pelos valores. Onde estão os valores éticos
de nossos avós? Aonde foram parar as ideologias multifacetadas de nossos
ancestrais, que debatiam tudo e que criticavam de maneiras diferentes, a tudo
e a todos. Nossos filhos são mais bem informados do que nossos avós,
mas lhes falta esta crítica. Falta-lhes a alma judaica (a idishe neshume).
Seria esta a “imagem e semelhança” de nossos valores materialistas?
O exemplo que me parece mais marcante é a distância que muitos
pais da comunidade têm da Escola Israelita. Ainda que esta ofereça
ensino de alto nível, não é dotada de um prédio
adornado com mármore e nem tem os computadores de última geração.
Ensina através da Oraá Muteemet (método de vanguarda,
criado e desenvolvido em Israel). Oferece a tradição judaica
e os valores éticos e universais do Judaísmo. Como a Escola enfatiza
o conteúdo e os valores, não interessa a certos pais mais interessados
nas aparências e na edificação. Trocar a EIBSG pelas aparências é trocar
uma herança milenar, pelo direito de não “ser”, pela
centrifugação e pulverização social. Terrível
futilidade e vazio de espírito. Estes pais deviam aproveitar as festas
para refletir na busca de raízes e de identidade. Veja que nossos filhos
são como pequenas árvores: se irrigarmos com água (lar)
e lhe oferecermos luz (afeto), serão fortes e garbosas, pois a terra é fértil.
A terra é a nossa tradição. Nela os brotos terão
identidade e não serão seres “sem cor e sem luz”.
Se os criarmos em estufas, não terão relação com
nenhuma terra (tradição e identidade) e ao serem replantadas
no mundo não terão sua identidade clara. Pessoas sem identidade
são seres híbridos, repletos de vazios e crises existenciais.
Reflita: é isso que quer criar?
E nossos filhos? Iríamos sacrificá-los no altar para D-us? Nunca.
Mas, de maneira simbólica, estamos sacrificando-os de certa forma, para ídolos
(materialismo seria uma maneira de ser idolatra!). O segundo mandamento diz:
Não terás outros deuses diante de Mim e não farás
imagens. O materialismo que ora substitui a espiritualidade de nossos avós,
não seria uma maneira moderna de ser idólatra. As Grandes Festas
oferecem espaço para novas reflexões e questionamentos. Devemos
repensar se em nosso contexto não estamos sacrificando nossos filhos,
suprindo-os de bens e valores materiais e hedonistas e privando-os de valores éticos
e morais, do Judaísmo e do Humanismo. Aproveite o Ano Novo para repensar
seus valores e sua relação com seus filhos.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e
doutorando em História pela UFPR.
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