Mudar a visão do conflito entre Israel e Palestina no
Brasil, com a distribuição de exemplares do livro “Mitos
e fatos — a verdade sobre o conflito árabe-israelense”,
foi a missão a que se propôs o autor da obra, Mitchell
G. Bard, que esteve em São Paulo para o lançamento
do livro em português. “Israel sofre ataques da opinião
pública mundial baseados em informações
distorcidas”, disse ele na quarta-feira 11/8, em entrevista
coletiva à imprensa. Ao jornal Visão Judaica, entretanto,
ele concedeu, também em São Paulo uma entrevista
exclusiva, no sábado 7/8, logo após o término
do shabat, num encontro ao qual esteve presente também
Jairo Fridlin, da Sêfer, que editou a obra em português.
Mestre em Políticas Públicas pela Universidade
de Berkeley e Ph.D em Ciências Políticas pela UCLA,
Bard é diretor executivo da Organização
de Cooperação EUA–Israel e analista político.
Por três anos editou o informativo Near East Report (NER),
que procura corrigir as distorções sobre o Oriente
Médio desde 1957. As análises do NER, do editor
Isaiah Si Kenen (1905-1988) – deram origem ao livro, que
agora ganhou informações e observações
de Bard. Ele atuou como jornalista no Oriente Médio e
escreveu outros 16 livros. Para o jornalista brasileiro Ricardo
Viveiros, que assina o prefácio de “Mitos e fatos”,
apesar de Bard defender Israel, o livro reúne informações
isentas e desvenda a história do Oriente Médio.
Visão Judaica — Como surgiu a idéia do livro “Mitos
e Fatos”?
Mitchell Bard — O livro, na realidade, é bem antigo,
tem mais de 40 anos. Era uma seção de uma newsletter
publicada pelo American Israel Public Affairs Committe — Aipac — nos
Estados Unidos. A última edição foi em 1992
e após os Acordos de Oslo, não foi mais publicada.
Pensava-se que haveria paz e não seria mais necessário
falar a respeito de mitos e fatos. Mas, depois, tornou-se evidente
que Oslo foi um fracasso. Surgiu então uma grande demanda
por informações para responder aos mitos que nos
EUA as pessoas estavam ouvindo sobre o conflito. Assumi o projeto
e comecei a publicá-lo novamente. Era óbvio que
problema estava se espalhando pelo mundo. O conflito não
era entendido, as pessoas não tinham conhecimento suficiente
da história e os que apoiavam os árabes estavam
perpetuando as mentiras. Por isso, tentamos traduzir o livro
no maior número possível de línguas e já há edições
em francês, alemão, espanhol, sueco e português.
Estamos fazendo a tradução para o russo e procurando
quem o faça para o hebraico e também para o árabe.
O livro também está na internet, num dos maiores
websites do mundo (www.jewishvirtuallibrary.org). A informação é tão
importante que está disponibilizada gratuitamente em inglês
[e em português] a quem estiver interessado. Como surgem
sempre novos mitos, pode-se fazer atualizações
on-line constantemente, o que não acontece com o livro
impresso. Semanalmente encaminhamos e-mails com um novo mito
e fato.
VJ — De fato, o problema da informação é muito
sério, mesmo no Brasil e especialmente na mídia.
Visão Judaica surgiu há quase três anos,
exatamente por este motivo, e hoje grande de seus leitores é de
não-judeus.
MB – Isso é muito importante (Bard mostra-se surpreso
ao saber sobre os leitores Visão Judaica). Nos Estados
Unidos, a maioria dos jornais judaicos pertence às federações
judaicas e são mantidos pelas comunidades locais.
VJ — Como vê a opinião pública mundial
sobre Israel. Até alguns anos, dizia-se que não
havia um trabalho de relações públicas e
hoje, com tudo o que é feito, há algum resultado
desse trabalho?
MB — Nos EUA acredita-se que Israel tem uma terrível
hasbará (relações públicas). É algo
complicado. Uma coisa é: Será que está surtindo
efeito? Nos EUA há uma percepção errônea
de que os americanos costumavam gostar de Israel. Houve uma época áurea,
após a Guerra dos Seis Dias, mas o conflito com os palestinos,
a intifada e os preconceitos da mídia desde 1967, levaram
as pessoas a uma visão diferente em relação
a Israel. Como cientista político, estou interessado no
que posso mensurar e não somente em percepções.
Um fato interessante é que em 1967, quando Israel era
popular, uma pesquisa de opinião mostrou o apoio de 56%
dos americanos. A pesquisa mais recente, de fevereiro de 2004,
mostra que esse índice ficou em 55%. Se antes eles apoiavam
com 56% e agora dizem odiar Israel, a pesquisa mostra aprovação
de 55% da população... Como é que pode ser
tão ruim? Há uma percepção geral
errada de que as coisas pioraram, mas não acredito nisso,
pois os dados não confirmam essa piora.
Também é verdade que os americanos nunca gostaram
de Israel já 56% não é tão bom assim. É praticamente
metade da população. Se analisarmos todas as pesquisas
feitas (elas estão no site), a média de aprovação
das mais de 100 realizadas desde 1967 fica abaixo dos 50%. O
que é importante em termos de influência é o
fato de que os americanos podem não gostar de Israel,
no entanto, eles desaprovam os árabes. Essas mesmas pesquisas
mostram que o índice de apoio a eles chega a 14%. E eu
digo: não há um percentual menor de aprovação
a Israel, uma vez que os americanos nunca manifestaram seu apoio
por completo. Este é, portanto, um aspecto relevante.
O ponto principal é o que acontece com a atual política,
pois se acredita em percepções de que a situação
está terrível para Israel. A política americana
com relação a Israel está melhor hoje do
que esteve em qualquer tempo. Em 1967 não era má,
mas, como se sabe, os EUA realizaram um embargo de armas durante
a Guerra dos Seis Dias e [o então presidente Lyndon] Johnson
era contrário a participação de israelense
na guerra e havia problemas.
Atualmente, a quase totalidade do Congresso americano demonstra
seu apoio. O número de congressistas críticos a
Israel pode ser contado em uma mão. As coisas estão
melhores, mas sempre estamos preocupados, pensando que podem
piorar. E é verdade, pois há problemas antigos
nos EUA, com os quais ainda não lidamos. Por exemplo,
há várias questões significativas de alterações
demográficas, como é o caso dos hispânicos
cujo crescimento populacional fará com que sejam mais
representativos do que os afro-americanos. Hoje, há poucos
representantes hispânicos no Congresso, mas com as mudanças
acontecendo, esse número crescerá e eles, assim
como outras minorias, se farão presentes. A comunidade
judaica realizou um grande trabalho junto a algumas dessas comunidades,
principalmente junto à comunidade negra, mas ignorou a
hispânica. Há mais de 10 anos, escrevi um artigo,
juntamente com minha esposa, na revista “Hadassa”,
onde analisávamos a relação judaico-hispânica,
citando que os hispânicos seriam muito importantes politicamente
e ninguém estava fazendo qualquer trabalho junto delas.
Escrevemos isso há mais de uma década e até hoje
pouco foi feito nesse sentido. Nos próximos 20 ou 30 anos,
os hispânicos terão maior influência no Congresso
e se não mantivermos um relacionamento com eles, isso
poderá ser um problema.
VJ — Na Europa, em 1967, a imagem de Israel era boa e nos
dias atuais está muito ruim. O senhor poderia comentar
esta situação?
MB — Não acho que a Europa tenha apoiado Israel.
A Europa nunca apoiou Israel. Na realidade, durante a guerra
de 67, o principal fornecedor de armas foi a França e
não os EUA e nosso amigo Giscard d’Estaing também
fez um embargo e depois disso os franceses nunca mais forneceram
armas. Após a guerra, logo depois dos EUA terem recomeçado
a enviar armamento para Israel — uma das mudanças
mais significativas na política ocorreu em 1968 quando
venderam os primeiros aviões supersônicos — o
que alterou o relacionamento entre ambos e, desde então,
tornaram-se o seu principal fornecedor. Os britânicos até hoje
não vendem armas a Israel e os franceses também
não. Os alemães são os únicos que
venderam armas. A maior parte disso foi em razão da culpa
pelo Holocausto. Os europeus nunca manifestaram grande apoio
a Israel e no decurso dos anos ficaram piores. Acredito que os
europeus, quando se trata do Oriente Médio, não
têm valores. Seus únicos interesses são de
ordem econômica e comercial — fornecem tecnologia
nuclear ao Irã e Iraque, vendem qualquer coisa para quem
quer que seja. Eles têm pouco interesse em se relacionar
com Israel porque aceitaram o argumento de que isso iria afetar
seu comércio com os árabes. Para os EUA, os interesses
econômicos e comerciais também são muito
importantes, e este é o motivo pelo qual o país
tenta atuar de forma balanceada, para não irritar os árabes
em demasia, enquanto apóia Israel. Mas, os EUA também
têm outros valores. Acreditam na democracia e apóiam
a única democracia do Oriente Médio, que é Israel.
Temos um relacionamento especial, queremos sua sobrevivência
e prosperidade. Já os europeus não têm essa
opinião.
VJ — Sharon fez um convite aos judeus franceses para que
imigrassem a Israel. Que futuro têm os judeus da França
com o enorme crescimento do anti-semitismo?
MB — Os israelenses convidam todos a fazer aliá (imigração).
Quando o presidente de Israel vem aos EUA fala aos judeus da
América sobre aliá. O caso da França é especial
por causa da situação neste momento. Como não
vivo na França, fica difícil comentar. Há poucos
meses encontrei judeus franceses que foram aos EUA para conhecer
como atuamos na atividade política. Eles disseram que
não viam futuro para os judeus na França e que
acreditavam que o crescente anti-semitismo está ligado às
mudanças políticas ocorridas. Atualmente, entre
10 e 12% da população é árabe, então,
a sua influência política, além dos atos
de anti-semitismo, é crescente. Essa questão deixou-os
muito preocupados com o futuro. A situação está muito
ruim na França. Quase todas as semanas há algum
incidente, atos de vandalismo e agressão física. É muito
sério. Os judeus franceses também disseram que
o governo tentou tomar medidas para combater o anti-semitismo,
mas sua política em relação ao Oriente Médio
não é favorável a Israel.
VJ — Voltando ao tema do livro, temos conhecimento dos
mitos, mas impressiona a sua quantidade. Como é possível
criar tantas distorções?
MB — Como já disse, o livro é antigo e quando
faço minhas palestras, sempre há quem diga “tenho
a edição de 1985 de ‘Mitos e Fatos’ e
o livro não era tão volumoso. O que aconteceu?” Eu
respondo que se os árabes parassem de criar mitos, não
necessitaríamos novos fatos e nem o livro seria tão
extenso. Hoje, quando eu estava verificando meus e-mails, alguém
me mandou esta mensagem: “Sou nascido em Israel e ouvi
que os israelenses estão usando armas químicas
contra os palestinos, é verdade?” Há histórias
em que o representante palestino na ONU disse que os israelenses
estavam infectando os palestinos com o vírus da Aids,
que aviões israelenses estavam jogando doces envenenados
para as crianças sobre Gaza. A história foi mudada
depois, alteraram a versão, citando que brinquedos estavam
sendo jogados de aviões, mas que continham armadilhas
explosivas. Novas mentiras, que não se imagina que alguém
possa acreditar, estão sendo constantemente criadas. Mas
verificando, encontraremos pelo mundo não só palestinos
que acreditem nelas.
Uma das mentiras mais ultrajantes, que foi inclusive matéria
do programa “Sixty Minutes”, refere-se ao que aconteceu
com o World Trade Center, em Nova York, que tinha sido obra do
Mossad. Disseram que havia milhares de israelenses que lá trabalhavam
e que naquele dia não compareceram ao local. Eles estão
constantemente inventando coisas e uma das razões para
isso é que descobriram que as mentiras têm freqüentemente
curso e algumas delas são aproveitadas pela imprensa.
Exemplo recente foi o “massacre de Jenin”. Saeb Erekat
disse que 500 palestinos haviam sido massacrados pelos israelenses
e todos os meios noticiosos repercutiram a história, que
uma vez divulgada torna-se difícil, ou melhor, praticamente
impossível de ser anulada, mesmo que tenha sido comprovado
pelos próprios palestinos de que se tratava de uma mentira.
O relatório deles indicou cerca de 50 mortos e que estes,
na sua grande maioria, eram terroristas. O dano, porém,
já estava feito. Sempre falei que os palestinos tendem
a acrescentar um ou dois zeros no número de vítimas.
Assim, se 10 pessoas morrerem, este número tanto pode
subir para 100 como para 1.000. Foi o que aconteceu na guerra
do Líbano com o irmão de Yasser Arafat, que inventou
a quantidade de mortos e desabrigados, número que foi
repetido em todos os lugares. Às vezes, falamos sobre
o que acontecerá com Arafat, e eu digo que ele deve permanecer
em frente às câmeras de TV sempre. Caso contrário,
quando morrer, Israel será considerado culpado. Dirão: “Eles
deram um jeito de colocar alguma coisa na comida dele, levando-o à morte”.
VJ — Foi justamente o episódio de Jenin que motivou
a criação do jornal Visão Judaica...
MB — Nos EUA, nessa época, nem sei dizer quantas
pessoas me ligaram dizendo que era preciso fazer algo. Cada uma
delas queria iniciar uma organização de hasbará.
Grande parte desses grupos não conseguiu realizar nada
ou era composta apenas por uma pessoa. Mas algumas funcionaram
como, por exemplo, uma senhora — com quem trabalhei — e
que sentiu a necessidade de uma ação de relações
públicas. Ela tirou do próprio bolso 50 mil dólares
e começou a fazer anúncios publicitários
em canais televisão, o que nunca, segundo o que sei, havia
sido feito. Ela promoveu Israel através da publicidade
ou de um tipo de propaganda política. Os árabes
já haviam feito isso antes. O grupo que ela integra está agora
trabalhando em algo que também não havia sido feito
antes, embora pareça óbvio, que é a realização
de pesquisas de opinião pública para saber o que
os americanos realmente pensam e tentar compreender quais são
os argumentos mais persuasivos a serem aplicados. O que mudou
em “Mitos e Fatos” nos últimos anos é que
tento escrever a resposta a um mito de forma mais persuasiva.
Há certas maneiras de se apresentar a informação
que têm maior chance de influenciar àqueles que
ainda não concordam conosco. Assim, aprendemos com essas
pesquisas a utilizar certos argumentos e estratégias.
Por exemplo, nos EUA gastava-se muito tempo com Yasser Arafat — ele é um
terrorista, uma pessoa má, a raiz de todos os males. Descobrimos
com as pesquisas de opinião pública que desperdiçávamos
nosso tempo porque os americanos já sabiam disso e não
era preciso convencê-los disso. O que teve bom resultado
foi comparar a liderança palestina com o rei Hussein ou
Anwar Sadat, pois quando existem líderes corajosos do
lado árabe, preparados para a paz, Israel respondeu e
trocou territórios por paz. Quando os palestinos tiverem
um líder com esta visão, haverá paz. Outra
comparação que fazemos: os valores americanos aos
de Israel, pois ambos são democracias, com liberdade de
expressão; já os palestinos não acreditam
em liberdade de expressão, de imprensa ou de religião,
nos direitos da mulheres e dos homossexuais.
VJ — Arafat nunca quis a paz e agora ele está começando
a sofrer uma revolta do seu próprio povo. Além
disso, está doente e se ele cair, haverá interlocutores
para a paz com Israel? O senhor acha que um dia vamos chegar à paz?
MB — Para entender a situação política
palestina, é mais fácil compará-la a um
filme de Hollywood, The Godfather (O Poderoso Chefão).
Se entendermos que Yasser Arafat é o chefão, podemos
entender tudo sobre a situação política.
Ele controla tudo. Por que ninguém o desafia, dizendo
que ele está errado, que é preciso fazer a paz
com Israel? Porque acaba morto. Não é uma democracia, é uma
sociedade engajada na violência, uma espécie de
máfia. A liderança não tem como base o equilíbrio,
mas sim a força. Por que Yasser Arafat é líder
do povo palestino? Será pelo carisma? Não, é porque
ele tem mais munição. Sabemos que ele roubou 900
milhões de dólares. Para quê? Não
foi para viver num palácio, mas para lhe dar um mérito.
Há muitos ditadores que embolsam dinheiro e moram em palácios,
como foi com Saddam. Mas Arafat com esse dinheiro paga para que
o apóiem e assim ele mantém seu poder. Creio que,
apesar do que se lê, ele ainda mantém o poder. Quem
o substituirá? Ninguém pode fazer a paz enquanto
estiver vivo. Ele está com ou completará 75 anos,
mas com a nossa sorte é capaz dele viver 100 anos. Quando
morrer, a análise de quem o substituirá é algo
bem interessante.
Há muitos artigos em inglês, e provavelmente no
Brasil também, sobre quem sucederá Arafat e eles
dizem exatamente a mesma coisa, apresentam a mesma lista, e as
pessoas que não estão nesta lista vão à televisão
falar de como querem ser moderadas e trabalhar pela paz com Israel.
Os que estão incluídos na lista são chefes
da segurança da Margem Ocidental, de Gaza, chefes dos
serviços de informações da Margem Ocidental.
Quando ele se for, a pessoa que o sucederá não
será uma Hannan Ashrawi ou alguém assim, mas um
dos chefes que tiver mais balas. Um fato interessante surgido
nestes últimos meses é que em Gaza, quando das
operações militares para fechar os túneis
por onde os palestinos contrabandeavam armas para lutar contra
Israel, descobriu-se que grande parte do armamento ia para os
chefes de segurança da Margem Ocidental e de Gaza, que
se preparam para uma guerra civil no caso da morte de Arafat.
Não vejo um líder palestino que seja diferente.
Há pessoas como [Mohammed] Dahlan, que é um desses
chefes que os israelenses dizem ser diferente, mas é difícil.
O que considero bom em relação à cerca de
segurança é que ela força os palestinos
a encararem a realidade bem mais cedo. Com a sua construção,
há um incentivo maior para que mantenham conversações
com os israelenses na tentativa de ter parte do território
de volta. O mesmo acontece com os assentamentos. Tenho uma visão
bem diferente sobre eles, pois não creio que sejam um
obstáculo para a paz, pelo contrário, são
um incentivo. Devemos refletir sobre o que levou os palestinos
a Oslo, uma vez que não queriam a paz e nem desistir de
nada. Uma das principais razões para a presença
deles lá é que eles despertaram por volta de 1993
e se viram cercados de judeus, e que precisavam fazer alguma
coisa para impedir o crescimento dos assentamentos e a perda
do espaço num Estado palestino. Esta foi a principal razão
pela qual foram a Oslo. E o mesmo acontece agora com a cerca.
Eles ficaram adiando, adiando e, finalmente, quando ela estava
construída se defrontaram com a realidade: “esperamos
e veja o que aconteceu conosco, é melhor fazer alguma
coisa.”
VJ – Uma decisão como a da ONU, que tem dezenas
de países árabes e do Terceiro Mundo, já era
prevista, mas a da Corte de Haia, da qual se esperava uma linha
decisória correta, mesmo diante de estatísticas
que mostram ter caído a quase zero o número de
mortes em atentados a bomba, nem assim foi favorável a
Israel na questão da cerca. Realmente é uma decisão
muito desalentadora.
MB — A decisão da Corte foi uma paródia,
quanto mais as pessoas viram, mais elas se deram conta de que
não se importam com Israel. O que eles falaram foi que
nenhum país tem o direito de se defender a não
ser que seja atacado por um outro Estado. Assim, se o Brasil
algum dia for atacado por terroristas seria ilegal ir atrás
desses terroristas. A defesa só seria permitida se o ataque
fosse do Uruguai ou da Argentina. Com os terroristas não
se pode revidar. É óbvio que para os Estados Unidos
isto é muito sério. Basicamente diz que não
se pode ir atrás da Al Qaeda. A ONU há muito cessou
de ter qualquer postura moral e está é uma das
razões pelas quais o apoio americano é tão
vital à sobrevivência de Israel. Porque vimos que
os europeus acompanharam as críticas das Nações
Unidas a respeito da cerca e se fosse pela Europa, provavelmente,
o Conselho de Segurança imporia sanções
a Israel, como o fez para África do Sul, Iraque e o Sudão.
Foram os Estados Unidos que impediram essa situação,
mostrando que é verdade que o mundo dá pouco valor às
vidas dos judeus, o que é muito inquietante.
VJ – Por que a Jordânia optou por retomar as discussões
políticas?
MB — É importante que as pessoas entendam que a
Jordânia é a Palestina histórica, geográfica
e politicamente. Mas atualmente a Jordânia não está interessada
em ser o Estado Palestino. Ao contrário, durante o reinado
hashemita fez de tudo para não ser um estado palestino.
E os palestinos, pelo menos na sua maioria, queriam que seu estado
começasse na Margem Ocidental e provavelmente subisse
para o Norte. Um fato que teve pouca publicidade é que
os palestinos tentaram fugir para a Jordânia nos dois últimos
anos, da intifada, e a Jordânia não os deixou entrar.
De fato, todo ano, por ocasião da peregrinação
dos muçulmanos a Meca, os palestinos precisam atravessar
aquele país e os jordanianos se certificam de que eles
assim o fazem. Os jordanianos não querem nada com os palestinos.
Os Estados Unidos que sempre tiveram relações amistosas
com a Jordânia não a pressionaram a aceitá-los.
Em um artigo que escrevi no “Commentary Magazine”,
uma revista considerada muito conservadora nos Estados Unidos,
afirmei que Israel deveria ter se retirado unilateralmente em
1980, e David Bar-Ilan, acredito que na época era o editor
do “Jerusalem Post”, e depois se tornou membro do
governo, escreveu um artigo que dizia o contrário, que
Israel deveria permanecer e que a Jordânia deveria ser
a Palestina.