Visão Judaica - Edição N° 27
:. A ONU está finalmente pronta para tratar com seriedade o anti-semitismo? .:

 

Por: Anne Bayefsky

Eu sou grata pela oportunidade de falar a vocês nesta primeira conferência da ONU sobre o anti-semitismo, que acontece seis décadas depois da criação desta instituição. Meus agradecimentos aos organizadores da ONU, particularmente a Shashi Tharoor [o sub-secretário geral de comunicações e informação pública], pela iniciativa, e ao secretário-geral, por sua disposição ao engajamento.
Este encontro ocorre num momento em que o relacionamento entre os judeus e a ONU encontra-se mais abalado que nunca. A ONU criou raízes nas cinzas do povo judeu e, de acordo com seu estatuto, deveria florescer baseando-se num compromisso com a tolerância e igualdade entre todos os homens e mulheres, e com todas as nações, grandes e pequenas. Hoje, no entanto, a ONU estabelece, para aqueles que protagonizaram o papel de vítimas dos nazistas, um status político de nazistas do século XXI. A ONU tornou-se o principal perpetrador do anti-semitismo - intolerância e desigualdade para com o povo judeu e seu estado.
Não apenas vários membros da ONU, [que são] os maiores responsáveis por esta situação, entregaram-se ao Judenrein de seus próprios países: eles também têm
prosperado em expurgar quase completamente do rol das causas da ONU qualquer preocupação quanto à judeofobia. Desde 1965, quando o anti-semitismo foi deliberadamente excluído de um tratado sobre discriminação racial, até o último outono, quando uma proposta de resolução sobre o anti-semitismo endereçada à Assembléia Geral foi revogada depois que a Irlanda capitulou à oposição árabe e muçulmana, alusões ao anti-semitismo vêm continuamente enferrujando até à paralisação o multilateralismo comandado pela ONU.
Nunca houve uma resolução da ONU especificamente sobre o anti-semitismo, ou um único relatório endereçado aos membros da ONU que se dedicasse à questão da discriminação contra os judeus, em contraste a resoluções anuais e relatórios focalizando a difamação do Islã e a discriminação contra muçulmanos e árabes.
Em lugar disso, houve Durban - a Conferência Mundial da ONU em 2001 "Contra o Racismo", que transformou-se em solo adubado e palco de bajulações para os
anti-semitas. Quando terminou [a Conferência], os representantes e estados-membros transformaram a Declaração de Durban em peça central da pauta anti-racista da ONU - permitindo que as resoluções de reforço à [agenda de] Durban se tornassem um contínuo campo de batalha sobre o interesse da ONU para com o anti-semitismo.
Não é incomum o debate público [ocorrido] no topo da corporação da ONU para os direitos humanos – a Comissão de Direitos Humanos -, no qual em abril último o embaixador do Paquistão, falando em nome de 56 membros da Organização da Conferência Islâmica, contestou desavergonhadamente que o anti-semitismo seja sobre os judeus.
Para os judeus, porém, a ignorância não é uma opção. O anti-semitismo significa intolerância e discriminação para com os judeus - tanto individual quanto coletivamente. Refere-se tanto aos direitos humanos individuais quanto ao direito coletivo à autodeterminação - concretizado no Estado de Israel.
O que significa discriminação contra o Estado judeu? Significa recusar apenas a Israel a participação nas cruciais sessões de negociação de grupos regionais que acontecem diariamente durante os encontros da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Significa dedicar a Israel 6 das 10 sessões extraordinárias da Assembléia Geral. Significa transformar a 10ª sessão extraordinária num tribunal permanente - e que até agora foi reconvocado 12 vezes desde 1997. Contrastando com isso, nenhuma assembléia extraordinária jamais foi convocada para tratar do genocídio em Ruanda, que estima-se ter matado um milhão de pessoas, ou da limpeza étnica de dezenas de milhares [de pessoas] na extinta Iugoslávia, ou da morte de milhões [de pessoas] durante as últimas duas décadas de atrocidades no Sudão. Isto é discriminação.
Os registros do secretariado são mais do mesmo. Em novembro de 2003, o secretário-geral Kofi Annan despachou um relatório sobre a cerca de segurança de Israel, detalhando os supostos danos [por ela] causados aos palestinos, sem descrever um só ato terrorista contra israelenses [dentre os] que precederam a construção da cerca. Recentemente, o secretário-geral condenou Israel fortemente por destruir casas ao sul de Gaza, sem mencionar os túneis de contrabando de armas que existem abaixo delas.
Quando Israel alvejou com sucesso o terrorista Abdel Aziz Rantissi, do Hamas, sem nenhuma baixa civil, o secretário-geral denunciou Israel por uma execução "extrajudicial". Mas quando confrontado com um relatório de 2004 da correspondente especial da ONU para execuções extrajudiciais, que detalhava o assassinato de mais de 3.000 civis brasileiros executados a queima-roupa pela polícia, o Sr. Annan escolheu o silêncio. Isto é discriminação.
Na ONU, o discurso dos direitos humanos é seqüestrado não apenas para discriminar como também para demonizar os judeus. Mais de um quarto das resoluções adotadas pela Comissão durante [os últimos] 40 anos, condenando violações dos direitos humanos por um estado, foram direcionadas a Israel. Mas nunca houve uma única resolução sobre a repressão aos direitos civis e políticos de 1,3 bilhão de pessoas na China, ou sobre o milhão de trabalhadoras [mulheres] migrantes na Arábia Saudita que são mantidas virtualmente como escravas, ou sobre o virulento racismo que levou 600.000 pessoas à beira da inanição no Zimbábue. Todo ano, as missões da ONU são obrigadas a produzir pelo menos 25 relatórios sobre supostas violações dos direitos humanos perpetradas por Israel, mas nem sequer um sobre o sistema jurídico assassino do Irã, que sentencia punições como crucificação, apedrejamento e amputação cruzada de mão direita e pé esquerdo. Isto não é uma crítica legítima de estados com registros iguais ou piores sobre direitos humanos. Isto é demonização do estado judeu.
Assim como os israelenses são demonizados na ONU, os palestinos e sua causa são deificados. Todos os anos, a ONU distingue o dia 29 de novembro como o Dia Internacional da Solidariedade com o Povo Palestino - o dia em que a ONU oficializou a partilha do mandato britânico da Palestina e que os árabes freqüentemente chamam de o começo da al nakba, ou a "catástrofe" da criação do Estado de Israel. Em 2002, o aniversário da eleição que os sobreviventes dos campos de concentração realizaram foi descrito pelo secretário-geral Annan como "um dia de luto e um dia de desgraça".
Em 2003, os representantes de mais de 100 estados-membros ergueram-se junto com o secretário-geral, diante de um mapa pré-datando o Estado de Israel, para um minuto de silêncio "por aqueles que deram suas vidas pelo povo palestino" – o que inclui os homens-bomba suicidas. Em atitude semelhante, o correspondente da ONU John Dugard descreveu os terroristas palestinos como "valentes" e seus esforços como caracterizados por "determinação, ousadia e sucesso". Resolução de uma comissão vem legitimando durante os últimos três anos o uso por parte dos palestinos de "todos os meios disponíveis, inclusive luta armada" - uma indulgência que jamais seria aplicada às reivindicações de autodeterminação por parte dos chechenos ou dos bascos.
Ainda que a autodeterminação palestina seja igualmente justificada, a relação entre a demonização dos israelenses e a santificação dos palestinos deixa claro que o assunto principal não é a chamada causa do sofrimento palestino. Pois não existem resoluções da ONU condenando a prática de encorajar crianças palestinas a glorificarem e imitarem os homens-bomba suicidas, ou o uso da população palestina como escudos humanos, ou a recusa por parte da vasta maioria dos estados árabes em integrar os refugiados palestinos às suas sociedades e oferecer a eles os benefícios da cidadania.
Os palestinos são celebrados na ONU porque são o antídoto concebido contra o que o correspondente da ONU Lakhdar Brahimi chamou o grande veneno do Oriente Médio - a existência e a capacidade de determinação do Estado judeu.
Claro, o anti-semitismo toma outras formas na ONU. Ao longo da última década na Comissão [de Direitos Humanos], a Síria anunciou que yeshivás treinavam rabinos para incitar seus alunos ao ódio racista. Representantes palestinos afirmavam que israelenses só podem celebrar com alegria feriados religiosos como o Yom Kippur vertendo sangue palestino, e acusavam Israel de injetar sangue HIV-positivo em 300 crianças palestinas.
O anti-semitismo conduzido pela ONU vai da demonização dos judeus à desqualificação de sua qualidade de vítima: recusa-se a reconhecer o sofrimento judeu em virtude de sua identidade étnica e nacional. Em 2003, uma resolução da Assembléia Geral no interesse do bem-estar das crianças israelenses fracassou (ainda que uma outra sobre crianças palestinas tenha sido facilmente aprovada) porque ela se mostrou impossível de obter o apoio por apresentar a palavra "israelenses" antes da palavra "crianças". O mandato da ONU ao correspondente especial para os "territórios palestinos", delegado há mais de uma década, deve investigar apenas "violações de Israel da ... lei internacional", e não considerar violações de direitos humanos por palestinos em Israel.
Isto segue a lógica da ONU de que não-vítimas jamais retaliam. Uma após outra, todas as reações israelenses ao terrorismo são denunciadas pelo secretário-geral e pelos estados-membros como ilegais. Mas eliminar membros da estrutura de comando e controle de uma organização terrorista, quando não há uso desproporcional de força e a detenção é impossível, não é ilegal. Casas utilizadas por terroristas no meio de um combate são alvos militares legítimos. Uma separação não-violenta e temporária de partes conflitantes numa disputa territorial, por meio de uma cerca de segurança que é susceptível de minimizar sofrimentos, é uma resposta legítima às obrigações legais internacionais de Israel de proteger seus cidadãos de crimes contra a humanidade. Com efeito, a ONU age no sentido de prender às costas dos alvos judeus suas próprias armas enquanto os terroristas fazem a mira.
A imagem predileta da ONU para este fenômeno é a do círculo vicioso de violência. Alega-se que o círculo deve ser rompido - toda vez que os israelenses levantam a mão [para atacar]. Mas assim como o símbolo do círculo vicioso é escolhido porque não tem um começo, é [também] devastador para a causa da paz porque ele não apresenta a possibilidade de um fim. O Tribunal de Nuremberg ensinou-nos que crimes não são cometidos por entidades abstratas.
Os perpetradores do anti-semitismo hoje são os pregadores das mesquitas que exortam seus seguidores a explodirem judeus. São os autores dos livros didáticos da Autoridade Nacional Palestina que ensinam uma nova geração a odiar os judeus e a admirar seus assassinos. São os produtores de televisão e benfeitores oficiais sob regimes autoritários como os da Síria e Egito, que elaboram e distribuem programação que representa os judeus como conspiradores mundiais sanguinários.
Ouçam, entretanto, as palavras do secretário-geral em resposta a dois ataques suicidas que aconteceram em Jerusalém neste ano, matando 19 e ferindo 110 [pessoas]: "Mais uma vez, a violência e o terrorismo ceifaram vidas inocentes no Oriente Médio. Mais uma vez, eu condeno aqueles que recorrem a tais métodos".
" O secretário-geral condena os ataques suicidas de domingo em Jerusalém. O ataque deliberado de civis é um crime abominável e não pode ser justificado por qualquer causa". Recusar-se a nomear os perpetradores, Sr. Secretário-Geral, terrorismo 'Teflon', é dar "luz verde" para novos golpes.
Talvez mais do que qualquer outra, a grande mentira que alimenta o anti-semitismo hoje é o argumento promovido pela ONU de que a causa última do conflito árabe-israelense é a ocupação das terras palestinas. De acordo com o revisionismo da ONU, a ocupação materializou-se do nada. Na realidade, [o Estado de] Israel ocupa terras tomadas numa guerra na qual foi forçado a entrar, por vizinhos que objetivavam a sua destruição. É um estado de ocupação que os israelenses mesmos têm repetidamente almejado terminar através de negociações sobre fronteiras definitivas. É um estado no qual quaisquer abusos são monitorados de perto pelo poder judiciário independente de Israel. Mas, em
ú ltima instância, é uma situação cuja responsabilidade cabe aos que, dentre os palestinos e seus confrades árabes e muçulmanos - que tomaram a população civil palestina como refém de suas ambições violentas e anti-semitas -, rejeitam a autodeterminação judaica.
Há aqueles que ainda denunciariam a existência de anti-semitismo na ONU ao apontarem uma série de motivações [presentes] nos corredores da instituição, incluindo interesses comerciais, políticas regionais, prevenção contra o escrutínio de violações aos direitos humanos mais perto de casa, ou fortalecimento de carreiras [profissionais] individuais. Os atores e apoiadores da ONU continuam quase uniformemente negando a natureza da corrida patogênica que vem ocorrendo por entre aqueles saguões. Eles ignoram a infecção e aplaudem o hospedeiro, esquecendo-se de que o câncer que mata o organismo levará consigo o que há de bom e de mau.
A distribuição relativa de vaidade, covardia, oportunismo e anti-semitismo, entretanto, importa pouco a Noam e Matan Ohayon, de 4 e 5 anos de idade, mortas a tiros em sua casa no norte de Israel, por balas que atravessaram o corpo de sua mãe enquanto ela tentava protegê-las de um atirador das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, de Yasser Arafat. As terríveis conseqüências dessa mescla de motivações mobilizadas e autorizadas dentro dos gabinetes da ONU seguem sendo as mesmas.
A inabilidade da ONU em combater a corrupção de sua pauta condena o sucesso dessa instituição como agente essencial de igualdade, ou dignidade, ou democratização.
Esta conferência pode servir de um "ponto de virada". Nós só vamos saber se mudanças concretas ocorrerem daqui para frente: uma resolução da Assembléia Geral sobre anti-semitismo aprovada, um relatório anual sobre anti-semitismo disponível, um foco sobre o anti-semitismo criado, um correspondente para o anti-semitismo designado. Mas eu desafio o secretário-geral e sua organização a irem além - se eles são realmente sérios quanto à erradicação do anti-semitismo:
a.) Comecem a dar nomes aos terroristas que matam judeus porque eles são judeus.
b.) Comecem a condenar os violadores dos direitos humanos aonde quer que eles estejam - mesmo se eles viverem em Riad ou Damasco.
c.) Parem de condenar o povo judeu por reagir contra seus assassinos.
d.) E, da próxima vez que alguém pedir a vocês e seus colegas que se levantem para um minuto de silêncio em honra daqueles que destruiriam o Estado de Israel, digam não.
Só então a mensagem será ouvida, a partir desses salões, de que a ONU não vai tolerar o anti-semitismo ou suas conseqüências contra os judeus e o povo judaico, não importando se suas vítimas vivem em Teerã, Paris ou Jerusalém.

* Anne Bayefsky é conselheira sênior no Hudson Institute [Instituto Hudson] e professora universitária adjunta na Columbia University Law School [Escola de Direito da Universidade de Columbia]. Ela proferiu este discurso na ONU, em inglês, durante a conferência “Enfrentando o Anti-Semitismo: Educação para a Tolerância e Compreensão”, promovida pelo Departamento de Informação, em 21 de junho de 2004. Tradução de Gisella Gonçalves.


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