Por: Edda Bergmann*
Quando o rei Nabucodonosor
da Babilônia destruiu o primeiro
Templo de Jerusalém levou os judeus como escravos para
a Babilônia.
Lá a imagem da saudade ficou gravada nas lamentações
ao lado dos rios, inclusive as árvores que ladeiam os
rios, os salgueiros, passaram a se chamar “chorões”.
São famosas as rezas e os prantos ao lado dos chorões
e dos salgueiros da Babilônia.
Tendo perdido o Templo e seu principal lugar de rezar, e não
podendo reconstruí-lo como fizeram mais tarde em Jerusalém,
criaram a sinagoga.
São famosas as sinagogas da Babilônia, centros de
estudos como eram chamadas. Lá se reuniam para rezar,
para apagar a saudade e para desenvolver o judaísmo.
A sinagoga tornou-se o centro da vida comercial e sua centralidade
conservou a unidade do judaísmo através dos séculos.
Lá surgiu o Rosh Hashaná, a cabeça do ano
judaico que não começa nesta época, mas
sim na primavera, em Pêssach, com a saída do Egito
da escravidão para a liberdade, liberdade esta física,
pois somente um homem livre pode ir e vir onde quiser.
Rosh Hashaná lembra a liberdade espiritual, pois mesmo
escravo tem o seu pensamento livre para rezar e aclamar o seu
deus, talvez um deus pessoal e não coletivo no momento.
A influência de Mardoc, o deus da Babilônia, que
estava no céu, nas alturas e tinha um livro aberto, onde
inscrevia os que iriam viver e os que iriam morrer, influenciou
o judaísmo.
Em Rosh Hashaná D-us define quem viverá e quem
morrerá no ano que se inicia, e como morrerá.
Em todas as rezas pede-se pela vida, uma vida livre com saúde
e felicidade. Mas poucas vezes se percebe que a verdadeira felicidade
depende de nós mesmos, do nosso empenho, da nossa vontade
e dos nossos valores capazes ou não de nos entrosar com
a humanidade.
Com o Rosh Hashaná começa o hábito das rezas
na sinagoga com a presença de um “minian”.
Dez homens, dez árvores capazes de nos dizer amém,
ou seja, de aprovar os nossos pensamentos dizendo que estão
de acordo com nossas rezas que as refletem, que não estamos
sós, pois somos acompanhados por outros seres que nos
dão as forças necessárias para irmos adiante
em nossa caminhada rumo ao futuro e ao que nos espera em nossas
vidas. Este apoio do “minian” é muito significativo
e humano, é o símbolo pleno da solidariedade, do
apoio moral e físico, do amor fraternal e de tudo o que
o ser humano tem de bom e de virtual.
Ser parte de um “minian” é fazer parte de
um grupo de apoio, é dizer não estais sozinho,
estou aqui ao teu lado para o que der e vier. É testemunhar
a devoção do outro, é reforçar a
força de seu espírito, dar-lhe força e segurança
em seus momentos difíceis.
Dizia Martin Buber que quando andava e voltava cansado, ao encostar
o bastão que lhe servia de bengala, no tronco de uma árvore,
sentia imediatamente a reciprocidade da árvore que lhe
dava a sensação de um descanso amigo.
O “minian” é a mais humana invenção
judaica no sentido da solidariedade humana da reação às
carências afetivas e pessoais, do repouso do pensamento
cansado, do saber que não se está sozinho neste
mundo de D-us, que outros estão conosco, pessoas como
nós se solidarizam e procuram sentir o que estamos sentindo
para nos acompanhar neste caminho espinhoso e difícil,
mas que pode ser fulgurante.
Deste “minian” solidário surgem as entidades
fraternais como a B’nai B’rith que tira todo o seu
humanismo do preceito religioso judaico de uma irmandade coletiva
de união, de amor, de ajuda mútua, espiritual e
moral e de apoio nos momentos mais difíceis da vida e
de regozijo coletivo, nas ocasiões felizes do mundo individual
e espiritual de cada um e de todos, que brilha no firmamento
como uma estrela reforçando o valor da nossa vida!
*Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B’nai
B’rith.