Visão Judaica - Edição N° 27
:. Rosh Hashaná, suas origens e sua mensagem .:

Por: Edda Bergmann*

Quando o rei Nabucodonosor da Babilônia destruiu o primeiro Templo de Jerusalém levou os judeus como escravos para a Babilônia.
Lá a imagem da saudade ficou gravada nas lamentações ao lado dos rios, inclusive as árvores que ladeiam os rios, os salgueiros, passaram a se chamar “chorões”. São famosas as rezas e os prantos ao lado dos chorões e dos salgueiros da Babilônia.
Tendo perdido o Templo e seu principal lugar de rezar, e não podendo reconstruí-lo como fizeram mais tarde em Jerusalém, criaram a sinagoga.
São famosas as sinagogas da Babilônia, centros de estudos como eram chamadas. Lá se reuniam para rezar, para apagar a saudade e para desenvolver o judaísmo.
A sinagoga tornou-se o centro da vida comercial e sua centralidade conservou a unidade do judaísmo através dos séculos. Lá surgiu o Rosh Hashaná, a cabeça do ano judaico que não começa nesta época, mas sim na primavera, em Pêssach, com a saída do Egito da escravidão para a liberdade, liberdade esta física, pois somente um homem livre pode ir e vir onde quiser.
Rosh Hashaná lembra a liberdade espiritual, pois mesmo escravo tem o seu pensamento livre para rezar e aclamar o seu deus, talvez um deus pessoal e não coletivo no momento.
A influência de Mardoc, o deus da Babilônia, que estava no céu, nas alturas e tinha um livro aberto, onde inscrevia os que iriam viver e os que iriam morrer, influenciou o judaísmo.
Em Rosh Hashaná D-us define quem viverá e quem morrerá no ano que se inicia, e como morrerá.
Em todas as rezas pede-se pela vida, uma vida livre com saúde e felicidade. Mas poucas vezes se percebe que a verdadeira felicidade depende de nós mesmos, do nosso empenho, da nossa vontade e dos nossos valores capazes ou não de nos entrosar com a humanidade.
Com o Rosh Hashaná começa o hábito das rezas na sinagoga com a presença de um “minian”.
Dez homens, dez árvores capazes de nos dizer amém, ou seja, de aprovar os nossos pensamentos dizendo que estão de acordo com nossas rezas que as refletem, que não estamos sós, pois somos acompanhados por outros seres que nos dão as forças necessárias para irmos adiante em nossa caminhada rumo ao futuro e ao que nos espera em nossas vidas. Este apoio do “minian” é muito significativo e humano, é o símbolo pleno da solidariedade, do apoio moral e físico, do amor fraternal e de tudo o que o ser humano tem de bom e de virtual.
Ser parte de um “minian” é fazer parte de um grupo de apoio, é dizer não estais sozinho, estou aqui ao teu lado para o que der e vier. É testemunhar a devoção do outro, é reforçar a força de seu espírito, dar-lhe força e segurança em seus momentos difíceis.
Dizia Martin Buber que quando andava e voltava cansado, ao encostar o bastão que lhe servia de bengala, no tronco de uma árvore, sentia imediatamente a reciprocidade da árvore que lhe dava a sensação de um descanso amigo.
O “minian” é a mais humana invenção judaica no sentido da solidariedade humana da reação às carências afetivas e pessoais, do repouso do pensamento cansado, do saber que não se está sozinho neste mundo de D-us, que outros estão conosco, pessoas como nós se solidarizam e procuram sentir o que estamos sentindo para nos acompanhar neste caminho espinhoso e difícil, mas que pode ser fulgurante.
Deste “minian” solidário surgem as entidades fraternais como a B’nai B’rith que tira todo o seu humanismo do preceito religioso judaico de uma irmandade coletiva de união, de amor, de ajuda mútua, espiritual e moral e de apoio nos momentos mais difíceis da vida e de regozijo coletivo, nas ocasiões felizes do mundo individual e espiritual de cada um e de todos, que brilha no firmamento como uma estrela reforçando o valor da nossa vida!

*Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B’nai B’rith.


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