Por: Sonia
Bloomfield Ramagem
Por que a teoria
da conspiração judaica, forjada
em 1903 pelo monge ortodoxo russo Sergei Nilus, através
do panfleto ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’,
renasceu com tal força em finais do século 20 e
adentra pelo atual?
Embasada na ideologia da modernidade, a crença, ou certeza,
de uma conspiração judaica, a teoria atual alia-se à ojeriza
religiosa existente até o século 18 e o racismo
clássico dos séculos 19 e início do 20,
ainda com a mesma falta de coerência. No que tange ao anti-semitismo
religioso, pré-moderno, é intrigante o fato de
que se, segundo os cristãos, Cristo veio para servir como
sacrifício para a salvação da humanidade,
isto é predestinado a ser crucificado, por que culpar
os judeus, ou qualquer outro grupo, por sua morte? No entanto,
este elemento ilógico ainda não desapareceu da
composição anti-semita atual, como bem atestam
as discussões levantadas sobre a caracterização
que o filme de Mel Gibson sobre a Paixão faz dos judeus
como deicidas. Sabendo que Mel Gibson já efetuou declarações
que minimizam a tragédia do Holocausto, negado por seu
parceiro de crença ‘Gibson pai’, a realização
da película recria, com a poderosa capacidade da indústria
cinematográfica, o potencial do ódio religioso
contra os judeus.
Em relação à teoria da conspiração
judaica, pode-se dividir quem a subscreve em dois grupos: os
que acham que exista uma conspiração judaica, e
os que têm certeza de que ela existe. Entre estes últimos
encontram-se aqueles que apóiam o julgamento da Corte
de Haia sobre o muro que Israel constrói para dificultar
a ação de terroristas contra sua população.
O ‘julgamento’ em si seria risível se não
fosse trágico pois, além de negar ao governo israelense
o exercício de uma das ações básicas
do Estado, o de defender sua população, nega intrinsecamente
aos judeus o direito à vida, além de não
se pronunciar sobre barreiras existentes em outros países,
tais como a de 4.000 km de comprimento que a Índia constrói
com o objetivo de cercar Bangladesh para impedir a ação
de terroristas islâmicos que têm aquele país
como base, além de outra junto ao Paquistão. O
que faz com que apenas Israel seja visado? Novamente aqui se
encontra a falta de coerência na relação
que o Ocidente e o mundo islâmico têm com Israel.
Retornando a questão inicial deste artigo - Por que a
teoria da conspiração judaica, forjada em 1903
pelo monge ortodoxo russo Sergei Nilus, através do panfleto ‘Os
Protocolos dos Sábios de Sião’, renasceu
com tanta força em finais do século 20 e adentra
pelo atual? Em princípio, porque a imaginação
popular, alavancada por líderes e intelectuais desonestos,
atribui ao judeu um poder político e econômico irreal.
Um mínimo de bom-senso mostra que se tal fosse verdade
não teria acontecido o Holocausto, não teriam existido
pogroms, os árabes não atacariam Israel, a imprensa
em geral não se mostraria tão anti-semita, a Corte
de Haia não se imiscuiria na defesa da população
israelense pelo Estado de Israel, Mel Gibson não faria
seu filme, etc. Em outras palavras, os dados `DESPROVAM` a teoria.
Por que ela continua a ser aceita como lei então? Onde
está sua lógica?
Sabe-se que em um período histórico em que o processo
de globalização se acelera, o mundo conhecido muda
rapidamente. Os antigos modos de vida e as expectativas para
o futuro parecem incertos. O mercado-de-trabalho é cada
vez mais movediço, e o Estado retira-se da vida de seus
contribuintes cada vez mais, deixando-os à própria
sorte, e assim por diante. Muitas pessoas, ao invés de
assumirem responsabilidade pessoal e trabalharem contra ou a
favor destas mudanças, preferem não pensar por
si próprias e ter nas mãos uma `receita` para explicar
seus infortúnios, e alguém a quem culpar.
Aí, os judeus e os `Protocolos` vêm a calhar. Não
só as pessoas intelectualmente simples aceitam (porque
há um elemento de não reflexão) nesta farsa.
Isto ficou muito claro quando de uma recente conferência
no Brasil do `historiador` (?) paquistanês, radicado em
Londres (é claro...), Tariq Ali a uma platéia de
psicanalistas: ao defender a morte violenta causada pelos homens-bomba
no Oriente Médio, incitando à sua criação
em outros locais como reação contra os EUA e a
quem os domina (não é preciso dizer quem são...),
foi ovacionado de pé por uma platéia de profissionais
ditos sofisticados, que lidam com Eros e Tanatos, tendo até mesmo
por dever do ofício que dar prioridade ao primeiro!!! É uma
absoluta incoerência.
As incoerências mencionadas fazem parte do senso-comum
de uma boa parte da humanidade, mostrando que a alicerçar
o mesmo existe uma sombria, profunda e longa trajetória
de contra-sensos em termos lógicos, mas que se explica
se pensarmos que a resposta para a questão inicial é que
o anti-semitismo atual é uma religião, cujo mito
fundador é o da conspiração das forças
do mal (isto é, os judeus como deicidas e ‘raça
ruim’) contra as forças do bem (isto é ‘nós’),
que tem mitos como o do ‘libelo de sangue’ e ‘conspiração’,
e cujo texto sagrado é ‘Os Protocolos dos Sábios
de Sião’.
Mais ainda, ele é uma religião fundamentalista,
sincrética e proselitista. ‘Religião’,
porque oferece a seus fiéis, explicações
claras sobre como o mundo é (isto é, por que existe
o Caos no mundo? Por que sofremos?), e o que deve ser feito para
repará-lo (ou seja, livrar-se dos judeus, ‘limpar’ o
mundo, criar um Cosmos). ‘Fundamentalista’, porque é uma
reação contra a modernidade que precisa atar-se
a ‘verdades’ ditas absolutas e eternas (isto é,
o judeu é ruim). ‘Sincrética’ porque
agrega pessoas de fé diversa (cristãos, islâmicos,
ateus, e infelizmente até mesmo alguns judeus, etc.);
e porque seus adeptos buscam trazer novos ‘conversos’ à sua
fé. Esta religião tem suas deidades, a maior delas
Adolf Hitler, mas com outras figuras de importância na
hierarquia, tal qual Yasser Arafat, Sadam Hussein e outros, além
de seus ritos, expressos em atos concretos de anti-semitismo,
que vão desde o ataque físico contra judeus a uma
simples aula de escola primária onde o professor classifique
os judeus como ‘a causa’ dos problemas nacionais
e mundiais.
Como um adendo, é necessário lembrar que nem toda ‘religião’ é necessariamente
oposta à lógica, mas o anti-semitismo certamente
o é.
Talvez, sob o prisma do estudo das religiões se possa
compreender melhor este fenômeno na forma em que se apresenta
na atualidade, e assim para ele buscar soluções
adequadas, sendo para isto necessário que todo estudo
deste tipo seja integrado ao conhecimento de culturas locais
para um entendimento e uma prática que levem esta religião
iníqua a ser desmascarada, impedindo sua expansão,
com as conseqüências funestas que já são
de sobejo conhecidas.
* Sonia Bloomfield
Ramagem é PHD e professora da Universidade
de Brasília.