Por: Nahum
Sirotsky*
(De Israel) – Yasser Arafat, o líder palestino,
vive fechado na Mukata, seu destruído centro cívico,
quartel-general e residência na cidade de Ramallah, na
Cisjordânia. São poucos minutos de carro até Jerusalém,
além da ainda intransponível distância entre
a visão dele de uma solução do conflito
e a israelense.
É
a última palavra nas decisões da chamada Autoridade
Palestina que, por acordo, administra a sua área. É símbolo
e figura mitológica pelos quase 40 anos dedicados à luta
pela declaração de um Estado independente como
guerrilheiro no exterior e, nos últimos anos, político.
Glorificado pelos países árabes até recentemente.
Mas, passou a ser criticado.
“
Al Ahram”, o maior grupo de comunicações
egípcio, é altamente profissional. E seus veículos
têm grande qualidade profissional e técnica. Os
colaboradores expressam com excelência os pontos de vista
do país com relação às questões
que interessam.
Eles são limitados, é claro, em suas liberdades
de opinar, pois o Egito tem um sistema autoritário. Mubarak,
o chefe de governo é altamente conceituado pela sua competente
e firme liderança. Mas não preside uma democracia.
Leio sempre a mídia árabe. Quem se interessa um
pouco mais pelo Oriente Médio sugiro que faça o
mesmo. No semanário do Al Ahram, li Lamis Andoni, ex-guerrilheiro
palestino, dizendo que “nesses dias é impossível
ver um canal de televisão sem encontrar um político
palestino condenando a corrupção, o estado caótico,
e clamando por reformas. Os que advogam reformas são tão
numerosos que se fica admirado que sejam tantos e se indagando
quem serão os corruptos de que todos falam”.
Há inúmeros outros criticando no mesmo veículo
e em outros financiados por árabes e publicados em países
extra-regionais. Aconteceu o previsível. Yasser Arafat
assumiu e mantém poderes absolutos. Implantou-se um sistema
que passou da fase dos líderes patriotas para os que dependem
do grupo no poder para seus empregos e negócios. “Sistema
que conseguiu corromper centenas, senão milhares de alguns
dos mais bravos militantes e modelos da luta palestina”.
Foi assim em outras ditaduras.
Ainda não se ataca Arafat diretamente. É o sistema
autoritário, e o redor. Mas em certos círculos
não se deixa de lembrar que a senhora Arafat, bem mais
jovem, mãe do filho, vive em Paris, no maior luxo. E que
só a assinatura dele vale na liberação de
recursos.
Arafat se mantém no poder com maquiavélica habilidade.
Tem, por exemplo, mais de dez serviços de segurança,
cada um com um corpo de oficiais bem pagos. Cada serviço
tem interesses criados em sua continuidade. Nenhum deles pode,
sozinho, derrubar a estrutura existente. E não haveria
cooperação. Cada grupo quer o seu e não
divide com outro. Nada de inédito na vida de países
e organizações. Cada indivíduo, ou a maioria
tem seu preço.
A reforma do sistema Arafat visa, de começo, unificar
tais serviços em torno de suas responsabilidades específicas,
três no máximo. O Egito chegou a dar um ultimato
ao velho líder. Ele ignorou. Não abre mão
de parcela alguma de poder efetivo.
Existe crise e conflito no coração do sistema.
Grupos que lutam entre si. A crise explodiu quando Sharon, o
primeiro-ministro de Israel, anunciou seu plano chamado de solução
unilateral do conflito com os palestinos. Sair da Faixa de Gaza,
uma estreita área onde se concentram milhão e meio
de palestinos. No meio, 8 mil civis israelenses criaram colônias
nas quais praticam agricultura de deserto, com tecnologia sofisticada
e rentável.
E de trechos da Cisjordânia, que chama de Judéia
e Samaria. Vai reduzir a fronteira com os palestinos que separa
Israel por muro em construção. Alega que é coisa
provisória que será mantida até que se chegue
a um acordo de paz pelo qual se espera desde 1948. Com o tempo
passando o que é provisório sempre tende a permanente.
Os diversos grupamentos em que estão divididos os palestinos,
desde organizações pró-Arafat a fundamentalistas
islâmicos, como Hamas, Jihad, competem pelo poder em Gaza,
não raro, com violência. O Hamas quer um sistema
teocrático prevendo que de Gaza pode estendê-lo
a toda a futura Palestina.
A crise lê-se em Al Ahram, “é manifestação
da perda de esperança de se chegar a uma solução e fim
do sofrimento palestino, e indicação da profunda corrupção
moral e impotência do sistema Palestino”. É que “em
vez de formular uma estratégia, o estabelecimento palestino (Arafat
e ao redor) mergulhou numa infrutífera luta que sublinha sua inabilidade
de adotar qualquer iniciativa”, daí ser vulnerável a pressões
americanas e israelenses“.
A vinda dos altos oficiais egípcios é justificada como negociação
de mais estreita cooperação para impedir contrabando de armas
do Egito a Gaza. O contrabando se tem feito por túneis que são
abertos entre os países. A cooperação já funciona.
O Egito assumiu treinar nova força policial palestina para assumir a
segurança de Gaza, hoje com tantos serviços que não tem
nenhum responsável.
É
uma cidade sem lei. Precisa de ordem que assuma o poder quando os israelenses
se afastarem. Não se quer uma guerra civil que pode botar em perigo
até as relações israelense-egípcias, atrair extremistas
de todos os cantos como no Iraque. Pode acontecer se não adotados cuidados
muito cautelosos. Israel tem o problema dos confrontos diários com grupos
palestinos, os chamados terroristas. Sim, existe é uma guerra a pouca
distância de Tel-Aviv.
Os egípcios têm o problema de grupos islâmicos, no momento “tranqüilizados” por
decisivas operações policiais e militares. Foi a partir da “Fraternidade
Muçulmana”, um grupo egípcio, que surgiram todas as guerrilhas
e grupos árabes terroristas de hoje. Foi o modelo e filosofia.
A hierarquia dos egípcios que vieram, é destacável. As
questões que teriam vindo discutir poderiam ser abordadas a nível
mais baixo. É sabido que Mubarak não está feliz com Arafat.
A Intifada, a revolta palestina que já dura anos, só resultou
em destruição e mortes. Miséria palestina. Economia israelense
abalada. Nada do que pretendiam os palestinos. Não nasceu seu Estado
independente.
O mundo árabe fez várias guerras contra Israel, país de
6 milhões e meio de habitantes, menor em número do que a população
do Cairo e, territorialmente, um Sergipe com 21 mil quilômetros quadrados.
Tão pequeno que só se vê no mapa com ajuda de lente. Tentem.
Talvez, no futuro, possa ser derrotado e mesmo destruído. Não é o
caso no momento. E o futuro, quem pode prever?
É
uma hipótese apenas. Mas deve existir mais do se divulgou das conversas
entre Cairo e Jerusalém. Tão mais essencial que forçar
Arafat a reorganizar seu sistema de segurança, que promete fazer e não
faz nunca. Abrir mão de parcelas de seu poder de decidir tudo. Transparência
no uso do dinheiro. Governo que preste contas e satisfação e
faça algo de bom pelo povo. Agora.
*Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e
do Último Segundo/IG em Israel. A publicação
desta coluna tem a autorização do autor.