Visão Judaica - Edição N° 27
:. O equilibrio da vida .:

Por: Sami Goldstein

O equilíbrio é a chave para entender o universo. O que seria das galáxias se suas órbitas não se mantivessem eqüidistantes umas das outras? O caos total. Na Terra, o que seria da natureza se não houvesse uma perfeita harmonia entre os poderosos elementos água, terra, fogo e ar? O apocalipse. E o ser humano não foge à regra. É o equilíbrio nosso maior anseio. Diferentemente dos outros seres, saímos do ventre materno sem qualquer noção de equilíbrio e percorremos um grande caminho até encontrá-lo. Quando de um acidente, D-us nos livre (a expressão judaica é ló aleinu), um de nossos maiores receios são as seqüelas do trauma que causam a perda do equilíbrio e o desespero em recuperá-lo. Os físicos e químicos também conhecem a importância do verdadeiro equilíbrio, tanto que guardam suas delicadas escalas sob uma redoma de vidro. Caso sua sensibilidade seja afetada, todo o experimento será arruinado. Carros, aviões e toda moderna tecnologia estão baseados nesta singular palavra, pois equilíbrio, para nós, é sinônimo de segurança.
Ao aproximarmo-nos de Rosh Hashaná e Yom Kipur, uma imagem nos vem à mente: a balança. Isto porque o signo do zodíaco referente ao mês de Tishrei é justamente uma balança. Tal constatação levou nossos mestres a dizer que “isto se deve ao fato de que, neste mês, todo o mundo é julgado pelos atos do homem e são pesados na balança seus méritos e dívidas” (Midrash Tanchuma Shelach). A verdade é que toda nossa vida é pesada. Em busca do equilíbrio, nossa existência é testada no grande laboratório Divino. Ele precisa saber se Seu experimento obteve sucesso ou está arruinado. Faço-lhe uma simples pergunta: é sua vida equilibrada?
Certa vez, os discípulos do Baal Shem Tov pediram ao mestre:
— Explique-nos, querido Rebe, como podemos servir a D-us.
Respondeu ele:
— Como posso saber?... — Então, passou a lhes contar esta história: um rei tinha dois amigos que foram declarados culpados de um crime e condenados à morte. Ora, embora o rei gostasse muito deles, não ousou libertá-los imediatamente por medo de dar mau exemplo ao povo. Por isso, este foi seu veredicto: uma corda deveria ser esticada sobre um profundo abismo e cada um dos dois homens caminharia sobre ela – para a salvação e a liberdade ou, se caísse, para a morte. O primeiro atravessou com segurança. Seu companheiro gritou-lhe através do abismo:
— Amigo, diga-me como conseguiu.
Respondeu o primeiro:
— Como posso saber? Tudo que fiz foi isto: quando me via pendendo para um lado, inclinava-me para o outro.
E assim vivemos. Nossa existência assemelha-se a uma corda bamba estirada sobre o aterrorizante abismo dos desafios a nós estipulados. Sim, viver não é uma dádiva. É, antes de tudo, um desafio. O desafio de alcançar nossos sonhos, de sermos felizes, de conseguirmos o que queremos. Muitas são as forças que forçam a puxar-nos para baixo, para dentro do abismo. E estas são mais baixas que o próprio abismo. Olhamos para sua profunda garganta e nos amedrontamos. Sabemos que é preciso seguir adiante e lançamo-nos à sorte. Pisamos sobre a corda da vida e sentimos sua fragilidade. Pensamos se vale à pena continuar, pois tudo parece tão incerto, tão inseguro. Queremos garantias, mas quem se lembra de ter nascido com um manual de instruções e o comprovante de garantia da fábrica? Qual o melhor jeito de caminhar? Como vou saber, responderia o grande Rebe. Nossa missão não é perguntar, mas seguir em frente. E, à medida que for necessário, penderemos para um lado ou para outro. Às vezes, ganharemos ou perderemos, Por outras, somaremos ou abdicaremos. Tudo para manter nosso equilíbrio e chegar com segurança ao outro lado do precipício. Você está fazendo isto?
Meu amigo: estamos sobre a mesma corda. Reveja seus valores, ambições e objetivos. Livre-se das forças negativas que subestimam o valor de seu reluzente brilho. Tenha coragem de lutar por aquilo que acredita. Sim, acredite que possa ser feliz mesmo que outros afirmem o contrário. E não desista. Quero encontrá-lo do outro lado, para juntos enfrentarmos novas cordas.

* Sami Goldstein é professor e líder espiritual da comunidade na Sinagoga “Francisco Frischmann”, de Curitiba.


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