Por: Sami
Goldstein
O equilíbrio é a chave para entender o universo.
O que seria das galáxias se suas órbitas não
se mantivessem eqüidistantes umas das outras? O caos total.
Na Terra, o que seria da natureza se não houvesse uma
perfeita harmonia entre os poderosos elementos água, terra,
fogo e ar? O apocalipse. E o ser humano não foge à regra. É o
equilíbrio nosso maior anseio. Diferentemente dos outros
seres, saímos do ventre materno sem qualquer noção
de equilíbrio e percorremos um grande caminho até encontrá-lo.
Quando de um acidente, D-us nos livre (a expressão judaica é ló aleinu),
um de nossos maiores receios são as seqüelas do trauma
que causam a perda do equilíbrio e o desespero em recuperá-lo.
Os físicos e químicos também conhecem a
importância do verdadeiro equilíbrio, tanto que
guardam suas delicadas escalas sob uma redoma de vidro. Caso
sua sensibilidade seja afetada, todo o experimento será arruinado.
Carros, aviões e toda moderna tecnologia estão
baseados nesta singular palavra, pois equilíbrio, para
nós, é sinônimo de segurança.
Ao aproximarmo-nos de Rosh Hashaná e Yom Kipur, uma imagem
nos vem à mente: a balança. Isto porque o signo
do zodíaco referente ao mês de Tishrei é justamente
uma balança. Tal constatação levou nossos
mestres a dizer que “isto se deve ao fato de que, neste
mês, todo o mundo é julgado pelos atos do homem
e são pesados na balança seus méritos e
dívidas” (Midrash Tanchuma Shelach). A verdade é que
toda nossa vida é pesada. Em busca do equilíbrio,
nossa existência é testada no grande laboratório
Divino. Ele precisa saber se Seu experimento obteve sucesso ou
está arruinado. Faço-lhe uma simples pergunta: é sua
vida equilibrada?
Certa vez, os discípulos do Baal Shem Tov pediram ao mestre:
— Explique-nos, querido Rebe, como podemos servir a D-us.
Respondeu ele:
—
Como posso saber?... — Então, passou a lhes contar
esta história: um rei tinha dois amigos que foram declarados
culpados de um crime e condenados à morte. Ora, embora
o rei gostasse muito deles, não ousou libertá-los
imediatamente por medo de dar mau exemplo ao povo. Por isso,
este foi seu veredicto: uma corda deveria ser esticada sobre
um profundo abismo e cada um dos dois homens caminharia sobre
ela – para a salvação e a liberdade ou, se
caísse, para a morte. O primeiro atravessou com segurança.
Seu companheiro gritou-lhe através do abismo:
— Amigo, diga-me como conseguiu.
Respondeu o primeiro:
— Como posso saber? Tudo que fiz foi isto: quando me via pendendo
para um lado, inclinava-me para o outro.
E assim vivemos. Nossa existência assemelha-se a uma corda
bamba estirada sobre o aterrorizante abismo dos desafios a nós
estipulados. Sim, viver não é uma dádiva. É,
antes de tudo, um desafio. O desafio de alcançar nossos
sonhos, de sermos felizes, de conseguirmos o que queremos. Muitas
são as forças que forçam a puxar-nos para
baixo, para dentro do abismo. E estas são mais baixas
que o próprio abismo. Olhamos para sua profunda garganta
e nos amedrontamos. Sabemos que é preciso seguir adiante
e lançamo-nos à sorte. Pisamos sobre a corda da
vida e sentimos sua fragilidade. Pensamos se vale à pena
continuar, pois tudo parece tão incerto, tão inseguro.
Queremos garantias, mas quem se lembra de ter nascido com um
manual de instruções e o comprovante de garantia
da fábrica? Qual o melhor jeito de caminhar? Como vou
saber, responderia o grande Rebe. Nossa missão não é perguntar,
mas seguir em frente. E, à medida que for necessário,
penderemos para um lado ou para outro. Às vezes, ganharemos
ou perderemos, Por outras, somaremos ou abdicaremos. Tudo para
manter nosso equilíbrio e chegar com segurança
ao outro lado do precipício. Você está fazendo
isto?
Meu amigo: estamos sobre a mesma corda. Reveja seus valores,
ambições e objetivos. Livre-se das forças
negativas que subestimam o valor de seu reluzente brilho. Tenha
coragem de lutar por aquilo que acredita. Sim, acredite que possa
ser feliz mesmo que outros afirmem o contrário. E não
desista. Quero encontrá-lo do outro lado, para juntos
enfrentarmos novas cordas.
* Sami Goldstein é professor e líder espiritual
da comunidade na Sinagoga “Francisco Frischmann”,
de Curitiba.