Por:Olavo de Carvalho
Quando o Todo-Poderoso concedeu a Israel o privilégio de ser,
entre todos, o povo portador da mensagem divina, Ele não o fez
a título parcial e provisório, mas totalmente e de uma
vez para sempre. Algum cristão pode acreditar que caíram
dessa dignidade quando consentiram na execução de Cristo;
muçulmanos podem jurar que eles alteraram o texto das Escrituras,
perdendo com isto o mandato profético; ateus podem achar que é tudo
uma construção ideológica erguida para camuflar
um projeto de poder. Podem dizer o que quiserem. São opiniões
humanas, variáveis como o vento. Se você acredita na Bíblia,
não tem alternativa senão admitir que os judeus, se eram
o povo profético anteontem, continuarão a sê-lo
depois de amanhã. “Porque Eu sou o Senhor, falarei, e
a palavra que Eu disser se cumprirá” (Ez. 12:25).
Se as coisas são
assim, o advento da revelação cristã não
as modifica em nada. O batismo cristão redime você do
pecado original, mas não o transforma automaticamente
em profeta. E mesmo o estado de graça, a que você tem
acesso pelos sacramentos, só dura até o próximo
pecado, que você quase infalivelmente tratará de
cometer na primeira oportunidade. A corda da salvação
cristã é jogada pelos céus a cada indivíduo
separadamente, em vários momentos da sua existência,
até que aprenda a agarrar-se a ela ou a largá-la
em definitivo. É um benefício pessoal, temporário
e condicional. Já a condição de povo
profético foi dada aos judeus coletivamente, definitivamente
e incondicionalmente. Eles próprios não podem
revogá-la. Se pecam, se abandonam o caminho, se renegam
o próprio D-us, isso não muda em nada o seu
estatuto eterno. Como o profeta Jonas, que foge da missão,
eles são reconduzidos perpetuamente ao dever, seja
por meio das súplicas e advertência dos sábios,
seja pela dura experiência dos reveses, derrotas e
perseguições. A profecia é o mais denso
dos fardos, e não é de espantar que o povo
que o carrega esteja vergado sob o peso dos sofrimentos.
Bastam essas duas constatações
para que o leitor inteligente conclua que cristianismo e
judaísmo não são espécies do
mesmo gênero, não ocupam o mesmo lugar na economia
da salvação, não têm a mesma função
no plano divino e, portanto, não estão em concorrência
de maneira alguma. Choques, hostilidades e recriminações,
além de não terem sido tão constantes
quanto os imagina a fantasia contemporânea -- a Igreja
sempre teve seus judaizantes em disputa com os antijudaicos,
e no lado judeu observa-se desde o rígido anticristianismo
de Maimônides até a abertura fraternal de um
Franz Rosenzweig —, só nasceram da extrema dificuldade
de articular a heterogeneidade metafísica das duas
religiões com a homogeneidade física das suas
respectivas encarnações históricas:
pois tanto Israel quanto a cristandade são comunidades
de homens, que, como tais, entram em concorrência com
outros homens pela conquista de objetivos humanos: políticos,
econômicos, culturais, etc. Como duas religiões
podem ser intrinsecamente verdadeiras quando parecem divergir
em tantos pontos é um problema para cuja solução
só muito aos poucos, e desde época bem recente
na História, se vieram criando os instrumentos intelectuais
mínimos e indispensáveis. De Leibniz a Eric
Voegelin, passando pelos comparatistas do século XIX,
pela “ciência das religiões” dos
dois Ottos (Walter e Rudolf), pelo memorável diálogo
Rosenzweig-Rosenstock e pela “unidade transcendente
das religiões” de Frithjof Schuon, a quantidade
de inteligência investida nisso é incalculável,
e os resultados estão longe de ser satisfatórios.
Mas pelo menos um desses resultados pode ser considerado
definitivo: a religião é um mistério,
e a existência de religiões diversas é um
mistério maior ainda. Bastou que a ciência juntasse
as peças disponíveis, e a conclusão
se impôs instantaneamente: ninguém tem a solução
desse enigma. É justamente a consciência disso
que nos impõe a obrigação moral de perdoar
os conflitos religiosos do passado e, na mesma medida, de
condenar os do presente. Pois uma coisa é investir
com fúria contra a religião alheia quando se
está separado dela por um abismo cultural intransponível,
e outra coisa totalmente diversa é fazer o mesmo por
preguiça ou por obstinada recusa de atravessar as
pontes que os sábios tão laboriosamente construíram.
Se essas pontes não nos fornecem a interligação
positiva, mas apenas delineiam o perfil das dificuldades
que se encontrarão pela frente, a simples consciência
dessas dificuldades já deveria nos induzir a contemplar
a religião alheia com a reverência intelectual
devida, sem diluí-la numa vulgar “tolerância
democrática” que despreza a todas as religiões
por igual, nem sufocá-la num exclusivismo opaco que,
no estado atual dos conhecimentos, já não tem
a mínima razão de ser. É justamente
isso – e não só o número assombroso
das vítimas, não menos de duas dezenas de milhões
no total — o que torna tão feios e intoleráveis
os movimentos ideológicos antijudaicos e anticristãos
do século XX. Pois esse foi o século que, justamente,
havia conquistado os meios intelectuais de impedir que tudo
isso acontecesse.
No que diz respeito aos
judeus em especial, uma conclusão daí se segue
inapelavelmente. Se D-us, ao instituir o sacrifício
da missa, quisesse abolir no mesmo instante o antigo sacrifício
mosaico, Ele o teria feito de maneira explícita e
inequívoca. Se Ele não o fez, o mandato da
Igreja não revoga o de Israel. Daí por diante,
judeus e cristãos seguem por seus respectivos caminhos,
misteriosamente unidos e separados pela identidade da fonte
e pela diversa missão que dela receberam. Não
têm a obrigação de compreender-se integralmente,
porque esta compreensão está acima das possibilidades
humanas. Mas têm a obrigação de amar-se
e ajudar-se mutuamente em tudo o que seja necessário
para o bom cumprimento de seus respectivos mandatos.