Visão Judaica - Edição N° 27
:. Edificando nosso lar: O poder feminino III .:

Por: Tila Dubrawsky

Antigamente um vendedor ambulante viajava com seus bens de uma cidade para outra, freqüentemente sem ter um lugar decente para repousar à noite. Em uma de suas viagens, o vendedor mandou seu cocheiro parar na floresta, pois estava exausto e pronto para passar a noite em baixo das estrelas. O chão estava duro e o homem virava e torcia-se. Não conseguindo adormecer, tirou sua garrafa de vodka e tomou uns goles. Imediatamente caiu em um sono tão profundo, que passou o dia seguinte todo dormindo e só acordou novamente quando já era escuro. Pensando ainda estar no meio da primeira noite e incapaz de adormecer novamente, tragou mais uma pinga. Com aquilo, ele novamente apagou, mais uma vez dormindo durante o dia todo e acordando apenas na noite seguinte. “O que acontece aqui?” - chamou o vendedor ao seu cocheiro. “O dia nunca amanhece neste local?”
Estamos na véspera de um ano novo quando D-us manda nova luz e energia ao nosso mundo e novas oportunidades para nossas vidas. Fiquemos atentos e não percamos as chances de iluminar o nosso cotidiano e os nossos lares.
O Talmud (Taanit 25:71) conta de um episódio interessante em uma véspera de Shabat. Logo após o acender de suas velas, a filha do famoso Rabi Chanina ben Dossa ficou preocupada. Na sua pressa para não atrasar o horário de Shabat, ela tinha erroneamente trocado o frasco de óleo, que usava para encher o candelabro, com o frasco de vinagre. Seguramente, em poucos minutos, acabando o restinho do óleo da semana passada, as chamas apagariam e precisariam fazer o jantar do Dia Santificado no escuro. O pai consolou a filha e disse: “Não se incomode, Aquele que ordenou ao óleo a arder, Ele ordenará ao vinagre a arder! Os dois foram criados por D-us, e os dois executarão a Sua vontade”. E assim foi. A luz no candelabro na casa do Rabi Chanina ben Dossa ficou acesa até o final do Sábado, quando utilizaram o seu fogo para acender a vela da Havdalá.
De fato, a essência e a beleza da mitsvá das velas de Shabat é possibilitar à pessoa que a pratica enxergar além das aparências e capas exteriores do nosso mundo físico que ocultam a verdade Divina. Descobrir como cada existência foi criada por uma Entidade Singular, D-us, que está constantemente dando vitalidade a tudo. Sentir e compreender que o objetivo de cada criatura, realidade, fenômeno e ser humano é espelhar um pouco da bondade e perfeição harmoniosa de Seu Criador.
O ano novo judaico 5765 vai se iniciar com três dias santificados juntos. (Rosh Hashaná vai ser quinta e sexta-feira, seguido por Shabat) Isso significa que mulheres judias ao redor do mundo estarão acendendo suas velas de Iom Tov e Shabat três dias consecutivos. O número três em judaísmo representa uma “Chazaka” (direito de possessão). Teremos mais dois ciclos de três dias consecutivos de acendimento de velas de Iom Tov e Shabat com o início da festa de Sucot e a festa de Shmini Atseret. É um total de nove (número da verdade) momentos propícios para atrair a luz e a verdade Divina para o nosso lar no início de um novo ano.
A matriarca Sara, sobre quem o Todo Poderoso D-us aconselha ao patriarca Avraham, na porção da Torá lida no primeiro dia de Rosh Hashaná “Tudo o que Sara lhe disser, escute sua voz”, vivia modestamente em uma tenda abençoada triplamente com sinais especiais, precursores dos milagres no Templo Sagrado. Uma das características do seu lar foi que as velas de Shabat que ela acendia permaneciam acesas a semana toda; as chamas da santidade nunca se apagavam. A tenda de Sara não foi apenas o protótipo para cada lar judaico, proveu a “planta” até mesmo para o Templo Sagrado. O Templo foi uma mera reflexão da santidade estabelecida entre o primeiro casal judeu, um lembrete da verdadeira natureza do nosso lar.
No novo ano 5765, possa o nosso lar ser um lugar onde reine a luz, a verdade e a paz Divina. Possa a nossa vela de Shabat iluminar as nossas vidas todos os dias da semana e a Presença de D-us pairar sobre nós, protegendo a todos e nos guiando no caminho do bem.

Esta coluna é dedicada lilui nishmat para a ascensão da alma da minha avó Ienta Braina bat Meshulam Zussia

* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky, diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó, coordenadora de programas educacionais e culturais, orientadora de pureza e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas as idades.


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