Por: Tila Dubrawsky
Antigamente um vendedor ambulante viajava
com seus bens de uma cidade para outra, freqüentemente sem ter um lugar decente
para repousar à noite. Em uma de suas viagens, o vendedor
mandou seu cocheiro parar na floresta, pois estava exausto e
pronto para passar a noite em baixo das estrelas. O chão
estava duro e o homem virava e torcia-se. Não conseguindo
adormecer, tirou sua garrafa de vodka e tomou uns goles. Imediatamente
caiu em um sono tão profundo, que passou o dia seguinte
todo dormindo e só acordou novamente quando já era
escuro. Pensando ainda estar no meio da primeira noite e incapaz
de adormecer novamente, tragou mais uma pinga. Com aquilo, ele
novamente apagou, mais uma vez dormindo durante o dia todo e
acordando apenas na noite seguinte. “O que acontece aqui?” -
chamou o vendedor ao seu cocheiro. “O dia nunca amanhece
neste local?”
Estamos na véspera de um ano novo quando D-us manda nova
luz e energia ao nosso mundo e novas oportunidades para nossas
vidas. Fiquemos atentos e não percamos as chances de iluminar
o nosso cotidiano e os nossos lares.
O Talmud (Taanit 25:71) conta de um episódio interessante
em uma véspera de Shabat. Logo após o acender de
suas velas, a filha do famoso Rabi Chanina ben Dossa ficou preocupada.
Na sua pressa para não atrasar o horário de Shabat,
ela tinha erroneamente trocado o frasco de óleo, que usava
para encher o candelabro, com o frasco de vinagre. Seguramente,
em poucos minutos, acabando o restinho do óleo da semana
passada, as chamas apagariam e precisariam fazer o jantar do
Dia Santificado no escuro. O pai consolou a filha e disse: “Não
se incomode, Aquele que ordenou ao óleo a arder, Ele ordenará ao
vinagre a arder! Os dois foram criados por D-us, e os dois executarão
a Sua vontade”. E assim foi. A luz no candelabro na casa
do Rabi Chanina ben Dossa ficou acesa até o final do Sábado,
quando utilizaram o seu fogo para acender a vela da Havdalá.
De fato, a essência e a beleza da mitsvá das velas
de Shabat é possibilitar à pessoa que a pratica
enxergar além das aparências e capas exteriores
do nosso mundo físico que ocultam a verdade Divina. Descobrir
como cada existência foi criada por uma Entidade Singular,
D-us, que está constantemente dando vitalidade a tudo.
Sentir e compreender que o objetivo de cada criatura, realidade,
fenômeno e ser humano é espelhar um pouco da bondade
e perfeição harmoniosa de Seu Criador.
O ano novo judaico 5765 vai se iniciar com três dias santificados
juntos. (Rosh Hashaná vai ser quinta e sexta-feira, seguido
por Shabat) Isso significa que mulheres judias ao redor do mundo
estarão acendendo suas velas de Iom Tov e Shabat três
dias consecutivos. O número três em judaísmo
representa uma “Chazaka” (direito de possessão).
Teremos mais dois ciclos de três dias consecutivos de acendimento
de velas de Iom Tov e Shabat com o início da festa de
Sucot e a festa de Shmini Atseret. É um total de nove
(número da verdade) momentos propícios para atrair
a luz e a verdade Divina para o nosso lar no início de
um novo ano.
A matriarca Sara, sobre quem o Todo Poderoso D-us aconselha ao
patriarca Avraham, na porção da Torá lida
no primeiro dia de Rosh Hashaná “Tudo o que Sara
lhe disser, escute sua voz”, vivia modestamente em uma
tenda abençoada triplamente com sinais especiais, precursores
dos milagres no Templo Sagrado. Uma das características
do seu lar foi que as velas de Shabat que ela acendia permaneciam
acesas a semana toda; as chamas da santidade nunca se apagavam.
A tenda de Sara não foi apenas o protótipo para
cada lar judaico, proveu a “planta” até mesmo
para o Templo Sagrado. O Templo foi uma mera reflexão
da santidade estabelecida entre o primeiro casal judeu, um lembrete
da verdadeira natureza do nosso lar.
No novo ano 5765, possa o nosso lar ser um lugar onde reine a
luz, a verdade e a paz Divina. Possa a nossa vela de Shabat iluminar
as nossas vidas todos os dias da semana e a Presença de
D-us pairar sobre nós, protegendo a todos e nos guiando
no caminho do bem.
Esta coluna é dedicada lilui nishmat para a ascensão
da alma da minha avó Ienta Braina bat Meshulam Zussia
* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky,
diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó, coordenadora
de programas educacionais e culturais, orientadora de pureza
e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas as idades.