Visão Judaica - Edição N° 25
:. Dreyfus cavalga pela França .:

Por:Pilar Rahola

Admiro a inteligência retórica de Chirac, tão hábil no jogo sutil dos enganos. Só um autêntico manipulador da palavra pode conseguir esses extraordinários efeitos visuais que escondem, distorcem ou, diretamente, transformam umas realidades em outras.

Presidente de um país belicista e diretamente relacionado com muitos conflitos abertos, fez crer ao mundo que liderava as forças da paz. Já sei que tinha a favor a notória estupidez de alguns líderes do pacifismo, tão dominados pela síndrome de Pavlov que babam só de perceber algum sintoma anti-americano. Mas, apesar disso e com a pesada de sua própria biografia na Argélia – muitas vidas viveu o premiê... – a mudança resultou num milagre. Da mesma forma, foi o principal acusador mundial da vilania ianque na “guerra pelo petróleo”, de forma que o monopólio francês sobre o petróleo iraquiano – que durante anos encheu os cofres da República – desaparecia por arte de Houdini. E, obviamente, ninguém se perguntava se os favores petrolíferos, prestados pelo Iraque à França, tinham alguma pequena relação com a ajudinha militar que a notória democracia de Saddam havia recebido do amigo francês. O que nunca considerado a versão “à francesa” da “guerra pelo petróleo”, que percorreu, como grito desgarrado, todas as gargantas profundas da Europa das manifestações.

Num de seus últimos passes de mágica, inclusive fez com que um ingênuo Zapatero acreditasse que a “boa Europa” é a que é liderada pela França, pai e mestre tutor da Espanha desencaminhada. Como se a França nunca tivesse feito favores a seu vizinho do sul! E agora chegou ao último golpe de efeito: a França é um país sensível à questão judaica em geral e ao anti-semitismo em particular. Por esse motivo, diante do chamado de Sharon aos judeus franceses para que emigrem, reagiu com a dureza que tamanha provocação merecia. “A França, anti-semita?” Onde se viu tamanha barbaridade? E, assim, com a conquista obtida nas batalhas da aparência, Chirac passa por pacifista, solidário, pró-espanhol, e inclusive pró-judeus, e as muitas culpas da República diluem-se no magma de uma imagem perfeitamente estudada e bem divulgada. Como era mesmo aquilo da mulher de César, que podia ser rameira, mas não podia parecer?

Se me perguntassem sobre o convite de Sharon, lhes diria que ele poderia ter sido poupado, sobretudo porque pode parecer mais um ato de provocação do que de preocupação. Mas o velho lobo israelense, que é mais esperto – e se a Europa não estivesse tão entretida criminalizando-o, já teria descoberto – lançou a flecha bem no ponto central do alvo; e ainda que os efeitos sejam complicados para a diplomacia, são muito úteis para a política. Com uma única frase, Sharon conseguiu situar no mapa o centro do problema:há um novo anti-semitismo europeu, crescente e violento; a França é o principal ninho onde repousa paciente o ovo da serpente (bem acompanhada da Espanha e da Bélgica); e a permanente demonização de Israel não está alheia ao fenômeno. Pelo contrário, por enquanto, a distorção jornalística sobre o Oriente Médio, a substituição da informação pela propaganda, é o esporte dominante do jornalismo europeu; a culpabilização de Israel, o elogio desmedido a um líder corrupto e violento chamado Arafat, e a minimização do terrorismo palestino são as bases do novo anti-semitismo. Um anti-semitismo que, por mais que o negue a França, ocasionou centenas de atos violentos em seu território.

Entendo que Chirac se ofenda, especialmente porque deve sentir-se igualado à França de Vichy quando o alcançam estas acusações. Pois bem: não entendeu – ou não quis entender nada. Sem dúvida, a França traz consigo um legado histórico pesado – apesar dos seus esforços para fazer o mundo esquecer que existiu o colaboracionismo francês e que milhares de judeus franceses foram enviados à morte. Da mesma forma que a bela Áustria, que fez crer que todo o país era a Família Trapp, também a França nos vendeu que tudo foi “la resistence”: sua boa má memória... Nada estranho no país mais anti-americano da Europa, apesar de ter enterrado em sua terra mais de 65.000 norte-americanos que morreram para salvá-la. Mas a denúncia de Sharon, a denúncia da ADL americana (Anti-Defamation League [Liga Anti-difamação]), preocupada com a onda anti-semita na Europa, e até a do Parlamento Europeu, através do relatório apresentado em Estrasburgo – e as muitas denúncias que há tempos alertamos a sobre a ameaça, não se dirige contra uma Europa ou uma França fascistas, mas contra uma Europa liberal, contudo anti-semita, o que não é a mesma coisa. Parecida mais, pois, à França correta e conservadora que condenou Dreyfus, do que à França de Vichy. Em um artigo inteligente no Jerusalem Post, Emanuelle Ottolenghi dizia o seguinte: À diferença do nazismo, que só oferecia a morte, “o anti-semitismo de igreja oferecia aos judeus uma saída: a conversão. O anti-semitismo liberal oferecia aos judeus uma saída: a assimilação. E a atual ofensiva do anti-semitismo relacionado a Israel também oferece aos judeus uma saída: o anti-sionismo”. Quer dizer, a dualidade povo judeu-Estado de Israel não só é desconsiderada como uma simbiose necessária, historicamente inapelável e justa, mas que é demonizada pela intelligentsia, contaminada com todo tipo de acusações demolidoras e convertida em exemplo de culpa judaica.
O problema da França é este: o clima Dreyfus que cavalga pelas aulas universitárias, em tantos cenários conhecidos, em tantas redações de jornais. Certamente retroalimentado pelo ódio anti-semita (este, sim, de base totalitária) que percorre os bairros árabes, mas articulado no seio da sociedade conservadora, ilustrada e ilustre. É um anti-semitismo de salão, progressista, politicamente correto e descomplexado, e que, inclusive, atua contra o anti-semitismo fascista, mas alimenta outro, ainda que inconscientemente. Por mais que Chirac se faça de ofendido, a responsabilidade da França na demonização de Israel é tão impressionante e grave como foi uma de suas famosas vergonhas históricas. Lembram dos 50 Mirage II pagos antecipadamente por Israel, que a França negou e os entregou à Líbia, em plena guerra de 1967? Certos passados contém monstros do presente...
O espírito de Vichy está enterrado e já não vaga pela Europa. Mas o espírito que condenou Dreyfus não só vigora, como está reforçado. E, no entanto, infelizmente entre os intelectuais franceses quase não palpita o espírito de Émile Zola. Por isso, senhor Chirac, não se faça de ofendido pois não nos enganará a todos...

* Pilar Rahola é ex-deputada no Parlamento espanhol pela "Izquierda Republicana Catalana" e vice-prefeita da cidade de Barcelona. Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão). Dirige o programa de entrevistas na TV espanhola. Além disso, participa de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática da mulher e da infância. Tem vários livros publicados em catalão e castelhano. Publicado originalmente em catalão no Diari Avui, em 22/7/2004, traduzido ao espanhol por sua própria autora, e para o português pelo jornalista Szyja Lorber.


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