Luto filarmônico

 

Como ser capaz de emitir respostas civilizadas às desenfreadas avalanches de fanatismo

Vittorio Corinaldi *

Quarta-feira, 16 de julho passado, foi um dia “sombrio” na consciência pública israelense. Após muitas semanas de enervantes negociações indiretas, a data foi fixada para a operação de troca de prisioneiros entre Israel e o movimento terrorista libanês Hezbolá.
Israel concordou em restituir prisioneiros que cumpriam penas por ações terroristas levadas a cabo em seu domínio — dentre eles o odiado autor de abominável atentado em Naharia (no qual foram assassinados vários cidadãos, entre os quais um pai e suas duas crianças), Samir Kuntar, condenado há quase 30 anos a prisão perpétua; mais um certo número de terroristas; e quase duas centenas de cadáveres de militantes guerrilheiros caídos no decorrer de ações punitivas do exército de Israel.
O Hezbolá devolveria em troca os soldados israelenses Eldad Reghev e Ehud Goldwasser, raptados na fronteira durante uma violenta ação bélica daquele grupo.
Durante dois anos, nada se sabia do destino que haviam tido os dois seqüestrados, e tudo levava a temer uma repetição do caso do piloto Ron Arad, desaparecido há 22 anos. E o Hezbolá fazia uso sistemático e cínico da sensibilidade israelense para com cada indivíduo detido dentre seus soldados ou civis, e nunca revelou nada sobre o estado em que se encontravam os dois prisioneiros raptados.
A natural ansiedade dos familiares e do público israelense em geral, e a latente esperança de poder restitui-los em vida, levava Nasralla (o líder islamo-fascista do Hezbolá) a jogar macabramente com boatos e fragmentos de informação, para conseguir um “preço” cada vez maior pela conclusão das negociações.
Até o momento em que a operação foi efetivamente iniciada, ainda não se sabia o que Israel iria receber. E a cruel revelação foi divulgada pela televisão libanesa, numa ostensiva contradição com o espírito de reserva e austeridade que Israel teria desejado dar à circunstância: antes que se pudesse transmitir, com senso de apoio e solidariedade aos familiares em tensa expectativa, a TV libanesa focalizou os dois caixões fúnebres em que os soldados raptados estavam sendo transferidos.
O assassino Kuntar foi recebido e aclamado do lado libanês como herói, e imediatamente se lançou em pronunciamentos cheios de ódio por Israel, eficientemente orquestrados e ecoados pela propaganda xiita e transmitidos pela sua TV.
As operações de troca e conseqüentes desenvolvimentos prolongaram-se pelo dia afora e pelos dias seguintes, e continuam a imprimir um marco de amargura, frustração e mesmo velados desejos de vingança em boa parte da população de Israel, já de-per-si perturbada pelas insistentes notícias de casos de corrupção ligados ao governo e ao primeiro-ministro, e pela instabilidade política que dela decorre.
Mas o pesar generalizado encontrou também outras formas de expressão, condizentes com o caráter de humanidade e respeito que é próprio da melhor cultura judaica — bem diferente do barulhento e venenoso derrame de ódio, vulgaridade e preconceito que impregnam todo o comportamento árabe-libanês.
Sobre uma destas formas de expressão pretendo me deter a seguir.
A Orquestra Filarmônica de Israel é sem dúvida um dos símbolos atuantes da vocação pacífica e moderada do país. Seu público se compõe, na maioria, de assinantes e fiéis simpatizantes, que preenchem as numerosas séries de concertos que invariavelmente lotam o Auditório Mann, sua excelente e despretensiosa sala de concertos.
O programa dos concertos é estabelecido com muita antecedência, tendo que levar em conta agendas e compromissos de regentes e solistas.
Na data citada de 16 de julho estava no programa, sob a direção de Zubin Mehta (o prestigiado vitalício diretor musical da orquestra), a Cantata nº 140 de Bach, e o “Serviço Sagrado” de Ernest Bloch. Este último é uma admirável, majestosa e comovente peça de Liturgia Judaica, que por ela se eleva a alturas de universalidade pouco comuns em nossa tradição religiosa — normalmente avessa a manifestações de expressão estética e emotiva como se encontram na arte cristã.
O acaso da inclusão dessa obra no programa nesse dia, não podia ser mais significativo: a mensagem de fé e louvor a D-us, e por conseqüência de esperança, tolerância e dignidade humanas nela contida — respondia plenamente ao espírito e aos anseios que o dia de luto englobava. Zubin Mehta o assinalou nas palavras com que, antes do início da execução da obra, se dirigiu ao público com frases de comemoração e com o convite a um minuto de silêncio, que foi acatado pela platéia em pé e em dignificante absoluta imobilidade.
Não é este um acontecimento excepcional em Israel: quem aqui esteve em alguma das ocasiões anuais do Dia do Holocausto, ou do Dia da Memória que antecede o Iom Haatzmaut, conhece o dramático instante de recolhimento objetivado numa total parada de atividade e tráfego anunciada pelo toque das sirenas. e nesses momentos de memória, o sentimento de angústia e dor; a recôndita constante pergunta do “porquê” diante das injustiças e sofrimentos de nossa história — se associam a um mudo e anti-retórico orgulho de ser parte desta nação e deste povo, que é capaz de opor respostas de civilização às desenfreadas avalanches de fanatismo e às tragédias incontáveis que pavimentam nosso caminho.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto formado na FAU-USP e vive em Tel Aviv, Israel.