No judaísmo não há ninguém maior do que Moisés. Chamado de “nosso mestre”, Moshê Rabeinu, não foi apenas um hábil diplomata que tirou o seu povo da escravidão do Egito e foi capaz de reconduzi-lo à Terra Prometida. A expressão Moshê Rabeinu indica que em Moisés há algo a mais que o distingue de um herói libertador.
Conta-nos a Torá que Moisés foi amamentado por mulher hebréia e criado pela filha do faraó. Cresceu e viveu como um egípcio. Não sabemos se ele tinha a consciência de que era hebreu, embora um midrash afirme que Moisés tinha conhecimento disso. Seja como for, ele, um dia, ao ver um egípcio maltratando um escravo hebreu, não hesitou, matou-o e o escondeu na areia. Na cena seguinte, o texto da Torá nos conta que Moisés ficou indignado ao ver dois escravos hebreus brigando. Ele, então, disse ao que batia: Por que tratas assim o teu próximo? – Os que brigavam o denunciaram pela morte do egípcio, ocorrida no dia anterior. Moisés, então, para não morrer, se refugiou no deserto.
Moisés agiu diante de situações como: injustiça, abuso da condição social, individualismo, falta de respeito ao próximo. Não admitiu que alguém, hebreu e ou escravo, fosse tratado com indignidade. E, também, não aceitou que dois, na mesma condição de escravo e de origem, não se respeitassem como iguais. Essas atitudes já justificam Moisés ser é chamado de “o nosso mestre”.
No dia seguinte ao do assassinato de Itzak Rabin havia uma tristeza imensa na expressão de cada pessoa. Era mais do que tristeza, era, ao mesmo tempo, a expressão da indignação e da vergonha. Não poderia ter sido diferente, havia morrido um líder e, pior, um judeu matou um outro judeu.
Durante a inquisição espanhola, alguns judeus convertidos ao cristianismo, para conquistar confiança das autoridades cristãs, delatavam outros judeus. Não havia, entre a comunidade hebraica, traição maior. E, certamente, em outros momentos difíceis da história judaica houve alguém que, como os brigões do Egito delataram a Moisés, também delataram seus irmãos. Para Rashi, o grande comentarista da Torá, o fato de dois hebreus e escravos, pessoas nas mesmas condições, brigassem entre si em lugar de se unirem na desgraça era motivo de pecado e da escravidão de Israel.
Moisés se opôs à situação de pecado. Seu caráter ético e seu profundo sentimento de respeito humano deixaram lições que perduram no espírito do povo judeu. Temos exemplos de muitos que agiram e agem com absurda fidelidade e compromisso com seu povo, preocupando-se com cada pessoa ou com a qualidade da vida comunitária. Mas, se, infelizmente, existem maus judeus, os valores ensinados por Moisés, os condenam.
O mestre libertador, mesmo antes de receber a Torá no Sinai, já a vivia. Sua atitude, diante dos dois casos que relatei acima, prefigura a maior de todas as mitzvot (mandamentos): “vê ahavetá lereacha kamocha”, e amarás a teu próximo como a ti mesmo. Para Hillel esta mitzvá é síntese de toda a Torá.
Moisés é mestre porque deixou de herança, por seu exemplo de vida, valores humanos de insuperável valor, fundamentais nas relações interpessoais e comunitárias. A preservação desses valores permitiu aos judeus superarem os momentos mais trágicos da sua história. São eles, também, que fortalecem e dão qualidade à vida comunitária. Moisés, por sua vida, recebe o título de “rabeinu”, nosso mestre, e com toda justiça.
* Antônio Carlos Coelho é professor universitário, escritor, diretor do Instituto de Ciência e Fé e colaborador do jornal Visão Judaica.