Conforme nos dizem, “sionismo é racismo” e “Israel é um Estado com regime de apartheid”. Realmente, os proponentes do pluralismo cultural são muito cuidadosos ao prestar atenção e tomar suas notas. “Os sionistas estão pisoteando e destruindo vários costumes dos árabes palestinos que, sem sombra de dúvida, contribuem para a riqueza do leque da cultura humana”. Tomemos como exemplo a escravidão, um rico traço cultural eliminado pela “dominação Sionista da Palestina”.
A prática de escravizar os africanos tornou-se ilegal no mundo ocidental durante o século 19, mas no Oriente Médio, sob o domínio turco otomano, ela continuou a ser praticada até recentemente, e na área que posteriormente seria denominada Palestina havia uma sociedade baseada no apartheid entre senhores e escravos. Quando o Império Britânico colonialista, apoiado pelos "malévolos sionistas", entrou na área e geograficamente redesenhou o antigo Império Turco Otomano, ele desencorajou e tentou acabar com a escravidão. No entanto, seu fim real só chegou com a Nakba (a forma como os palestinos denominam a independência de Israel, "catástrofe" em árabe), em 1948, que acabou com este encantador costume dos árabes palestinos. Na Arábia Saudita o pitoresco e o démodé costume da escravidão, que tantos romances gerou por todo o mundo, só foi abolido em 1961 sob a pressão dos imperialistas americanos. Sem dúvida, a consciência de cada humanista deve estar chocada pelo ataque flagrante de uma potência imperialista contra a cultura e a sociedade de outro povo.
O fim desta elegante sociedade ainda é chorado por aqueles que odeiam o fato de haver existido um Mandato Britânico na Palestina e o subseqüente assentamento sionista na Terra de Israel. Vale lembrar que, se os britânicos criminalizaram a escravidão no final de século 19 e início do século 20, os judeus já se opunham a esta forma de opressão desde a história bíblica da Páscoa (Pêssach), que celebra a libertação dos judeus escravos no antigo Egito.
A palavra empregada para designar africanos em geral é “abed”, expressão que significa, literalmente, “escravo”. Também havia a escravidão branca, mas os escravos brancos e os negros eram mantidos em separado, e havia uma escala de inferioridade para os escravos africanos. Muitos dos descendentes destes escravos vivem hoje como beduínos no Negev e como “palestinos” em Gaza. Até hoje, há uma regra social de que eles não podem se casar com os descendentes de seus proprietários “brancos”.
Esta descrição da escravidão africana na Terra de Israel mostra que, embora os africanos vivam há séculos na Palestina, a maioria das pessoas nada sabe sobre esta migração forçada. Durante séculos, seja antes ou durante o período do Império Turco Otomano os árabes capturavam, compravam, e vendiam escravos africanos. Alguns descendentes destes escravos, pessoas velhas, lembram-se de histórias contadas por seus pais ou avós sobre como vieram parar na Palestina. Através de seus relatos é possível conhecer algo sobre a história recente da escravidão na área. Vários deles dizem que havia um enorme mercado de escravos no Egito, e um beduíno branco disse-me que seu avô havia sido um traficante de escravos que viajava regularmente ao Egito para comprá-los e revendê-los aos árabes palestinos. A maioria destas pessoas, que têm idéia de onde vieram seus ancestrais, mencionam o Sudão e a Etiópia como seus locais de origem, e muitas vezes eles sabem até os nomes das cidades de onde vieram. É provável que a maioria dos africanos tenha realmente vindo deste países, tendo em vista sua proximidade com a Palestina. No entanto, uma das mulheres idosas com as quais conversei, disse-me: “Nós dizemos Sudão porque na verdade não sabemos de onde viemos, e Sudão significa “lugar do povo negro”. Tanto podemos ter vindo de lá quanto do Congo!“. De acordo com os livros de história, os mercadores de escravos faziam uma distinção entre os etíopes (Habash) e os demais africanos, tais como os Zanj oriundos da costa leste da África. Em sua maneira racista de pensar aqueles árabes consideraram os etíopes superiores aos demais africanos.
Em Gaza entrevistei pessoas de origem beduína que vivem no Negev/Nagab desde antes de 1948, a data da independência de Israel. Conversei com beduínos de ascendência escrava africana que decidiram permanecer na área após a independência, e em Gaza encontrei com negros de Al Rubayn Ashira, beduínos já sedentarizados na região em torno de Jaffa antes de terem sido convencidos pelos árabes a deixar suas aldeias como refugiados “árabes” em 48; e eles disseram não haver conexão entre os beduínos do Negev e os “refugiados”, e que seu nome era derivado de Nabi Rubooyn que há milhares de anos usava um poço perto de sua região de moradia.
Estas pessoas idosas de origem escrava negra que viviam entre os beduínos, atualmente residindo em Gaza e no Negev lembram-se de que seus anciãos contavam sobre como na África as crianças eram capturadas ou compradas no mercado de escravos, e eram levadas dentro dos samburás pendurados nos camelos para viver como escravos de importantes famílias beduínas brancas. Isto ocorria no final do século 19 e no início do 20. As crianças eram frequentemente os únicos africanos a viver junto às famílias árabes, e tinham que tomar conta dos animais, plantar e colher trigo e cevada, e cuidar dos afazeres domésticos. Disseram-me que os beduínos não tomavam as meninas como concubinas, embora na área da Margem Ocidental [do Jordão] eles se unissem às escravas. Apenas as famílias grandes e ricas possuíam e mercadejavam escravos. Os negros eram divididos ao longo da Palestina, vivendo com as famílias brancas que os “possuíam”. No entanto, apesar dos adultos serem usados em trabalhos no campo e junto aos animais, algumas famílias, quando pequenas em número de membros, necessitavam da ajuda dos escravos para ajudá-los a se defender de atacantes. É possível que ainda no século 20 prisioneiros tenham sido trazidos da África vendidos como escravos na área. Um velho reportou que em sua juventude ele viu escravos africanos que eram fortes, que tinham marcas tribais [escarificações] em suas faces, e que falavam muito pouco árabe.
Um beduíno “branco” contou-me que os escravos costumavam ser marcados como os animais, mas que não existiam documentos sobre sua origem ou de quem eram propriedade. Nas unidades familiares também existiam escravos brancos, ou dependentes de status baixo, como os “haram” [significa mal ou fezes], mas um outro homem contou-me que um escravo branco jamais obedecia a um escravo negro.
Algumas das crianças africanas eram educadas com as da família, e quando as crianças cresciam seus donos arrumavam seus casamentos. Eles nunca eram casados com escravos brancos, mesmo que os brancos também fossem escravos. Como não havia muitos negros disponíveis, o casamento significava a transferência da menina para longe da residência do seu dono. As pessoas reportam também que ao se tornarem adultos, os escravos podiam escolher se tornarem livres [mas sem status dentro da sociedade árabe] ou permanecer ligados à família que os possuía, a qual então tratava de seu casamento. Este costume já estava em declínio quando se iniciou o Mandato Britânico após a I Guerra Mundial.
Os beduínos do Negev têm um sistema social e político tripartite. Os xeques são escolhidos entre os samran, os beduínos originais; ligados a eles como clientes estão os haram, originários de famílias camponesas que no passado pagavam taxas de proteção aos beduínos para não serem por eles atacados; e finalmente, o nível inferior, os abed, os escravos que não possuíam o mesmo status que os demais. Por exemplo, até hoje os descendentes de escravos não são contados nas brigas entre famílias beduínas, se um branco matasse um negro, a morte do branco não era exigida como pagamento (sulha), isto era resolvido com a entrega de um escravo de boa estatura ou em dinheiro. Se um negro matasse um branco, a família do morto poderia matar os seus “donos”. Recentemente, em Rahat, no Negev, um rapaz negro fugiu com uma moça branca e, quando eles foram encontrados a família matou a moça, mas o rapaz sobreviveu e posteriormente casou-se com uma negra.
Sob o sistema antigo os escravos não podiam sentar no shig na mesma altura que seus donos, e esta prática ainda é observada em vários locais, tendo os negros a função de servir chá e café para os brancos. Um homem contou-se que havia alguns shigs aos quais ele não ia porque assim que ele chegava perguntavam a que família ele “pertencia”, embora em outros shigs isto não aconteça, como por exemplo, em um shig de Gaza onde a chefia é de um xeique negro, e os brancos são os responsáveis por servir chá e café.
Em algumas áreas a escravidão como forma de vida persistiu até os anos 50. Um homem negro (sumr) que veio do Egito para a Palestina como trabalhador-migrante foi preso durante a Guerra de 1948. Ele lembra como era a vida dos negros ligados ao Al Huzail. Ele trabalhava nos pomares perto de Rishon [le Tzyion] com outros negros de Abu Barakat, e quando a guerra eclodiu, eles fugiram de volta para sua área de moradia em Al Huzail, onde hoje se encontra Rahat. Quando ele lá chegou encontrou outros negros trabalhando no plantio de trigo para Al Huzail, e eles recebiam água e, quando pediam para algum propósito especial, dinheiro. Senhores e escravos viviam separadamente em tendas pretas, não havia inter-casamento nem concubinato. O egípcio dormiu na tenda do chefe e trabalhou como pastor de seus animais, mas não recebia salário, e o xeique fez seu casamento com uma moça branca de Gaza. Em 1952, já sob o controle de Israel, foi efetuado um censo local e a escravidão como instituição praticamente já não mais existia.
Não é realmente uma pena que os sionistas tenham abolido a escravidão na Palestina, tal qual aboliram a tracoma [cegueira], malária e o tifo? Ah, que saudade dos velhos tempos que não voltam mais!
“Havia uma terra de cavalheiros e oliveiras chamada Palestina. Aqui neste mundo bonito a galanteria fez sua última aparição. Aqui se viu os Efendis [turcos] e as feiras de escravas para seus haréns, os senhores e seus escravos. Veja-os hoje em livros, não são mais que um sonho de uma civilização que o vento levou”.
Aqueles que ainda choram pela perda destes costumes, que insistem que “Sionismo é racismo” e que “Israel é um Estado baseado no apartheid”, podem confortar-se com o pensamento de que a poligamia e os assassinatos de honra ainda não conseguiram ser eliminados pelos sionistas. Sem dúvida, quando a Nakba de 1948 acabar e os árabes da Palestina retomarem seus direitos, os nobres costumes dos tempos gloriosos serão restaurados.
* Amir Isseroff é editor do site MidEastWeb for Coexistence (www.mideastweb.org). O original em inglês está publicado no site Zionism-Israel.com (www.zionism-israel.com) desde 7/4/2008. Tradução de Sonia Bloomfield.