E D-us criou o Mundo em seis dias e no sétimo descansou. Esse é um pilar do Judaísmo
Segundo Maimônides esta crença chega ao patamar de um quase dogma nos treze preceitos. Respeito e reverencio o sábio rabino cordobês, mas prefiro fazer deste trecho da Revelação uma interpretação simbólica. A Criação tem sido tema de debates entre os criacionistas que fazem uma leitura literal do texto e tentam adequar as descobertas científicas à Revelação e no lado oposto os evolucionistas que a partir de Charles Darwin e das descobertas de fósseis e ossadas de hominídeos contestam a Revelação negando-a de maneira absoluta. Este debate faz com que se tomem posições radicais: ou se nega a Ciência; ou se nega a Revelação; ou se mistura de maneira artificial e forçada a Ciência com a Religião. Misturam-se dois elementos necessários e úteis ao entendimento do Homem na sua busca de verdades absolutas. O ser humano pensante e racional quer entender a razão de sua existência: de onde veio antes de nascer e para onde vai depois de morrer? São perguntas inerentes à existência humana e sem resposta clara, definida e segura. Exigem o uso da sensibilidade, da espiritualidade e da imaginação. Demandam leituras simbólicas e não racionais.
Sempre se tentou mesclar filosofia e teologia, ciência e religião. O melhor exemplo vem do final do Mundo Antigo. A Cristandade tentou articular uma concepção de mundo ampla e absoluta que conseguisse explicar e conciliar as contradições entre a Fé e a Razão. Numa certa fase se fez uso da obra de Platão, reciclada pelos filósofos pagãos e denominada Neoplatonismo, que era muito forte nos séculos iniciais da Cristandade. Essa doutrina teológico-filosófica foi inserida no pensamento cristão e expurgada de seus elementos pagãos, num “remake” de Platão e dos neoplatônicos sob uma vestimenta cristã. Mais tarde, a doutrina neoplatônica foi também agregada ao Islamismo nas escolas orientais sob os Califados de Damasco e de Bagdá. O Judaísmo teve também seus pensadores influenciados pela mesma doutrina. Conciliar Fé e Razão é uma constante das sociedades ocidentais e uma obsessão das religiões.
Proporei um outro olhar. Se a Revelação é uma manifestação divina, ela foi filtrada pelos seus “receptores”. Moisés e os profetas, por exemplo, eram mortais, carnais e repletos de fraquezas e dos defeitos comuns aos seres humanos. Não fizeram uma preparação prévia para receber tão profunda e mística Revelação divina. Foram intimados por D-us e quase que forçados a receber e transmitir a assim denominada “palavra de D-us”. Os Profetas geralmente não anotaram as Revelações, mas sim as repassaram oralmente sendo anotadas apenas alguns anos mais tarde e editadas ainda depois. Assim afirmar que cada ponto e cada vírgula são mágicos é extrapolar sua essência. Fazer a leitura da Revelação e criar interpretações radicais e dotadas de verdades únicas e absolutas é negar a essência da Revelação: os textos sagrados são e sempre foram simbólicos, dotados de uma diversidade de perspectivas interpretativas e de uma gama ampla de opções de entendimento.
Revelação é a um só tempo, de um lado, um diálogo entre D-us e o Homem e de outro, da inspiração que emana do Criador à criatura. Trata-se de forma alegórica de poesia. Poesia não no seu sentido trivial e burlesco. O Homem busca o entendimento de sua existência e a Revelação é a poesia que ilumina sua pergunta e inspira sua resposta.
Por que existe o Fundamentalismo? Sempre existiram pessoas radicais e fanáticas, mas num olhar coletivo e institucional a razão de ser da radicalização e da coerção das pessoas a seguirem verdades únicas e absolutas é o controle social. A Religião e a palavra Revelada servem de esteio para uma gama de más utilizações que extrapolam a sua motivação inicial. Na nossa compreensão, baseando-nos em Erich Fromm, o texto bíblico, por exemplo, foi inspirado e escrito no intuito de dar continuidade ao processo de libertação iniciado no Êxodo. Ordenar a sociedade e organizá-la de maneira adequada, com normas e regras, se fazia necessário. Gerar uma hierarquia e organização da sociedade para gerar o “bem comum”, ou seja, a paz social. Tudo isso em prol da libertação do Homem e da ordenação social: as leis divinas ou humanas serviriam para organizar a sociedade e libertar o ser humano, a um só tempo.
O Fundamentalismo é e sempre foi um mecanismo autoritário de manutenção do poder e domínio sobre a sociedade, não direcionado no intuito do bem da comunidade, mas sim de um rígido controle social. Faremos uso de Baruch Spinoza (1632-1677), filósofo judeu de origem sefaradita, que foi excomungado por suas idéias. Ele é autor de vasta obra. Numa delas denominada ”Tratado Teológico-Político”, Spinoza inicia a moderna crítica bíblica. Traça uma linha separadora da filosofia e da teologia e demonstra que através da história, a análise da Revelação permitiu que governantes se outorgassem “direito divino” (reis sagrados e divinamente escolhidos) e a Igreja se apresentasse como a representante de D-us na Terra e a única autorizada a interpretar as Escrituras Sagradas (ou seja, a Bíblia).
Isso não muda no seio do Judaísmo. Algumas correntes religiosas se outorgam a única e válida interpretação da Torá e negam a validade de demais correntes ou vertentes judaicas. Isso gera prepotência de certos setores que se crêem com dotados da verdadeira interpretação e leva a uma divisão no seio da religião, que até há pouco tempo era discriminada e por vezes hostilizada e perseguida pelos não-judeus.
No Islã temos atitudes por vezes mais radicais. O fundamentalismo islâmico tem gerado reações agressivas ao Ocidente, através de terrorismo. E as sociedades que adotam estas concepções islâmicas fundamentalistas geram um controle social muito extremo controlando desde a vestimenta até a opinião e o pensamento de seus cidadãos. Trata-se de uma modalidade social que inibe e até reprime pela força determinados direitos humanos, benquistos por nós, ocidentais, tais como a liberdade de opinião, de imprensa, de fé e os direitos das mulheres. Tudo em nome da fé e da Revelação. Tudo se baseia na interpretação do texto revelado de maneira a servir grupos de clérigos que querem manter a sociedade sob controle. D-us deixa de ser o Criador e Libertador do ser humano, para ser o inspirador da coerção e da repressão ampla, geral e irrestrita de seus direitos e de sua humanidade.
Em vista disto propomos mais abertura e respeito pela diversidade e pelas diferentes interpretações do mundo. No nosso olhar específico cremos que um texto como o da Criação pode ser visto de maneiras multifacetadas. Quem quiser entenda-o literalmente e explique as origens através dele. Quem quiser pode tentar conciliá-lo com o Big Bang e com a evolução, aliás, gesto comum entre muita gente que insiste em juntar Razão e Fé. Admito que se trate de um artifício criativo e possível, mas não me convence.
Eu acho que o texto da Criação é filosófico e poético. Dá margem a muitas possibilidades interpretativas: rico em símbolos e repleto de sensibilidade. Através dele já se reduziu a mulher a uma condição de inferioridade e submissão ao Homem no Patriarcado. Em artigo já publicado no Visão Judaica já critiquei esta visão e propus uma releitura.
Vemos nele uma lição de ética, de justiça social e defesa da dignidade humana. Na próxima edição tentaremos reler o texto e oferecer mais uma vertente interpretativa deste legado espiritual e cultural da humanidade.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.