Da guerra em Gaza para um hospital em Israel
Hana Beris *


Tawfiq, Abdallah e Adel dividem a mesma casa e vivências similares. Três palestinos, quase da mesma idade, chegados da Faixa de Gaza, pela primeira vez em sua vida, ao Estado de Israel. Mas não para fazer turismo nem tampouco para trabalhar.
Eles são três dos vários palestinos feridos nos combates na guerra interna entre o Fatah e o Hamas, que pela seriedade de suas feridas, foram internados no hospital Barzilai da cidade sulista de Ashkelon. Todos sustentam que foram baleados por membros do Hamas. Mesmo assim, os familiares que os acompanham alegam que aqui há um cenário incisivo de "bons" e "maus".
"Ambas as partes cometem um grave erro e sujam o nome do Islã" — diz Abdel Hamid Awda (53), o pai de Adel, que afirma sentir uma dor especial porque ele mesmo é religioso "desde criança". Conta que seu filho é policial, “mas acabou ferido quando foi socorrer uma jovem que havia sido ferida numa casa atacada pelo Hamas". 
Também Ahmed Lubad, pai de Tawfiq, diz que tem certeza de que a culpa "é de todos, as duas partes, porque não lhes importa o povo, continuam disparando e nós estamos no meio do fogo". Seu filho, que é o único paciente do quarto que sorri, mesmo quando conta que terminou seus estudos há poucos meses e espera, logo, começar a trabalhar.
Mas o sorriso vai embora quando recorda o que aconteceu: "Membros do Hamas atacaram a casa de um vizinho e saímos todos para ajudar, estávamos no meio do fogo. Quis ajudar uma mulher que estava ferida e um sujeito do Hamas me disse que eu fosse embora. Expliquei que não faria nada a ele, que nem sequer estava armado, mas reiterou que eu tinha que ir embora, que ia contar até três e eu teria que desaparecer. Eu não fui embora e ele disparou uma rajada de balas contra minhas pernas".
Tawfiq acrescenta que "não sou nem do Fatah nem do Hamas e cada parte pensa do seu modo, mas o terrível é que irmãos estão se matando".
Só Rafat, o irmão mais velho de Abdallah Shalail, diz de forma categórica que "nos atacaram em casa, porque todos sabem que somos do Fatah". Ainda que sorrisse muito mais que os outros, sua mensagem é dura. "Enquanto o Hamas estiver no poder, não haverá paz, porque decidiram que ou você está com eles ou você não está e pode morrer".
Abdallah quase não quer falar. Tem fortes dores. As cicatrizes ainda não totalmente fechadas de suas feridas cobrem-lhe várias partes do corpo: na frente, um braço e o peito. Conta que também no ombro e nas pernas. As têm estendidas e enfaixadas.
Uma enfermeira entra no quarto e traz um andador para Adel, para que procure caminhar. Está há dias no "Barzilai" e é evidente que lhe custa mover-se. Faz caretas de dor cada vez que tenta. Seu pai alcança-lhe uma bandeja com a comida, mas ele permanece parte do tempo com a cabeça apoiada Numa das mãos. Não aceita falar.
Seu pai fala com uma firmeza que de fato, supre pelos dois.
"Nós os palestinos não merecemos um Estado próprio. Nunca mostramos ser dignos de tê-lo. Quando se mata os vizinhos ou um parente de outra familia do mesmo clã, quer dizer que nada poderá ser ganho. Estávamos melhor antes, quando não havía governo palestino".
Pacientes palestinos não são um fenômeno novo no "Barzilai". Vêem todos os anos, tanto em situações de urgência como para receber tratamentos por diversas doenças. O dr. Shimon Sherf, diretor do hospital, observa que "para mim todos são feridos e temos que tratá-los de acordo com suas necessidades, sem que importe em absoluto de onde vêem".
Sobre a paz com os palestinos têm suas ideáis, mas prefere não entrar em política. O vice-diretor dr. Ron Lobel, entretanto, não se opõe em dizê-lo." Não tenho nenhuma dúvida de que a maioria dos palestinos quer o mesmo que nós, trabalhar, estar com seus filhos e viver em paz. Isso é o que quer a gente toda", afirma.
“Mas primeiro” — e isso dizem os próprios palestinos — “terão que obter, em Gaza, a paz interna”.

* Hana Beris é o pseudônimo da jornalista uruguaia-israelense Ana Jerosolimsky, coprrespondente da BCC e do jornal El Tiempo, da Colômbia.