Esperanças para o Ano Novo
Breno Lerner *



No dia 7 de novembro de 1807, há 200 anos, D Maria I, rainha de Portugal, sua família e sua corte embarcaram para o Brasil, fugindo das agruras que a ameaça da invasão napoleônica provocava.
Esperava a corte reconstruir sua vida e sua força no Brasil e poder voltar à sua terra, passadas as ameaças.
A vinda da família imperial foi uma ruptura abrupta, motivada por forças além de seu controle e pela esperança de, passado o tempo, retornar.
Passado o tempo... A passagem do tempo e sua contagem são uma das mais fascinantes invenções do homem. Poder zerar o tempo a cada ano novo, esperando mudanças e tempos melhores no ano vindouro, chega a ser mágico!
Os judeus reservam 10 dias para que expiemos nossos pecados e, numa franca conversa com o Criador, tenhamos a chance adicional do perdão e da inscrição no livro dos vivos.
Para todos os nossos ascendentes, que como a corte portuguesa, tiveram de abrir mão de suas vidas para tentar a felicidade em um novo local, a imigração foi uma espécie de gigantesco ano novo em suas histórias pessoais.
Foi como entrar numa sinagoga no Rosh Hashaná e de lá saírem perdoados e prontos para uma vida nova. Para a maior parte foi efetivamente tirar os seus nomes do livro dos que vão morrer e colocá-los no livro dos que vão viver.
Se contarmos toda a América Latina, vieram pouco mais de 1 milhão de judeus para o ano novo de suas vidas. Aqui a maioria progrediu, adaptou-se, criou raízes e descendentes que hoje ocupam parte proeminente das sociedades dos países que os acolheram.
Em suma, foram perdoados e agradeceram por seu perdão com vidas dignas.
Neste Rosh Hashaná, minha homenagem a estes corajosos. Uma receita que mostra bem a adaptação de costumes europeus e ingredientes americanos, uma completa reinvenção do tradicional Tzimes.

Carbonada Criolla
Esta receita vem de nossos "hermanos" argentinos.
Os judeus iniciaram as grandes imigrações para a Argentina no final do século XIX, incentivados pelos programas do Barão de Hirsch, que queria desenvolver suas terras na região dos Pampas.
Este banqueiro belga tinha legítima preocupação com os judeus russos, bastante perseguidos na época e fundou a Jewish Colonization Association, que não só levou judeus para a Argentina como para o Brasil, nas famosas colônias de Philipson (1903), Barão Hirsch (1926), Baronesa Clara (1927) e, mais tarde, Rio Padre e Pampa.
Na nova terra, os imigrantes receberam lotes de 25 a 30 hectares, com uma residência, instrumentos agrícolas, duas juntas de bois, duas vacas, carroça, cavalo e sementes, a um preço de cerca de cinco contos de réis, a serem pagos em prazos de 10 a 15 anos.
A grande novidade para estes imigrantes, além da liberdade, era a abundância de carne, quase inexistente em seu cotidiano.
Esta receita mistura a tradição do Tzimes bessarábio com a Carbonada argentina.

1 abóbora moranga grande;
¼ xícara de margarina vegetal;
3,5 kg de carne para cozido cortada em cubos de 2x2 cm;
2 colheres de sopa de óleo;
2 xícaras de cebolas picadas;
4 xícaras de caldo de carne;
1 kg de tomates sem casca e sementes bem picados;
1 colher de chá de orégano;
3 batatas doces grandes sem casca e cortadas em cubinhos;
3 cenouras grandes cortadas em rodelas grossas;
24 ameixas pretas sem caroço;
8 metades de pêssego em calda escorridas.

Lave bem a abóbora, corte uma tampa de aproximadamente 15 cm de diâmetro, retire-a e limpe por dentro retirando sementes e fibras. Passe a margarina por dentro e por fora da abóbora. Tempere com sal e pimenta do reino e leve-a ao forno por aproximadamente 30 minutos ou até começar a amolecer. Não deixe amolecer demais. Reserve. Enquanto isto, em uma panela grossa frite a cebola no óleo até dourar, acrescente a carne e doure-a bem de todos os lados. Tempere com sal e pimenta do reino à gosto. Adicione o caldo, os tomates e o orégano e cozinhe tampado por 15 minutos. Coloque então as batatas e as cenouras e cozinhe por mais 15 minutos. Por último, adicione as ameixas e os pêssegos e cozinhe por mais 5 minutos. Atenção, em todas as fases do cozimento chacoalhe a panela para não grudar, mas nunca mexa, pois batatas e cenouras podem se desfazer.
Encha a abóbora com o cozido de carne, coloque a tampa da abóbora e leve ao forno alto por mais 15 minutos.
Sirva imediatamente.

* Breno Lerner é editor e gourmand, especializado em culinária judaica. Escreve para revistas, sites e jornais. Dá regularmente cursos e workshops. Tem três livros publicados, dois deles sobre culinária judaica.