O que querem, afinal, os palestinos?

Bradley Burston *


 

Será que os palestinos querem, de fato, um Estado? À primeira vista, a indagação parece absurda. O povo palestino manifestou seu intenso anseio por um Estado independente desde o dia, seja qual tenha sido, em que tornaram-se o povo palestino. De fato, até recentemente, parecia que quase o mundo inteiro - a Europa Oriental e Ocidental, toda a Ásia e a África, e muitas das nações das Américas, todo mundo - isto é, exceto EUA e Israel, desejava que houvesse uma Palestina independente.
Com o tempo, até mesmo Israel e Washington passaram a compartilhar a mesma posição. Numa reviravolta surrealista, em 2003, Ariel Sharon anunciou seu apoio ao plano de "roteiro para a paz", patrocinado pelos EUA, que planejava, embora não tenha concretizado, um Estado palestino independente em 2005.
No entanto, ao mesmo tempo em que Sharon forçava a aceitação do roteiro para a paz por seu gabinete, a causa da criação de um Estado palestino estava sendo minada - e pelos próprios palestinos. Eles operaram contra sua própria causa com uma obstinada autodestrutividade, digna dos terroristas suicidas mais movidos a hormônios.
A insurreição que pretendia ter sido a guerra de independência palestina transformou-se num desastre, tanto no plano diplomático como militar.
Embora conscientes da irresistível imagem de um Davi contra Golias na mídia, criada pela primeira Intifada - quando crianças armadas apenas com pedras enfrentavam tanques -, os palestinos conseguiram, em questão de meses, desperdiçar a boa vontade do mundo.
O recurso imediato a armas de fogo, a brutalidade de ataques como o do assassinato, por um franco-atirador, de um bebê de 10 meses, a crueldade do esmagamento dos crânios de dois meninos de 14 anos com grandes pedras, o horror indiscriminado de bombas vitimando ônibus urbanos, explosivos numa reunião familiar da Páscoa, famílias inteiras dizimadas num restaurante à beira-mar onde judeus e árabes relacionavam-se não apenas como iguais, mas como amigos - tudo isso continuará a manchar a imagem dos palestinos por muitos anos.
Os membros da brigada Al Aqsa abandonaram a tradicional distinção feita pela Fatah entre a fronteira de 1967 e os territórios, abraçaram cada vez mais a posição do Hamas e da Jihad segundo a qual toda a Palestina era una e indivisível, e segundo a qual o termo ocupação aplica-se também a Tel Aviv e Haifa e a Jerusalém Ocidental.
Mas isso foi apenas o começo. A Intifada também trouxe à impiedosa luz a profundidade e amplitude da má administração e corrupção em nível mundial da velha guarda da Fatah. O fato de Yasser Arafat não ter assumido qualquer iniciativa para eliminar a corrupção foi pelo menos tão alienante para os aliados cruciais da Autoridade Palestina na União Européia (UE) quanto o fato de não ter tomado a mais débil medida para combater o terrorismo.
Na realidade, se havia um obstáculo à causa da real independência palestina, era precisamente o próprio Arafat, pai da Palestina durante a primeira Intifada - e algoz da Palestina na segunda.
As mentiras descaradas, e em última instância desastrosas, ditas por Arafat a seus aliados mais próximos na Europa e no Departamento de Estado durante o incidente das armas descobertas no navio Karine A, seu estímulo a expectativas impossíveis entre os palestinos em sua própria terra e no exílio, sua rejeição às ofertas de paz por Israel para manter aquelas falsas expectativas - tudo isso completou a campanha de demolição da almejada pátria que começou muito antes de Camp David em choques de violência calibrada, calculada para extrair concessões de Israel.
Ao herdar Gaza, os palestinos ganharam um dos maiores reservatórios mundiais de problemas e, ao entregar, os israelenses, ficaram aliviados
Enquanto Arafat vivia, perdendo seu lugar na história mesmo enquanto buscava manter seu lugar entre os palestinos, bombas após bombas distanciaram os palestinos do Estado que quase tiveram, que poderiam já ter tido, que deveriam ter tido - já no fim da década passada.
Os palestinos, ainda envoltos na arrogância de autopiedade, da auto-adoração dos verdadeiramente humilhados - a mesma arrogância que tão intensamente odeiam nos judeus - estão ainda ocupados em provar que a Intifada foi vitoriosa.
Ao herdar Gaza, os palestinos ganharam um dos maiores reservatórios mundiais de problemas sociais. Ao entregar Gaza, a vasta maioria dos israelenses, embora simpatizando com a dor dos colonos expulsos, sentiram uma clara sensação de alívio.
Hoje, continua sendo uma incógnita se os palestinos são capazes de dar os passos necessários para manter um Estado - em outras palavras, se realmente desejam um Estado, em vez de apenas a bandeira que já têm e o representante na ONU que também já têm - mais a indignação dos injustiçados.
Se eles preferirem, até o final dos tempos, continuar exigindo o direito de retorno, em lugar de aceitar alguma fórmula que equivalha a um ganho menor, e com este um Estado palestino, então a indagação estará respondida.
Se eles preferirem insistir no direito à resistência violenta contra Israel, aliando-se - nas mentes de outros, se não em suas próprias -, com movimentos terroristas que infernizam países civilizados no mundo inteiro, em vez de renunciar à luta armada e à admissão à comunidade de nações, então teremos sua resposta.
Se eles insistem na solução que contempla um só Estado, então será a solução de um só Estado que eles terão - e esse Estado será Israel.
Hoje, está sendo cada vez mais formulada a pergunta - o que realmente querem os palestinos? - e se o que realmente querem, neste momento, é um Estado.
Seus camaradas na extrema esquerda mundial podem continuar acreditando que os palestinos sejam os mais oprimidos e as maiores vítimas de pecados cometidos contra um povo na face da Terra. Para o restante de nós, a pergunta continua colocada. A pergunta - o que é que os palestinos realmente querem? - é talvez colocada mais freqüentemente na esquerda israelense, que a Intifada teve êxito em desmantelar. Está sendo colocada pelos tradicionais aliados dos palestinos na UE e no Departamento de Estado, os quais a Intifada conseguiu distanciar - e que foram profundamente afetados pela súbita irrupção do terror dentro de suas próprias fronteiras.
Querem os palestinos, realmente, um Estado? O que eles nos disseram em atos e em palavras é "Sim, mas segundo nossos próprios termos". É isso mesmo que eles querem dizer, ou não? Se for, aposto que terão alguma forma de Estado lá por volta de 2028. Terão sido 40 anos de procrastinação estéril.
Meu palpite, porém, é que eles serão mais inteligentes. Farão o que fazemos. Mentirão a si próprios, engolirão os sapos que não podem disfarçar com palavras e gestos. Desejo-lhes sorte. Vão precisar muito mais dela do que tiveram até agora.

* Bradley Burston é colunista do diário israelense Haaretz. Publicado pela primeira vez em português no jornal Valor Econômico em 3/7/2006