A guerra por procuração
Por: Luciano Amaral

Era de prever que um dia o Médio Oriente regressasse à violência explosiva das últimas semanas. E era também de prever que, num contexto semelhante, logo se erguesse o habitual coro de vozes contra Israel — neste caso, por causa da sua reação "desproporcionada". Não é evidentemente bonito o espetáculo desta brutal ofensiva militar. É mesmo trágico. Mas não perceberá o chamado conflito israelo-árabe quem não perceber que essa brutalidade sempre foi a condição de sobrevivência de Israel. Israel é uma espécie de palhaço pobre da cena política internacional, a quem toda a gente se sente autorizada a dar lições, por cima de reprimendas a pretexto dos seus presumíveis disparates ou injustiças.
A esta luz, pouco importa o que dizem e fazem os seus inimigos. O Hamas não reconhece o direito de Israel a existir e está vocacionado para a sua destruição. O Líbano não reconhece o direito de Israel a existir e vive refém de um sinistro movimento terrorista (o Hezbolá), cujo propósito é a destruição do Estado de Israel. Para além de alvo perpétuo de atos terroristas, agora um pouco mais rarefeitos — será que o novo "muro da vergonha" terá alguma coisa que ver com isso? —, Israel é também vítima permanente de ataques militares, tanto a partir do Sul do Líbano quanto da Faixa de Gaza. Perante isto, o conselho que se lhe costuma dar é que esqueça esses pormenores e continue a oferecer mais ou menos tudo o que pode em troca de pouca coisa, ou mesmo coisa nenhuma.
Em 2000, Israel retirou-se do Sul do Líbano, onde mantinha uma zona-tampão que servia de segurança contra ataques na fronteira norte. Seria de esperar que, do outro lado da fronteira, se seguisse em conseqüência a contenção e a aceitação desse passo como o princípio de uma nova situação duradoura. A única coisa que aconteceu, porém, foi a intensificação da ocupação pelo Hezbolá, munido dos seus famosos rockets, cada vez mais sofisticados — os últimos de lá lançados na passada semana foram mais longe do que quaisquer outros anteriores, atingindo mesmo a terceira cidade do país, Haifa. Em 2005, Israel saiu da Faixa de Gaza, também na esperança de que isso fosse visto como um passo arriscado, mas positivo em direção a uma solução para o conflito. Mais uma vez se deveria esperar aqui alguma moderação do outro lado. Muito pelo contrário, Gaza foi-se transformando nos últimos meses numa espécie de segundo vale de Bekaa, com os ataques de rockets a aumentar quotidianamente.
Quem se queixa das ações "desproporcionadas" de Israel, e que será certamente simpatizante da chamada "causa palestina", talvez devesse então pedir aos representantes e apoiadores internacionais da dita que aceitem finalmente o direito de Israel a existir. Como é evidente, qualquer princípio de negociação séria só pode ocorrer a partir desse instante. Israel existe hoje, não graças a resoluções da ONU ou sofisticados conselhos das chancelarias internacionais, mas porque venceu todas as guerras que os seus vizinhos hostis coligados lhe lançaram desde o exato primeiro dia da sua existência em 1948. Estas vitórias não puderam obviamente ser obtidas sem uma certa brutalidade. Israel é um pequeno país de seis milhões de habitantes, rodeado por uma coleção de países hostis que, somados, chegarão quase aos 400 milhões de pessoas. Até agora incapazes de vencer Israel militarmente, estes vizinhos árabes apostaram, para manter vivo o anti-sionismo, na instigação da intransigência dos movimentos palestinos. É do meio disto tudo que sobra, de fato, a tragédia do povo palestino. Se Israel se preocupa pouco com ele, menos se preocupam ainda os seus supostos apoiadores, que o usam como mera massa de manobra antiisraelense. A última coisa que lhes interessa é a moderação palestina.
É o caso do Irã, o criador e grande patrocinador do Hezbolá e mais recente patrocinador do Hamas. Não haja dúvidas. Por debaixo da cor local, o que neste momento ocorre no Líbano é uma guerra por procuração entre o Irã e os EUA. A mesma, na qual, os EUA andam a evitar a todo o custo envolver-se diretamente. O Irã continua a ridicularizar os planos ocidentais de restrição ao seu programa nuclear, e a guerra indireta que declarou a Israel permite-lhe desviar as atenções internacionais. Os EUA, desprovidos de outros aliados capazes de os ajudarem no ordenamento político internacional (graças ao estado de beatitude irresponsável dos países europeus) socorrem-se do único povo "ocidental" que ainda sabe fazer a distinção entre amigo e inimigo.
Talvez até já seja tarde, mas a única coisa que há a esperar é que esta Quarta Guerra de Israel corresponda à ação preventiva necessária para restaurar alguma ordem nas fronteiras israelenses e devolver o Irã a uma certa humildade. É muito importante que seja bem sucedida, até porque é muito mais do que apenas isso o que está em causa.

* Luciano Amaral é professor universitário. Artigo foi publicado no Diário de Notícias, de Portugal.