O Baal Shem Tov ensinou: “Se veres o teu irmão
num poço, não é suficiente que lhe jogues
uma corda. Deves descer ao poço, junto a ele, e em seguida
tratar de sair os dois juntos”.
Isto quer dizer que devemos nos colocar no lugar do nosso próximo
nos problemas, compreendê-lo, e depois, entre os dois,
tratar de chegar à superfície juntos.
A que vem isto? Aproxima-se a desconexão, e os ânimos
vão se esquentando.
Os colonos contra o governo; a esquerda contra os colonos, e
o fantasma da guerra civil pairando no céu israelense.
Aqui vou apresentar-lhes quatro histórias. Os personagens
são fictícios, mas, ah! As histórias são
reais.
1ª História: Moshé foi para Yamit com sua
esposa e seu filho recém-nascido. Para um casal jovem
as oportunidades que se apresentavam nesse lugar eram insuperáveis.
O futuro se abria luminoso ante eles. Mas, de pronto, faz pouco
mais de 20 anos, e devido aos acordos com o Egito, viram angustiados
como os tratores arrasavam a casa que haviam construído
com tanto esforço. Tinham que ir-se, abandonar tudo. Mas
aonde ir? E então alguém lhes disse: “Vão
para Gaza, lá estão se formando assentamentos dos
quais, ninguém os tirarão de lá”.
E Moshé, com sua esposa e seu filho foram para Gush Katif.
Foram 20 anos de trabalho duro, foram 20 anos para reconstruir
estufas destruídas por kassams. Seus filhos foram crescendo
(já tinham quatro). O mais velho terminou a tzavá [exército]
( e dedicou-se a planejar seu futuro no lugar junto com sua noiva,
também de Gush Katif.
E de imediato, outra vez tudo se derruba. Gaza deve ser evacuada.
Tudo deve ser entregue aos palestinos. Sim, é certo que
o governo os compensará, mas compensa esse dinheiro os
anos de esforço? Compensa ter que voltar a começar
(agora 20 anos mais velho), e quem sabe onde? E Moshé aperta
os dentes e cerra os punhos, enquanto evita olhar o rosto de
sua esposa para não ver suas lágrimas.
2ª História: Ilan vive em Haifa. Nasceu em Israel.
Em seus 50 anos de vida só viu guerras e atentados. Coube
a ele guerrear em Iom Kipur e viu cair muitos de seus companheiros
(ele mesmo foi ferido). E em seguida, um sábado quis ir
a um restaurante com sua esposa e uns amigos, mas no último
momento mudaram de idéia e ficaram os quatro em casa… o
restaurante era o Maxim’s, um lugar do qual era quase habitué.
E esse dia um suicida-bomba o explodiu. Já está cansado
de tanta violência, de tanta morte. Agora há a possibilidade
de obter a paz, retirando-se de Gaza. Mas esses fanáticos
que não querem sair são um obstáculo. Que
fiquem lá se quiserem! Mas temos que sair de Gaza e dar
uma oportunidade à paz. Chega de nossos rapazes caindo
por uns loucos como esses!
3ª História: Iosi nasceu ao norte de Shomrom, em
um dos assentamentos que está a ponto de ser evacuado.
Seus pais trabalharam duro para construir um futuro e deixar
aos seus filhos.
Quando chegou a hora Iosi entrou para a tzavá (ainda está servindo).
Seu desempenho como soldado foi bom. Mas agora Iosi sofre. Sabe
que há risco de que o enviem para participar da evacuação.
Com que cara vai enfrentar o seu pai para dizer-lhe que tem que
deixar sua casa? E o que será de sua irmã, seu
cunhado e seus sobrinhos? Talvez o obriguem a destruir o bet
haknesset (sinagoga) que ele ajudou a construir e onde passou
tantos Shabatot com seu pai e seus amigos? E tudo por quê?,
Porque um político abandonou os ideais que tanto tempo
disse defender.
4ª História: Sami admira Tel Aviv, sua cidade. As
ruas luminosas, os cafés, as garotas, as discotecas. Agora
está na tzavá, e para o cúmulo, próximo
do Passo Filadélfia. No ano passado viu como seis companheiros
seus voaram pelo ar com seu veículo. E, em seguida, apertando
os dentes, viu como os palestinos profanavam seus restos e tratavam
de negociar terroristas vivos por pedaços de cadáveres.
Sami tem medo. Tem medo desde que foi enviado ao lugar. Mas não
o medo dos covardes, mas o medo daqueles que, apesar dele mesmo,
cumprem com seu dever.
Agora existe a possibilidade de sair dali. Que os palestinos
fiquem com Gaza. Sami quer voltar a Tel Aviv e deixar para trás
tudo o que viveu. Mas esses colonos loucos não querem
ir. Querem ficar, e se eles ficarem, Sami também deverá ficar
até terminar seu serviço ou até que… Não,
melhor nem pensar.
Se esses loucos querem ficar, que fiquem, mas que outro cuide
deles. E se alguém resistir à evacuação,
Sami mesmo o irá tirar aos pontapés, porque já não
quer que continuem caindo os seus companheiros, já não
quer pensar que qualquer palestino que se aproxima seja um terrorista.
Eias aqui as quatro histórias. Leiam-nas com cuidado,
pensem nelas, colocando-se no lugar de Moshé, de Ilan,
de Iosi, de Sami.
E então? Já o fizeram? Bem. Agora podemos falar
da desconexão.
* Israel Winicki ou Isidoro Wimicki, nasceu na Argentina, mas
reside atualmente em Naharya, Israel, onde é professor
de história e conferencista. É colaborador do site
israelense de língua espanhola, www.porisrael.org onde
o presente artigo foi publicado.