Ele também era brasileiro. Não se sabe se esta
vivo ou morto. Pelo menos para a mídia e a opinião
pública, na prática ele não existe mais,
parece nunca ter existido.
Aparentemente apenas a sua família na operosa Juiz de
Fora ainda lembra que um dia viveu sobre a face da Terra um cidadão
brasileiro chamado João José Vasconcellos Júnior,
um engenheiro como nós. Seqüestrado no Iraque no
dia 19 de janeiro de 2005. Passados seis meses sequer se sabe
quem o levou e com que finalidade.
Se um por cento, um por cento apenas do clamor mundial contra
a sina do infeliz patrício Jean Charles tivesse ecoado
no planeta naquele fatídico mês de janeiro, talvez
hoje soubéssemos o que realmente aconteceu com o igualmente
sofrido João José.
A mesma intolerância que tirou João José do
convívio da família também se abateu sobre
a pequenina Gonzaga, no interior das Minas Gerais, que sem saber
acabou envolvida pelo terrorismo islâmico, em nome de uma
equivocada interpretação da religião muçulmana.
Sim, pois se não tivesse existido o 11 de setembro em
Nova Iorque, o trem de Madrid, o metrô de Londres, e tantos
outros crimes contra a Humanidade, Jean e João estariam
aqui tranquilamente.
Não se pergunte por que a polícia atirou, mas sim
porque os terroristas explodiram os trens. Não há outros
meios para propagar religiões ou simplesmente protestar,
ou quem sabe dialogar com o outro?
Jean foi muito mais vítima da intolerância e do
terror islâmico do que da mão equivocada que apertou
o gatilho. No mundo inteiro se está sujeito a estas lamentáveis
ocorrências, mas bombas em metrô não são
acidentes que acontecem.
Lamentamos profundamente a desgraça que infelicitou duas
famílias honradas, mas se olharmos para trás, veremos
que outros brasileiros também pereceram no 11 de setembro
de Nova Iorque, no trem de Madrid, em Bali, em Israel, e sabe-se
mais em quantos outros lugares, vitimados pelo terror irracional.
Já dizia Euclides da Cunha que o Sertanejo é antes
de tudo um forte. Nós brasileiros perpetuamos este dito
consagrado, mesmo na metrópole, na pequena cidade, até mesmo
em Londres.
Jean era um trabalhador, enviava para casa o pão de cada
dia, ganhando o sustento com o suor do próprio rosto.
Procurava em meio ao fog londrino o que lamentavelmente não
achou aqui na nossa terra.
Assim como tantos outros Jeans, tantos outros Joãos, teve
que emigrar para terra estranha, onde labutava, saudoso do nosso
calor tropical, da alegria lúdica que mesmo sofrido ainda
ostenta o povo brasileiro.
Quanto mais haverão de tombar? Aqueles que acham que o
Brasil está longe disso tudo têm agora um alerta.
Não estamos, e se querem saber, o inimigo já está aqui.
8 de maio, Dia da Vitória sobre a besta nazista. Em Porto
Alegre esta data jubilar de tanta significação
para a democracia e a igualdade foi conspurcada pela ação
de terroristas que esfaquearam um menino judeu.
Islâmica ou nazista, a mesma intolerância.
As tragédias, sejam em Porto Alegre, Londres ou Bagdá são
na verdade uma só.
Não esquecemos de João José e jamais esqueceremos.
* Israel Blajberg é engenheiro, membro da Associação
dos Ex-Alunos CPOR/RJ e integra a equipe que levantou os Heróis
Brasileiros Judeus da II Guerra Mundial (iblaj@telecom.uff.br).