Nas últimas semanas Israel tem sido palco de virulentas
demonstrações. Essas manifestações
não são absolutamente espontâneas. Ao contrário,
são bem dirigidas, bem orientadas, bem organizadas e preparadas,
e muito bem financiadas. Há, por trás delas um
Quartel General operante e dedicado, com muita experiência
na organização e realização de atos
provocativos e de desordens, como os que nós testemunhamos
recentemente, somos testemunhas até o presente momento,
e ainda testemunharemos nas próximas semanas. Desde o
bloqueio de estradas, fechamento de cadeados para impedir o funcionamento
dos serviços básicos à população
(via de regra serviços para a população
mais necessitada), derramamento de óleo e pregos em vias
importantes, pondo em perigo a vida de pacatos cidadãos,
que às vezes nem têm uma posição definida
nos assuntos que são o objetivo de suas manifestações,
e muitas vezes são até simpatizantes (ou eram antes
de se depararem com tal vandalismo), a guerra psicológica
de crianças que passaram um processo de lavagem cerebral,
contra policiais e soldados que durante todos os anos os defenderam
ao preço das próprias vidas, comparando-os com
os soldados nazistas. E tudo isto por quê?
Para manifestarem seu descontentamento, sua oposição à evacuação
dos judeus que foram se estabelecer na Faixa de Gaza? Pode ser
que a maioria dos manifestantes, incautos e ingênuos, assim
pensem. Na minha opinião, o verdadeiro motivo está muito
além. Há quem diga que a razão real é a
de impedir ou evitar a continuação da evacuação,
pois o próximo passo será a retirada de parte das
colónias da Judéia e da Samária (de onde
vêm a maioria dos “generais” das manifestações),
semear o medo diante de uma possível guerra civil, paralizando
assim a continuação do processo, que viria a atingí-los
e prejudicá-los pessoalmente. É possível
e até plausível que este seja um dos motivos que
orientam os membros do QG das manifestações. Porém,
na minha opinião, o verdadeiro motivo ainda está muito
além deste. A meta dos chefes dos manifestantes é a
de testar a reação e a firmeza da sociedade diante
de uma possível revolução institucional
e social em Israel.
A evacuação da Faixa de Gaza é um fato consumado.
O processo já começou há tempo e é irreversível.
Minha posição referente à evacuação é evidente,
mas irrelevante no momento, e não se trata de convencer
sobre as vantagens ou desvantagens desta política do governo.
Nas atuais condições e circunstâncias, é terminantemente
proibido permitir que os manifestantes penetrem em Gush Katif!
A discussão não é acadêmica, nem da
medida de tolerância das instituições e das
autoridades. A discussão é sobre a autoridade das
instituições e das autoridades. O âmago do
problema é a definição do tipo de sociedade
na qual queremos viver em Israel. Numa teocracia tipo Irã ou
numa sociedade democrática ocidental? Quem estabelece
as leis, o Rabinato nomeado ou o Parlamento eleito pelo sufrágio
universal? Como se regerá o país, pela força
do poder democraticamente eleito ou pelo poder da força
da desordem e da arruaça? Pelos desígnios divinos
ou pelos valores morais e sociais desenvolvidos e conquistados
durante os séculos de existência da sociedade humana?
Pela santidade da vida e da liberdade ou pela santidade da terra
e do território? Pelo respeito ao próximo ou pelo ódio
ao diferente?
A permissão do ingresso dos manifestantes a Gush Katif
representa o colapso de toda a autoridade democraticamente constituída
e a falência do próprio regime democrático.
As instituições desmoralizadas serão substituídas
pelas que realmente operam no terreno; o governo, o parlamento
e o poder judicial, eles também desmoralizados, darão
seu lugar ao “Conselho da Judéia e da Samária” (Moetzet
Iesha) e ao rabinato dominado pelos rabinos fundamentalistas
ligados a ele. E o país será um caos e as trevas
reinarão por todas as partes.
A democracia em Israel corre perigo no verdadeiro sentido da
palavra. Neste momento não importa mais a posição
com respeito a evacuação de Gush Katif. Todas as
resoluções referentes a essa evacuação
foram decididas democraticamente por grande maioria, e não
há indícios e nem chance de que sejam democraticamente
mudadas. Neste momento a pergunta vital que se ergue é qual
o tipo de sociedade em que queremos viver?
Defendamos a democracia!
Markin Tuder é tradutor e vive em Tel Aviv – Israel
- tudereva@inter.net.il