Defendamos a democracia
Por: Markin Tuder

Nas últimas semanas Israel tem sido palco de virulentas demonstrações. Essas manifestações não são absolutamente espontâneas. Ao contrário, são bem dirigidas, bem orientadas, bem organizadas e preparadas, e muito bem financiadas. Há, por trás delas um Quartel General operante e dedicado, com muita experiência na organização e realização de atos provocativos e de desordens, como os que nós testemunhamos recentemente, somos testemunhas até o presente momento, e ainda testemunharemos nas próximas semanas. Desde o bloqueio de estradas, fechamento de cadeados para impedir o funcionamento dos serviços básicos à população (via de regra serviços para a população mais necessitada), derramamento de óleo e pregos em vias importantes, pondo em perigo a vida de pacatos cidadãos, que às vezes nem têm uma posição definida nos assuntos que são o objetivo de suas manifestações, e muitas vezes são até simpatizantes (ou eram antes de se depararem com tal vandalismo), a guerra psicológica de crianças que passaram um processo de lavagem cerebral, contra policiais e soldados que durante todos os anos os defenderam ao preço das próprias vidas, comparando-os com os soldados nazistas. E tudo isto por quê?

Para manifestarem seu descontentamento, sua oposição à evacuação dos judeus que foram se estabelecer na Faixa de Gaza? Pode ser que a maioria dos manifestantes, incautos e ingênuos, assim pensem. Na minha opinião, o verdadeiro motivo está muito além. Há quem diga que a razão real é a de impedir ou evitar a continuação da evacuação, pois o próximo passo será a retirada de parte das colónias da Judéia e da Samária (de onde vêm a maioria dos “generais” das manifestações), semear o medo diante de uma possível guerra civil, paralizando assim a continuação do processo, que viria a atingí-los e prejudicá-los pessoalmente. É possível e até plausível que este seja um dos motivos que orientam os membros do QG das manifestações. Porém, na minha opinião, o verdadeiro motivo ainda está muito além deste. A meta dos chefes dos manifestantes é a de testar a reação e a firmeza da sociedade diante de uma possível revolução institucional e social em Israel.

A evacuação da Faixa de Gaza é um fato consumado. O processo já começou há tempo e é irreversível. Minha posição referente à evacuação é evidente, mas irrelevante no momento, e não se trata de convencer sobre as vantagens ou desvantagens desta política do governo. Nas atuais condições e circunstâncias, é terminantemente proibido permitir que os manifestantes penetrem em Gush Katif!

A discussão não é acadêmica, nem da medida de tolerância das instituições e das autoridades. A discussão é sobre a autoridade das instituições e das autoridades. O âmago do problema é a definição do tipo de sociedade na qual queremos viver em Israel. Numa teocracia tipo Irã ou numa sociedade democrática ocidental? Quem estabelece as leis, o Rabinato nomeado ou o Parlamento eleito pelo sufrágio universal? Como se regerá o país, pela força do poder democraticamente eleito ou pelo poder da força da desordem e da arruaça? Pelos desígnios divinos ou pelos valores morais e sociais desenvolvidos e conquistados durante os séculos de existência da sociedade humana? Pela santidade da vida e da liberdade ou pela santidade da terra e do território? Pelo respeito ao próximo ou pelo ódio ao diferente?

A permissão do ingresso dos manifestantes a Gush Katif representa o colapso de toda a autoridade democraticamente constituída e a falência do próprio regime democrático. As instituições desmoralizadas serão substituídas pelas que realmente operam no terreno; o governo, o parlamento e o poder judicial, eles também desmoralizados, darão seu lugar ao “Conselho da Judéia e da Samária” (Moetzet Iesha) e ao rabinato dominado pelos rabinos fundamentalistas ligados a ele. E o país será um caos e as trevas reinarão por todas as partes.

A democracia em Israel corre perigo no verdadeiro sentido da palavra. Neste momento não importa mais a posição com respeito a evacuação de Gush Katif. Todas as resoluções referentes a essa evacuação foram decididas democraticamente por grande maioria, e não há indícios e nem chance de que sejam democraticamente mudadas. Neste momento a pergunta vital que se ergue é qual o tipo de sociedade em que queremos viver?
Defendamos a democracia!

Markin Tuder é tradutor e vive em Tel Aviv – Israel - tudereva@inter.net.il