Visionários em tempos de crise (repensando o dia 9 de Av)
Por: Sergio feldman

As proximidades de Tishá be Av (dia 9 do mês judaico de Av), nos geram reflexões e propiciam a oportunidade de olhar para o passado em busca de experiências que enriqueçam nosso cotidiano tão desprovido de valores e de ética. Tristes tempos...

No dia 9 de Av a tradição judaica coloca eventos trágicos, e que em seu contexto poderiam ser considerados, um simbólico final dos tempos, uma catástrofe coletiva judaica. Em 586 a.e.c. a cidade de Jerusalém estava sitiada pelas tropas do rei babilônio Nabucodonosor. O cerco se prolongou por algumas semanas e no dia nove de Av a cidade foi tomada, destruída e queimada. O templo construído por Salomão foi derrubado e tornado um amontoado de ruínas. O mesmo ocorreu em Jerusalém no ano 70 d.e.c., desta vez por obra dos generais (e posteriormente imperadores) Vespasiano e Tito. O Templo nunca se reergueu. A data de nove de Av se tornou um marco histórico na memória coletiva, através de uma celebração aonde se recordam estes trágicos fatos. Jejua-se, reza-se na sinagoga sem sapatos (de meias), imitando-se os enlutados na semana de Shivá (luto familiar).

A tradição histórica ainda localiza muitos eventos tristes em nove de Av. A expulsão dos judeus da Espanha (Sefarad), ocorrida em 31 de agosto de 1492 (última data para os judeus saírem, ou seriam convertidos a força), foi no dia 9 de Av. E se preciso fosse poderíamos encontra inúmeros massacres, editos infames e perseguições que são relacionados com a triste data. Se alguns foram “ajeitados” e relocados para coincidir com a data, não importa. O fato é que a data simboliza na memória judaica, um momento de perda, destruição e de crise. A pergunta que se faz é: como agir e reagir em tempos de crise? Vejamos alguns exemplos de visionários e líderes históricos que podem ilustrar uma diversidade de posturas e nos propiciar reflexões para nossas crises.

O profetas Jeremias se relaciona com muita clareza com a data. Vivia e pregava em Jerusalém nos anos que antecederam a invasão babilônica e a destruição do Primeiro Templo em 586 a.e.c. Percebeu e criticou os erros e desvios do povo judeu em relação ao pacto com D-us. Advertiu que a destruição viria e que a única maneira de evitá-la seria mudar de postura e agir de acordo com a Lei e o Pacto. Não foi ouvido, tendo sido agredido, preso e maltratado. Lamenta e pergunta a D-us, por que lhe fez profeta? Por que ter que prever o trágico final que estava se consumando? Considerado um “quinta-coluna”, traidor dos interesses do povo, quase foi morto por seus adversários. Presencia com dor a destruição da cidade e do Templo. Ao se deparar com a consumação do trágico final, consola e alivia os sobreviventes. Prevê a redenção, o perdão divino aos arrependidos. As Lamentações de Jeremias (denominadas em hebraico Eichá), são um conjunto de textos de consolo, lamentos e desolação, mas também de esperança e perspectiva de reconstrução. Unem a tristeza com a esperança, o pranto com a expectativa de reconstrução. Um líder espiritual não pode nunca perder sua fé e a confiança de que se pode e se deve continuar. A morte é parte da vida. A perda é parte do processo existencial do ser humano. Na História, a crise e a destruição antecipam novos tempos, aos idealistas e messiânicos dias melhores virão. Esta dinâmica acompanhará o povo judeu tal qual uma Fênix (mitologia grega, mas adequada à nossa reflexão), que renasce das cinzas e cria novas realidades e se adapta às adversidades.

Jeremias é um modelo ou arquétipo.

Outro personagem modelar seria o rabi Yochanan ben Zakai, membro do Sinédrio (Sanedrin = assembléia de sábios e rabinos), e posteriormente fundador da Academia de Yavne. Ele estava dentro de Jerusalém, durante o cerco da cidade pelas tropas romanas comandadas pelo general Vespasiano (que se tornaria Imperador). Seus discípulos querem retirá-lo ileso da cidade e não se confrontar com os zelotes fanáticos, que se propunham a lutar até a morte e nunca se render ou tentar dialogar com o inimigo romano. O que fazer?

Simulam sua morte e colocam seu “cadáver” numa mortalha para enterrá-lo fora das muralhas. Podem sair da cidade e assim se aproximar do acampamento romano. Lá abrem a mortalha e dela sai o rabi Yochanan: vivo e ileso. Pede para dialogar com o general. Os soldados assustados com o “morto” que saiu da mortalha ficam hesitantes. Acabam por permitir que o rabi dialogue em secreto com o general. O que este lhe dissera? Vespasiano sai satisfeito e dá um salvo conduto ao rabi e seus discípulos. Permite que possam ir a Yavne. Por quê? A tradição afirma que o rabi conhecedor das ambições e da soberba humana, “previu” que o general se tornaria Imperador, fato que viria a ocorrer. Satisfeito, o general lhe dá a autorização de fundar uma escola e restabelecer as práticas judaicas.

Como prosseguir? O Templo em ruínas e a cidade destruída. Seria possível seguir judeu e praticar a religião, sem ofertar sacrifícios no Templo Sagrado (Beit ha Mikdash)? Yochanan ben Zakai inicia uma reinterpretação da Lei e das práticas, em “caráter temporário” até que se reerguesse o santuário. A Tzedaká (justiça social), a Hachnassat Orchim (hospitalidade com aspectos sociais) e muitos outros preceitos humanistas e sociais do Judaísmo fariam o papel de substitutos dos sacrifícios. Abrir as portas do coração, abrir sua casa e oferecer a sua mesa com alimentos aos famintos, servia ao necessitado e provia uma maneira de demonstrar a gratidão ao Criador e Senhor do Mundo. O Judaísmo oferece aqui, pela palavra e pela prática, uma nova visão de mundo. Agradecer a D-us, através de ações em prol das suas criaturas.

Ben Zakai não foi aceito pelos seus contemporâneos: rabi Gamliel, presidente do Sinédrio (Sanedrin), e ferrenho inimigo de Roma, considera-o um colaborador dos inimigos, que haviam destruído a cidade sagrada e o santuário. Seu diálogo não foi compreendido e acaba por sofrer críticas e termina os seus dias isolado e sem poder. Seu gesto e atitude são vitais para a evolução e a continuidade do Judaísmo. Ordena a vida judaica sem o Templo e prepara o povo judeu para a longa Diáspora (Galut). Sem dúvida um homem de visão, que se defronta com a grande crise e define posturas renovadas para seguir existindo.

Inúmeras crises se sucedem na história judaica. Perseguições, crises e expulsões. Talvez duas das maiores tenham sido os massacres dos cossacos (século XVIII – c. 1648) e o Holocausto. Ambas foram tragédias de proporções gigantescas: morrem centenas de milhares de judeus no século XVIII; e seis milhões e meio de judeus no Holocausto.

Uma das vozes mais lúcidas do período posterior às matanças de 1648-1651, seria o fundador do Chassidismo, Israel ben Eliezer (1700-1760), o Baal Shem Tov. Um sábio de origem humilde e um ser iluminado. Percebeu a miséria de seus conterrâneos judeus, famintos e desolados. Haviam sido massacrados, desapropriados de seus bens e viviam em extrema penúria. Como seguir sendo judeu? Como viver sem estudar profundamente a Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés=cinco primeiros livros da Bíblia hebraica), e o Talmud (codificação da lei oral em inúmeros tratados e vasta gama de comentaristas)? Isso era feito há séculos pelos judeus. Não se concebia que um judeu não o fizesse. Ler estudar, discutir e praticar a lei. Seria a essência do Judaísmo. Para isso era necessário dedicar horas a fio, aos estudos e a leitura das fontes. Homens famintos deviam deixar de trabalhar e se dedicar aos estudos? Como? Trabalhar e obter algum alimento era uma tarefa difícil e fundamental numa época de crise que se estendeu por quase três séculos. Sendo assim, deveriam deixar de ser judeus? Se dependesse dos eruditos e sábios rabinos do norte da Polônia e da Lituânia, regiões menos afetadas pela crise, seguiriam assim. Baal Shem Tov desenvolve uma nova visão do Judaísmo e de sua prática: o Chassidismo. Uma espécie de popularização e simplificação do Judaísmo e o uso de sábios que cumpriam o papel de transmissores do saber e das práticas a seus discípulos. O mestre seria o Tzadik (justo), um rabino estudioso e profundo conhecedor das crenças e práticas. Este transmitia este saber e orientava as orações e as práticas, explicando os textos sagrados, através de lendas, parábolas e canções/rezas. Uma espécie de intermediário entre o povo e D-us. Uma revolução nos costumes milenares e nas práticas tradicionais, no objetivo de mantê-las e preservá-las. Baal Shem Tov e seus seguidores foram duramente criticados e até por vezes perseguidos pelos rabinos tradicionais, acusados de ignorantes e heréticos. Isso durou muito tempo e até hoje seus “herdeiros” se acusam e criticam.

Mudam-se a formas, mas mantêm-se os conteúdos. Mudam se as estratégias, mas mantêm-se os objetivos.
Este é o Judaísmo: dinâmico, crítico e capaz de evoluir para sobreviver.

O dia 9 de Av deve servir para reler a História. Não apenas para chorarmos nossas perdas e recordarmos nossos mortos. Devemos repensar nossos hábitos e nossa rigidez. A maioria da comunidade se distancia do judaísmo por não conseguir prática-lo. Há uma tensão entre ser judeu e ser moderno. Isso não é uma contradição insuperável. Há novos caminhos e novas maneiras de seguir sendo judeu.

Yochanan ben Zakai, rabino ortodoxo e presidente do Sinédrio ensinou.

Baal Shem Tov, fundador do chassidismo, mestre e precursor de movimentos tais como o Beit Chabad, fez uma renovação para perpetuar a tradição. Dois “revolucionários” que foram mal entendidos por seus contemporâneos, mas que nos legaram a continuidade e a evolução do Judaísmo. Que sua mensagem seja perpetuada e que o Judaísmo se renove e sobreviva.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.