As proximidades de Tishá be Av (dia
9 do mês judaico
de Av), nos geram reflexões e propiciam a oportunidade
de olhar para o passado em busca de experiências que enriqueçam
nosso cotidiano tão desprovido de valores e de ética.
Tristes tempos...
No dia 9 de Av a tradição judaica coloca eventos
trágicos, e que em seu contexto poderiam ser considerados,
um simbólico final dos tempos, uma catástrofe coletiva
judaica. Em 586 a.e.c. a cidade de Jerusalém estava sitiada
pelas tropas do rei babilônio Nabucodonosor. O cerco se
prolongou por algumas semanas e no dia nove de Av a cidade foi
tomada, destruída e queimada. O templo construído
por Salomão foi derrubado e tornado um amontoado de ruínas.
O mesmo ocorreu em Jerusalém no ano 70 d.e.c., desta vez
por obra dos generais (e posteriormente imperadores) Vespasiano
e Tito. O Templo nunca se reergueu. A data de nove de Av se tornou
um marco histórico na memória coletiva, através
de uma celebração aonde se recordam estes trágicos
fatos. Jejua-se, reza-se na sinagoga sem sapatos (de meias),
imitando-se os enlutados na semana de Shivá (luto familiar).
A tradição histórica ainda localiza muitos
eventos tristes em nove de Av. A expulsão dos judeus da
Espanha (Sefarad), ocorrida em 31 de agosto de 1492 (última
data para os judeus saírem, ou seriam convertidos a força),
foi no dia 9 de Av. E se preciso fosse poderíamos encontra
inúmeros massacres, editos infames e perseguições
que são relacionados com a triste data. Se alguns foram “ajeitados” e
relocados para coincidir com a data, não importa. O fato é que
a data simboliza na memória judaica, um momento de perda,
destruição e de crise. A pergunta que se faz é:
como agir e reagir em tempos de crise? Vejamos alguns exemplos
de visionários e líderes históricos que
podem ilustrar uma diversidade de posturas e nos propiciar reflexões
para nossas crises.
O profetas Jeremias se relaciona com muita clareza com a data.
Vivia e pregava em Jerusalém nos anos que antecederam
a invasão babilônica e a destruição
do Primeiro Templo em 586 a.e.c. Percebeu e criticou os erros
e desvios do povo judeu em relação ao pacto com
D-us. Advertiu que a destruição viria e que a única
maneira de evitá-la seria mudar de postura e agir de acordo
com a Lei e o Pacto. Não foi ouvido, tendo sido agredido,
preso e maltratado. Lamenta e pergunta a D-us, por que lhe fez
profeta? Por que ter que prever o trágico final que estava
se consumando? Considerado um “quinta-coluna”, traidor
dos interesses do povo, quase foi morto por seus adversários.
Presencia com dor a destruição da cidade e do Templo.
Ao se deparar com a consumação do trágico
final, consola e alivia os sobreviventes. Prevê a redenção,
o perdão divino aos arrependidos. As Lamentações
de Jeremias (denominadas em hebraico Eichá), são
um conjunto de textos de consolo, lamentos e desolação,
mas também de esperança e perspectiva de reconstrução.
Unem a tristeza com a esperança, o pranto com a expectativa
de reconstrução. Um líder espiritual não
pode nunca perder sua fé e a confiança de que se
pode e se deve continuar. A morte é parte da vida. A perda é parte
do processo existencial do ser humano. Na História, a
crise e a destruição antecipam novos tempos, aos
idealistas e messiânicos dias melhores virão. Esta
dinâmica acompanhará o povo judeu tal qual uma Fênix
(mitologia grega, mas adequada à nossa reflexão),
que renasce das cinzas e cria novas realidades e se adapta às
adversidades.
Jeremias é um modelo ou arquétipo.
Outro personagem modelar seria o rabi Yochanan ben Zakai, membro
do Sinédrio (Sanedrin = assembléia de sábios
e rabinos), e posteriormente fundador da Academia de Yavne. Ele
estava dentro de Jerusalém, durante o cerco da cidade
pelas tropas romanas comandadas pelo general Vespasiano (que
se tornaria Imperador). Seus discípulos querem retirá-lo
ileso da cidade e não se confrontar com os zelotes fanáticos,
que se propunham a lutar até a morte e nunca se render
ou tentar dialogar com o inimigo romano. O que fazer?
Simulam sua morte e colocam seu “cadáver” numa
mortalha para enterrá-lo fora das muralhas. Podem sair
da cidade e assim se aproximar do acampamento romano. Lá abrem
a mortalha e dela sai o rabi Yochanan: vivo e ileso. Pede para
dialogar com o general. Os soldados assustados com o “morto” que
saiu da mortalha ficam hesitantes. Acabam por permitir que o
rabi dialogue em secreto com o general. O que este lhe dissera?
Vespasiano sai satisfeito e dá um salvo conduto ao rabi
e seus discípulos. Permite que possam ir a Yavne. Por
quê? A tradição afirma que o rabi conhecedor
das ambições e da soberba humana, “previu” que
o general se tornaria Imperador, fato que viria a ocorrer. Satisfeito,
o general lhe dá a autorização de fundar
uma escola e restabelecer as práticas judaicas.
Como prosseguir? O Templo em ruínas e a cidade destruída.
Seria possível seguir judeu e praticar a religião,
sem ofertar sacrifícios no Templo Sagrado (Beit ha Mikdash)?
Yochanan ben Zakai inicia uma reinterpretação da
Lei e das práticas, em “caráter temporário” até que
se reerguesse o santuário. A Tzedaká (justiça
social), a Hachnassat Orchim (hospitalidade com aspectos sociais)
e muitos outros preceitos humanistas e sociais do Judaísmo
fariam o papel de substitutos dos sacrifícios. Abrir as
portas do coração, abrir sua casa e oferecer a
sua mesa com alimentos aos famintos, servia ao necessitado e
provia uma maneira de demonstrar a gratidão ao Criador
e Senhor do Mundo. O Judaísmo oferece aqui, pela palavra
e pela prática, uma nova visão de mundo. Agradecer
a D-us, através de ações em prol das suas
criaturas.
Ben Zakai não foi aceito pelos seus contemporâneos:
rabi Gamliel, presidente do Sinédrio (Sanedrin), e ferrenho
inimigo de Roma, considera-o um colaborador dos inimigos, que
haviam destruído a cidade sagrada e o santuário.
Seu diálogo não foi compreendido e acaba por sofrer
críticas e termina os seus dias isolado e sem poder. Seu
gesto e atitude são vitais para a evolução
e a continuidade do Judaísmo. Ordena a vida judaica sem
o Templo e prepara o povo judeu para a longa Diáspora
(Galut). Sem dúvida um homem de visão, que se defronta
com a grande crise e define posturas renovadas para seguir existindo.
Inúmeras crises se sucedem na história judaica.
Perseguições, crises e expulsões. Talvez
duas das maiores tenham sido os massacres dos cossacos (século
XVIII – c. 1648) e o Holocausto. Ambas foram tragédias
de proporções gigantescas: morrem centenas de milhares
de judeus no século XVIII; e seis milhões e meio
de judeus no Holocausto.
Uma das vozes mais lúcidas do período posterior às
matanças de 1648-1651, seria o fundador do Chassidismo,
Israel ben Eliezer (1700-1760), o Baal Shem Tov. Um sábio
de origem humilde e um ser iluminado. Percebeu a miséria
de seus conterrâneos judeus, famintos e desolados. Haviam
sido massacrados, desapropriados de seus bens e viviam em extrema
penúria. Como seguir sendo judeu? Como viver sem estudar
profundamente a Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés=cinco
primeiros livros da Bíblia hebraica), e o Talmud (codificação
da lei oral em inúmeros tratados e vasta gama de comentaristas)?
Isso era feito há séculos pelos judeus. Não
se concebia que um judeu não o fizesse. Ler estudar, discutir
e praticar a lei. Seria a essência do Judaísmo.
Para isso era necessário dedicar horas a fio, aos estudos
e a leitura das fontes. Homens famintos deviam deixar de trabalhar
e se dedicar aos estudos? Como? Trabalhar e obter algum alimento
era uma tarefa difícil e fundamental numa época
de crise que se estendeu por quase três séculos.
Sendo assim, deveriam deixar de ser judeus? Se dependesse dos
eruditos e sábios rabinos do norte da Polônia e
da Lituânia, regiões menos afetadas pela crise,
seguiriam assim. Baal Shem Tov desenvolve uma nova visão
do Judaísmo e de sua prática: o Chassidismo. Uma
espécie de popularização e simplificação
do Judaísmo e o uso de sábios que cumpriam o papel
de transmissores do saber e das práticas a seus discípulos.
O mestre seria o Tzadik (justo), um rabino estudioso e profundo
conhecedor das crenças e práticas. Este transmitia
este saber e orientava as orações e as práticas,
explicando os textos sagrados, através de lendas, parábolas
e canções/rezas. Uma espécie de intermediário
entre o povo e D-us. Uma revolução nos costumes
milenares e nas práticas tradicionais, no objetivo de
mantê-las e preservá-las. Baal Shem Tov e seus seguidores
foram duramente criticados e até por vezes perseguidos
pelos rabinos tradicionais, acusados de ignorantes e heréticos.
Isso durou muito tempo e até hoje seus “herdeiros” se
acusam e criticam.
Mudam-se a formas, mas mantêm-se os conteúdos. Mudam
se as estratégias, mas mantêm-se os objetivos.
Este é o Judaísmo: dinâmico, crítico
e capaz de evoluir para sobreviver.
O dia 9 de Av deve servir para reler a História. Não
apenas para chorarmos nossas perdas e recordarmos nossos mortos.
Devemos repensar nossos hábitos e nossa rigidez. A maioria
da comunidade se distancia do judaísmo por não
conseguir prática-lo. Há uma tensão entre
ser judeu e ser moderno. Isso não é uma contradição
insuperável. Há novos caminhos e novas maneiras
de seguir sendo judeu.
Yochanan ben Zakai, rabino ortodoxo e presidente do Sinédrio
ensinou.
Baal Shem Tov, fundador do chassidismo, mestre e precursor de
movimentos tais como o Beit Chabad, fez uma renovação
para perpetuar a tradição. Dois “revolucionários” que
foram mal entendidos por seus contemporâneos, mas que nos
legaram a continuidade e a evolução do Judaísmo.
Que sua mensagem seja perpetuada e que o Judaísmo se renove
e sobreviva.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutor em História pela UFPR.