A falsa acusação dos judeus escravocratas

No dia 24/5/2005 o jornal Gazeta do Povo publicou um artigo de responsabilidade de
Raymundo Negrão Torres, que assinava o texto como “acadêmico e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e do Centro de Letras do Paraná”. O título do artigo de opinião: “As desculpas de Lula”. O artigo tratava da visita que então fizera o presidente Lula à África e o seu pedido de desculpas sobre a escravidão negra no Brasil e observava que isso reabrira o debate, mas que os “comentários e a distribuição de culpas primaram, como de hábito pelo absoluto desprezo aos registros históricos”. E passou imediatamente a citar o conhecido integralista e nazista brasileiro Gustavo Barroso e um deus livros declaradamente anti-semitas, “História Secreta do Brasil”, numa edição da Revisão Editora, mais conhecida por sua condenação, em 2004, pelo Supremo Tribunal federal por anti-semitismo e imprimir e vender livros racistas.

Repetindo as falsidades de Barroso, diz a certa altura: “O comércio da carne africana corre paralelo com o do açúcar. Um comércio dominado por judeus lusos e holandeses. A ocupação do Nordeste brasileiro e da costa de Angola pelas Companhias holandesas das Índias facilitaria o intercâmbio entre as duas margens do Atlântico”. E um pouco mais adiante, continuava a ventriloqüia: “O século XVII é o século do grande comércio negreiro. A Inglaterra judaizada arranca aos reinos católicos da península ibérica o domínio do mundo, via Províncias Unidas dos Países-Baixos. Pelo tratado de Utrecht, de 1713, a Inglaterra consegue o monopólio do comércio de escravos por 30 anos”. Como nenhum outro historiador brasileiro ou do exterior corrobora essa tese anti-semita, trata-se de uma acusação descabida e inventada para deliberadamente para suscitar o ódio aos judeus.

Contestação
Sheilla Figlarz, diretora do jornal Visão Judaica, escreveu então para a seção de leitores da Gazeta do Povo, que publicou sua carta em 31/5. “É um espanto ver que ainda existe gente tentando semear ódio e preconceito no Brasil. Citando Gustavo Barroso, Torres ressuscita uma das pérolas da ficção do anti-semitismo tupiniquim: a de que o comércio de escravos no Brasil era dominado por judeus lusos e holandeses. Barroso nunca foi historiador. Simpatizante nazista, em 1933 aderiu ao integralismo, dedicando-se de forma contínua a escrever livros contra judeus. O Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas cita a seu respeito: “Anti-semita extremado, as idéias de Gustavo Barroso se aproximavam mais do nazismo alemão do que fascismo...” Ainda é citada a editora Revisão, de propriedade do neonazista gaúcho Siegfried Ellwanger, condenado no ano passado pelo Supremo Tribunal Federal por crime de preconceito racial, por causa de seus livros anti-semitas (entre os quais, o mencionado que serviu de base para o pretenso artigo acadêmico). A falsa tese escravocrata dos judeus lusos e holandeses não tem eco em nenhum estudo acadêmico sério, ou compêndio de história produzido no Brasil ou no exterior, pelo simples fato dela ser inverossímil”.

Em 7 de junho, Torres voltou a escrever na Gazeta do Povo, agora assinando como militar reforma do, e no pé do artigo “De volta a Ialta”, em um post scriptum, escreveu o seguinte: “A leitora Sheilla Figlarz protesta na Coluna do Leitor pela inclusão de uma frase em meu artigo (...), em que eu tentava mostrar que não há culpas brasileiras pelo tráfico de africanos, incluídas nas desculpas de nosso presidente e, sem me conhecer, acusa-me de ignorante e semeador de ódio e preconceito entre os brasileiros, por ter eu afirmado que no início do comércio de escravos para o Brasil (e não do comércio de escravos no Brasil, como a missivista, erroneamente, diz em sua carta) os grandes beneficiários eram capitalistas judeus, portugueses e holandeses. Manifestação do anti-semitismo tupiniquim, afirma dona Sheilla, cedendo ao preconceito de que me acusa. A primeira acusação eu a aceito, pois há cerca de 80 anos venho vivendo e aprendendo e tenho certeza de que no tempo que Deus ainda me conceder, aprenderei muitas coisas. A segunda, eu a repilo. Filho de um imigrante português sempre me orgulhei de terem nossos colonizadores construído nos trópicos uma civilização sem ódios, capaz de absorver e integrar gente de todas as origens de que o Paraná é um exemplo vivo. Além disso, como militar de profissão, aprendi desde jovem a ver desaparecerem sob o verde-oliva das fardas do Exército as diferenças de classe social, de religião e de cor, tendo como paradigma o Duque de Caxias, o Pacificador, exemplo de empenho pela união de todos os brasileiros. Tenho e sempre tive amigos de origem judaica, sem nunca me preocupar se meus amigos eram circuncidados ou não. Há pouco a Gazeta publicou artigo meu em que, profligando os que querem estabelecer divisão entre brasileiros através de cotas raciais, perguntava: quem é negro no Brasil?”

Diante disso, Sheilla resolveu escrever também um artigo esclarecendo definitivamente a questão e o enviou à Gazeta do Povo, que não quis publicá-lo, alegando não querer levar a discussão adiante. O artigo foi então publicado no site do “De Olho na Mídia” na internet (www.deolhonamidia.org), que vigia o comportamento da imprensa em relação ao noticiário do Oriente Médio e ao anti-semitismo. O artigo, de Sheilla Figlarz, intitulado “Em defesa da verdade” é também publicado, na íntegra, a seguir. Aqui no jornal Visão Judaica.

Em Defesa da Verdade

Exerci um direito de opinião como cidadã brasileira, e como judia, me manifestando em relação a mais um mito disseminado contra meu povo (“As desculpas de Lula”, Gazeta do Povo, 24/5), ao escrever uma carta publicada na Gazeta do Povo em 31/5. Nela, observei que a fonte utilizada pelo acadêmico Raymundo Negrão Torres, um livro de uma editora condenada no Supremo Tribunal Federal por racismo em julgamento de grande repercussão, “obra” essa, de autoria do antigo nazista brasileiro Gustavo Barroso, não servia como registro histórico, vez que o ódio que tinha dos judeus comprometia seus escritos. Por isso, foi desconsiderado por instituições e estudiosos de bem. Foi o que bastou para que eu fosse brindada com um parágrafo ao pé do artigo seguinte de Negrão Torres (“De volta à Ialta”, Gazeta do Povo, 7/6), assinando-o não mais como acadêmico, mas como militar reformado. Entendo a coerência: acadêmico, quando pretende exibir sua cultura; e general quando quer mostrar que é estrategista.

E a estratégia do militar-acadêmico para defender-se foi o vil ataque. Tentou inverter os papéis, colocando-se como vítima de um preconceito que ele próprio lançara ao defender tese anti-semita e absurda, que salta aos olhos de qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento da História. Tudo porque ousei interpor-me à pérfida dedicação de alguns, que teimam em acusar os judeus de serem culpados de todos os males do mundo.

Uma definição usual de anti-semitismo, citada pelo conhecido advogado norte-americano Alan Dershowitz cabe aqui. É tomar uma característica ou ação largamente difundida, se não universal, e culpar apenas os judeus por ela. Foi isso o que Hitler e Stalin fizeram e foi isso o que Gustavo Barroso fez. Não admitir isso, é desonestidade. De forma similar, o articulista quis embocar goela abaixo dos leitores o anti-semitismo contido naquela fraudulenta tese dos judeus escravistas. Curiosamente agora sumiram Gustavo Barroso e a condenada editora Revisão... Mas em sua ofensiva, saiu-se com o mais comum de todos os pretextos de um anti-semita que não deseja ser visto como tal: “Eu tenho amigos judeus...”.
A tática seguinte foi confundir o leitor, misturando “alhos com bugalhos”: Diz que não disse o que disse. Em síntese, afirma que escrevera que os judeus eram responsáveis pelo comércio de escravos para o Brasil e não do comércio de escravos no Brasil. Em “As desculpas de Lula”, a acusação é claríssima: “O comércio da carne africana corre paralelo com o do açúcar. Um comércio dominado por judeus lusos e holandeses”. O açúcar de cana só era produzido no Brasil e é óbvio que se referia ao Nordeste. Mas, qual a diferença entre acusar judeus de serem escravistas no Brasil ou para o Brasil? O dolo é o mesmo: culpar os judeus.

Se citar um anti-semita clássico e conhecido na literatura como um dos escritores mais preconceituosos da História do Brasil, que hoje seria condenado por racismo no STF, não é intolerância ou aversão racial, o que é então? E aludir a um livro que contém distorções mal-intencionadas e propositais dos registros históricos, numa vã tentativa de imputar aos judeus a culpa pela escravidão no mundo, numa época em que estes eram perseguidos pelo mundo cristão, sem a mínima condição de influir em fatos políticos ou econômicos, como queria Barroso, senão mera ignorância ou anti-semitismo, então é o quê? Se o comércio de escravos durou três séculos, como culpar os judeus holandeses, pequena minoria por toda a escravidão, se os holandeses só ficaram 24 anos no Recife e eram em sua maioria calvinistas?

O militar ainda citou outra referência mentirosa de Barroso — uma Inglaterra judaizada pelo Tratado de Utrecht, de 1713. Recorde-se, a bem da verdade, que a Inglaterra, na época, já era anglicana. Trata-se de uma expressão estereotipada e de uma infantilidade indigna e que cria uma história fictícia, a de que os reinos católicos tão bons e protetores dos negros, de repente perdem espaço para a Inglaterra e a Holanda por causa dos judeus, justamente as principais vítimas, queimadas em praça pública pela Inquisição. Desde quando?

Ao mencionar o Tratado de Utrecht, atropelou o artigo X da referida concordata firmada em 13 de julho de 1713, entre o Reinado Católico da Espanha e a Inglaterra, quando da transferência de Gibraltar para a coroa inglesa. No documento, ambos pactuaram proibir expressamente a entrada de judeus. Historicamente, a expressão "Inglaterra Judaizada" foi muito usada pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial. Como se denota, mais mistificações nutrindo o anti-semitismo.

Diferentemente do que diz o articulista, a primazia do tráfico negreiro coube à coroa portuguesa católica, desde a chegada a Portugal dos primeiros cativos africanos. O infante D. Henrique reclamou os capturados que lhe cabiam na qualidade de Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Ele também assentou as bases do recolhimento de escravos nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé, ponto de partida para o mais intenso tráfico de africanos do mundo. Sobre a participação da Igreja na escravidão é muito útil a leitura de “Relações Raciais no Império Português”, de Charles Boxer, bem como as informações contidas em “Os Jesuítas no Grão-Pará” e a “História de Antônio Vieira”, ambos de João Lúcio de Azevedo. São historiadores idôneos.

O militar Raymundo Negrão Torres ao criticar os judeus, pode estar criticando a si mesmo e aos seus próprios antepassados. Disse que descende, com muito orgulho, de portugueses. Deve saber que a maior parte dos judeus portugueses, após a conversão forçada foi chamada de cristãos novos e veio para o Brasil, onde muitos, às escondidas, continuaram judeus. É bem possível que corra em suas veias como, aliás, nas de boa parte dos brasileiros, o bom e velho sangue judeu, sangue dos cristãos novos que aqui aportaram com as caravelas de Cabral, como Gaspar da Gama e mais tarde continuaram afluindo, muito ajudando a desenvolver o País.

É notória a herança judaico-portuguesa transmitida ao Brasil, já que à época do descobrimento, pesquisas históricas comprovam que do milhão de habitantes de Portugal, 30% eram judeus. Uma consulta ao Dicionário de Sobrenomes Sefaradis (judeus da península ibérica) não deixa margem a dúvidas: tanto Negrão, como Torres são efetivamente nomes típicos de cristãos novos!

Lembro que Joaquim Nabuco, nosso maior abolicionista, foi descendente de cristãos novos. Trazia na lembrança remota o fato de que os judeus devem praticar a tsedaká (caridade), segundo a sua lei milenar. E foi o que fez, tornando-se o grande responsável pela abolição da escravatura no Brasil. Recordava-se ele que os judeus foram escravos dos egípcios e também dos impérios babilônico e romano.

Os judeus colaboraram com o progresso do Brasil Colônia, pois foram grandes produtores de açúcar de cana, tinham a melhor tecnologia da época, mas não tinham navios. Nem poderiam trazer escravos porque esse transporte era monopólio do governo, e os cristãos novos, via de regra, eram proibidos de exercer cargos públicos. Não podiam nem ser judeus. Era crime.

No século XVIII, registra a história que os irmãos Beckman, judeus, iniciaram o primeiro movimento nativista brasileiro, no Maranhão. Manoel Beckman, acusado de ser judeu e cabeça do motim, foi enforcado. Portanto, antes do grande herói Tiradentes, já um judeu brasileiro ousara sonhar com a liberdade. Mesmo sobre Tiradentes, há quem acredite que tenha ascendência judaica.

Certamente o militar não ignora o importante papel que os cristãos novos tiveram na libertação do Brasil do jugo holandês, pois estavam também do lado português, inclusive na Batalha de Guararapes, marcando a formação do nosso Exército Brasileiro, que comemorou, portanto, seus 350 anos em 2004.

Só concordo numa coisa com ele. Quando afirma que, sob a honrosa farda verde-oliva, desaparecem as diferenças. Todos sabem do importante papel do Exército, instituição nacional única e integradora da alma brasileira, onde se funde a nossa nacionalidade multirracial, convivendo lado a lado o filho do rico e o do pobre, o negro, o índio, e o branco, o católico, o espírita e o judeu. Recordo ao militar, porém, que o mesmo Exército Brasileiro — por intermédio dos nossos pracinhas da FEB e dos aviadores da FAB — lutou com bravura e heroísmo contra o ódio nazista na Europa. O cemitério de Pistóia, na Itália, e os expedicionários ainda vivos, são testemunhas desse combate ao ódio, enquanto uns poucos brasileiros, como Gustavo Barroso, ficavam aqui produzindo esse mesmo ódio que ainda nutre outros a escrever e sustentar teses abestalhadas.
Para concluir, não é sem razão que uma das fontes de valor do Judaísmo é a Ética. Os judeus introduziram os Direitos Humanos e já na Antiguidade condenavam a escravidão, transformando em lei o “não faça aos outros o que não queres que façam a ti”. Considero esse assunto encerrado e não mais voltarei a ele. (Sheilla Figlarz).