Quando pensamos no mês de Av, nossa primeira associação é com
Tishá beAv, um dos mais sombrios dias do calendário,
no qual ocorreram e relembramos grandes tragédias da história
judaica como a destruição dos dois Templos de Jerusalém,
a queda de Betar, de Bar Kokhba, do massacre à resistência
judaica aos romanos, dos decretos de expulsão dos judeus
da Inglaterra e da Espanha, entre outras.
Quando pensamos que o vocábulo Av, em hebraico, também
significa pai e, associando à imagem de um D-us paternal,
podemos questionar quase "hereticamente": Que pai é este?
A resposta, no calendário judaico, vem seis dias depois,
em Tu beAv (15 de Av – 20/8/05): um pai que nos recebe
com alegria, que se volta para nós ao retornarmos a ele.
Embora seja uma data menos conhecida, é uma das mais expressivas,
a meu ver. No Talmud (Taanit 26,2), Tu beAv e Iom Kipur são
considerados "os dias mais significativos para o povo de
Israel".
Da mesma forma que em Tishá beAv tantos fatos trágicos
aconteceram aos judeus, em Tu beAv foram vários fatos
positivos, ao longo da história, marcando o fim de negativos
que vinham ocorrendo conosco, como povo.
Alguns Exemplos:
O fim das mortes da geração do êxodo
Após o caso dos espiões, quando o povo não
quis entrar em Canaã, sua geração foi condenada
a uma jornada de 40 anos no deserto, até que todos falecessem
e uma nova entraria na Terra. Segundo a agadá, isto ocorreu
em Tishá beAv e as mortes ocorriam neste dia; as pessoas
cavavam covas para si e dormiam dentro delas; todo ano morriam
15.000. No último ano no deserto, todos acordaram vivos.
A princípio, pensaram que haviam errado a contagem de
dias e continuaram a dormir nas covas nas noites seguintes até que
no dia 15 viram a lua cheia e tiveram certeza que Tishá beAv
havia passado sem ninguém morrer.
O enterro dos mortos de Betar
O imperador romano Adriano após o genocídio em
Betar deixou os corpos dos judeus abandonados, jogados em um
vinhedo. Após um tempo, um novo rei permitiu que fossem
finalmente enterrados. Todo o povo uniu-se para cuidar do enterro,
que ocorreu em Tu beAv. Nossos Sábios acrescentaram a
bênção Hatov Vehametiv - o "Bom que
faz o bem", no Bircat Hamazon, explicando: “O Bom” -
pois os corpos não apodreceram enquanto não haviam
sido enterrados e "que faz o bem” - pois fez com que
acabassem sendo enterrados.
O dia em que terminavam de trazer lenha ao Templo
Este também era o dia da oferenda de madeira quando as
pessoas traziam gravetos de madeira para o altar do Templo (Nehemias,
10:35). O festival foi instituído pelos fariseus celebrando
a sua vitória sobre os saduceus neste dia.
Após a reconstrução do Segundo Templo, no
tempo de Ezra e Nehemia, era grande a dificuldade de encontrar árvores
para utilizar a madeira na queima dos sacrifícios no altar,
pois a terra encontrava-se devastada. Quando alguém doava
lenha ao Templo, era muito festejado, pois sem lenha o ofício
do Templo teria que ser cancelado. Inimigos impediam pessoas
de chegar com lenha a Jerusalém. O último dia de
corte para o Templo era 15 de Av. Depois, o calor já não
era tão intenso e as madeiras que não estavam secas
corriam o risco de serem infestadas por insetos, invalidando
sua utilização no altar. Por isso, o último
dia de verão era festejado com grande alegria.
O Talmud dá uma razão adicional e curiosa para
a importância deste dia: daí em diante nenhuma madeira
mais foi cortada para o Templo porque o sol não era mais
bastante forte para secá-la (Bavli:Taanit,30b-31a; Tratado
121a-b; Ierushalmi:Taanit 4:11,69c). Teria havido uma mudança
de clima súbita e drástica? Se o sol não
fosse mais forte bastante para secar madeira, uma forte névoa
teria se formado, bloqueando os raios do sol? A terra teria esfriado,
pelo menos na região? Talvez nunca saibamos a resposta
desta intrigante questão.
Amor fraterno
Há outras razões para a causa e o valor do Feriado
do Amor.
O rei de Israel Ierovam ben Nevat, havia retirado o trono de
Jerusalém e colocado dois bezerros de ouro, em Dan e Bet
El, para o povo idolatrar. Mas muitos continuaram indo a Jerusalém.
Para impedi-los, Ierovam espalhou várias barreiras e guardas
nos caminhos.
Num Tu beAv também, o último rei de Israel, Hoshea
ben Elá, removeu as chancelas que Ierovam instalou e declarou: "Quem
quiser peregrinar a Jerusalém, pode ir".
Neste dia foi permitido às tribos casarem-se pela primeira
vez entre si (Números, 36:8ss). Havia dois tipos de casamento
proibidos: entre tribos e entre qualquer uma e a de Benjamin.
A primeira proibição foi transmitida por Moisés,
para garantir os direitos sobre a terra de cada tribo. Se uma
filha tivesse herdado um terreno de seu pai, ao casar-se com
um homem de outra tribo, o terreno passaria a pertencer também
ao marido, prejudicando a tribo dela. Quanto à tribo de
Benjamin, após o episódio da Pileguesh Baguiva,
o povo fez a promessa: “Nenhum de nós dará sua
filha a Benjamin por esposa”.
Anos depois, os sábios analisaram as proibições
e concluíram que os casamentos eram proibidos apenas por
um período. Os primeiros quatorze anos após a entrada
em Canaã foram dedicados à conquista e distribuição
de terras. Casamentos entre tribos eram proibidos durante estes
anos, devido à ausência de demarcação
da terra que seria destinada a cada tribo, que impossibilitava
transferências; depois, tornou-se viável. A promessa
de não casar-se com a tribo de Benjamin era apenas para
aquela geração, pois disseram "Nenhum de nós" -
não "Nenhum de nossos filhos". Os benjaminitas
foram readmitidos na comunidade (Juízes, 21:18 ss). As
permissões foram dadas em Tu Beav, dia de alegria e união
do povo.
Deduzimos que o Feriado do Amor também era um Feriado
de Amor Fraterno.
O dia dos namorados judaico
Tu BeAv: A Origem do Dia dos Namorados e de Valentine’s
Day
Desde tempos bíblicos, o dia 15 de Av tem sido celebrado
como o Feriado do Amor e do Afeto. Em Israel, tornou-se o feriado
das flores, porque nele é costume dar flores de presente
a quem se ama. O Feriado do Amor era conhecido na época
do Segundo Templo. O Talmud diz que as "filhas de Jerusalém
vestiam-se de roupas brancas e iam dançar nos vinhedos,
cantando" em 15 de Av e "quem não tivesse uma
esposa podia ir até lá" para encontrar uma
noiva. (Taanit, 4:8, Talmud Bavli).
Em tempos bíblicos, o Feriado do Amor era celebrado com
tochas e fogueiras. Hoje em dia, em Israel, é costume
enviar flores a quem se ama ou para os parentes mais íntimos.
A significação e a importância do feriado
aumentaram em anos recentes. Canções românticas
são tocadas no rádio e festas 'Feriado do Amor'
são celebrados à noite, em todo o país.
Não há halakhot, preceitos para esta data, exceto
a orientação que, a partir de 15 de Av, devemos
aumentar o estudo de Torá, pois nesta época do
ano as noites começam a alongar-se e "a noite foi
criada para o estudo”. Uma ótima noite para vocês!
O amor no judaísmo é essencial. Rabi Haim Vital,
cabalista, comparou por guemátria amor em hebraico, ahavá,
(valor numérico 13) com o Nome de D-us (26), concluindo
que, quando duas pessoas se amam, a combinação
de seu amor (13+13) intensifica a presença divina entre
eles (D-us=26=13+13). Portanto, procure o amor e ame intensamente!
Cônjuges, namorados, amigos, pais, família... Quando
duas pessoas compartilham suas existências, com troca e
harmonia, D-us se faz presente!
1. Adaptado e resumido do artigo de mesmo nome, da autora, publicado
na Revista O Hebreu, nº 274, 2003.
* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em
Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica da USP,
fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos da UERJ,
professora (aposentada) coordenadora do Setor de Hebraico da
UFRJ.