A cigarra não passa de um pequeno inseto, cuja característica
principal é o seu silvar intenso e estridente. Relata
a fabula que enquanto a cigarra emitia o seu incessante estribilho,
a formiguinha se dedicava à tarefa de construir a sua
toca e armazenar provisões para o inverno. O fim da história,
todos conhecemos...
Israel é considerado como um dos menores países
do mundo territorialmente falando e é reconhecido como
uma nação de sofisticada tecnologia, que remonta
aos tempos de recuperação dos pantanais e das áreas
desérticas, das revolucionárias técnicas
agrícolas e sistemas de irrigação adotados
em diversos países. Também nos campos da medicina, "hi-tech" e
software, energia nuclear e solar, indústria armamentista,
aeronáutica e espacial, hidrologia, etc, etc. este país
se destaca mundialmente.
Todavia, o que acontece no cotidiano, ultrapassa em complexidade
a imagem de Israel no cenário internacional e o rotineiro
conflito com os palestinos. Aqueles menos atentos à dinâmica
social e política do país ficariam escandalizados
com a capacidade que esta micronação tem em emitir
do "Knesset" os mais estridentes ruídos que
reverberam em tumultos políticos e de protesto, que fariam
inveja às mais agitadas platéias populares européias.
Enquanto que a formiga palestina se prepara para os próximos
invernos, que sugerem temperaturas abaixo do normal, a cigarra
israelense continua se empavonando de cima das muralhas de segurança,
defendendo a frágil premissa de que "se os hebreus
lograram sobrepujar o Faraó do Egito conseguirão
também sobreviver sem problemas as geadas que estão
a sua frente...". A cigarra tem estado ativa no Parlamento
israelense, onde não faltam discordâncias extremas
e confrontações sem fim, quer devido a desocupação
de Gaza, quer devido ao escândalo eleitoral que envolve
um dos filhos de Ariel Sharon, e, não menos importante,
em virtude das amargas divergências no tocante à tendência
econômica, cuja drasticidade infligiu a quase dois milhões
de habitantes - dos quais 700 mil crianças - sérias
dificuldades de subsistência nos últimos dois anos.
Para agravar o quadro, várias instituições
internacionais de estatística qualificam Israel como
um dos dez países mais corruptos sob o aspecto político
e, proporcionalmente comparando, como um dos países que
mantém uma das populações mais pobres do
mundo.
Na grave questão da desocupação das colônias
de Gaza, a opinião pública do país está confusamente
dividida. Enquanto aqueles partidários de direita no
Likud, atualmente no poder, depositam de um lado plena confiança
no primeiro-ministro Sharon, de outro se defrontam com o dilema
da infringência de um dos principais axiomas do estatuto
partidário, qual seja a incondicional salvaguarda territorial
do país. Isto viria em contradição com
o desmantelamento das colônias ortodoxas ali existentes
e a devolução de terras aos palestinos. As facções
religiosas, por sua parte, têm organizado passeatas de
protestos sistematicamente, procurando penetrar na área
em litígio de Gush Katif, porém sem sucesso, reprimidos
que têm sido pela enérgica ação das
forças policiais e militares.
Evidentemente, esse quadro político vem minando a integridade
política nacional. Como conseqüência, o ministro
da Fazenda e ex-primeiro-ministro Beniamin Nataniahu, acaba
de demitir-se do governo por motivos de divergência ideológica
com a cúpula governamental no que toca a questão
de Gaza. A verdadeira intenção de Nataniahu, no
entanto, segundo todos os indícios levam a crer seria
provocar a antecipação das eleições
gerais para o final de 2005, nas quais disputaria o cargo de
primeiro mandatário como principal candidato oposicionista.
O ministro demissionário também se vale do clima
geral para acusar a atual liderança palestina de apatia
e indiferença totais frente às ações
terroristas, o que provavelmente viria a desencadear, segundo
sustenta, a intensificação das confrontações
nas fronteiras, quando concluída a desocupação
de Gaza.
* Salo Yakir é brasileiro, natural de São Paulo,
administrador de sistemas computadorizados, cursou a Academia
Rupin de Tecnologia (Israel), é formado em hebraico, no
curso de Línguas Orientais e em Português pela USP,
e Economia, pela Faculdade de Economia e Administração
D.Pedro II, São Paulo. É correspondente autônomo
(free-lancer) e reside em Israel, no Kibbutz Dovrat.