No ano passado, Paulo Moura, jornalista do jornal Público
(de Portugal), entrevistou Omar Bakri Mohammed, um xeique que
se autoproclamava "líder do Londonistão" e "Teórico
da Al-Qaeda na Europa". Na entrevista, publicada a 18 de
abril de 2004, Omar Bakri falava da "inevitabilidade" de
grandes atentados terroristas em Londres e dos grupos que os
preparavam. O “profeta” Bakri, como o classificou
o jornalista português, revelou um ano e três meses
antes, na entrevista sobre os atentados em Londres. Ele está na
lista dos xeiques radicais que o governo britânico quer
deportar após os atentados de julho. Omar Bakri viajou
para o Líbano onde foi detido pela polícia dois
dias depois de ter chegado a Beirute. De origem síria,
mas com passaporte libanês, Bakri reside há quase
duas décadas no Reino Unido, onde procurou asilo político
depois de ter sido expulso da Arábia Saudita, em 1986.
Em Londres, fundou o movimento radical islâmico Al-Muhajiroun.
Em 2001, declarações suas louvando os autores dos
atentados de 11 de Setembro geraram polêmica internacional.
Eis alguns trechos daquela entrevista publicada em 18 de abril
de 2004.
Público — Acha que vai ocorrer algum grande atentado
em Londres?
Omar Bakri Mohammed: É inevitável. Porque estão
sendo preparados vários, por vários grupos.(…)
P — Há muitos desses grupos “free-lance” na
Europa?
O — Cada vez mais. O que é perigoso, porque nem
todos têm a preparação teórica adequada.
Aqui em Londres há um grupo muito bem organizado, que
se auto-intitula Al-Qaeda-Europa. Divulgam, pela internet e email,
muito material de propaganda e têm um apelo muito grande
sobre os jovens muçulmanos. Sei que estão prestes
a lançar uma grande operação.(…)
P — Como sabemos que um atentado é realmente da
Al-Qaeda?
O — É fácil. Em primeiro lugar são
sempre operações em grande escala. O texto divino é claro
quanto à necessidade de provocar “o máximo
dano possível". O operacional tem, portanto, de certificar-se
de que mata o maior número de pessoas que pode matar.
Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo
lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital:
uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete,
para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques
são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo.
Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase
para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum
sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem
palestinos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio,
da morte.(…)
P — Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares
de civis inocentes?
R — Nós não fazemos a distinção
entre civis e não civis, inocentes e não inocentes.
Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente
não tem qualquer valor. Não tem santidade.
P — Mas se huver muçulmanos entre as vítimas.
O — Isso está previsto. Segundo o Islã, os
muçulmanos que morrerem num ataque serão aceitos
imediatamente no paraíso como mártires. Quanto
aos outros, o problema é deles. D-us mandou-lhes mensagens,
os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não
acreditaram. D-us disse: “Quando os descrentes estão
vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem,
não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe,
porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles".(…)
P — O Corão diz isso?
O — Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão
e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam
com quem sabe. Os seculares dizem que “o Islã é a
religião do amor". É verdade. Mas o Islã também é a
religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo.
Maomé disse: “eu sou o profeta da misericórdia".
Mas também disse: “Eu sou o profeta do massacre".
A palavra “terrorismo” não é nova entre
os muçulmanos. Maomé disse mais: “Eu sou
o profeta que ri quando mata o seu inimigo". Não é portanto
apenas uma questão de matar. É rir quando se está a
matar.
P — Isso quer dizer que o terrorismo é natural e
legítimo?
O — Só é legítimo o terrorismo divino.(…)
P — O que pretende a Al-Qaeda?
O — O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva,
contra os que atacaram o Islã. E a longo prazo querem
restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter
o mundo inteiro.(…)
P — Os EUA podem negociar com a Al-Qaeda?
O — A Al-Qaeda é por natureza uma entidade invisível,
não é um Estado, por isso não pode dialogar
com um Estado. O seu projeto é derrubar os governos corruptos
dos países muçulmanos, substituí-los por
governos islâmicos e reconstituir o califado. Nessa altura,
como Estado, poderão negociar com os EUA, de igual para
igual. Primeiro, tentarão um pacto de segurança
com eles. Dirão: nós fornecemos o petróleo
e viveremos em paz, mas na condição de podermos
divulgar livremente o Islã no Ocidente. Se os americanos
não permitirem isto, então o califado terá de
lhes declarar guerra.(…)