O dramaturgo egípcio que não se cansa de apoiar Israel
Por: Orly Halpern

Ali Salem é um homem com uma missão. Por mais de uma década, o conhecido dramaturgo egípcio, de quem peças e filmes estão entre as mais famosas no mundo árabe, tem tentado fazer egípcios e israelenses parecidos uns com os outros – uma tarefa que ele diz ser "inevitável e inescapável".

Por essa razão, Salem, 69 anos, tem sido um sincero e inquebrantável apoiador de Israel em seu próprio país. Ele visitou Israel inúmeras vezes, e certa vez dirigiu seu próprio carro através do Sinai para Israel e escreveu um livro sobre isso.

Ele fez amizades com muitos acadêmicos e intelectuais israelenses, e nesta semana ele veio a Israel a convite do professor Gabriel Rosenbaum, que o conhecera durante sua primeira visita a Israel e que o vira no Egito no mês passado.

" Ali Salem tem direta e consistentemente atuado pela normalização dos laços entre seu país e Israel", disse Rosenbaum, diretor do Departamento de Literatura e Língua Árabe da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Mas Salem tem também pago o preço. Ele tem sido desprezado, xingado, cuspido, e até agredido. Ele foi expulso da Associação dos Artistas Egípcios por um ano. Mas o solitário egípcio promotor da paz nunca desistiu de sua crença, nem do seu objetivo. "Por 11 anos estive exercendo essa missão e eu não tenho medo”, conta Salem a um grupo de acadêmicos israelenses que se reuniram esta semana para recebê-lo.

Para egípcios e árabes ao redor do mundo seu talento, no final das contas, permanece mais importante que o seu apoio a Israel. Muitos atores disputam os papéis dos seus filmes. Sua peça teatral “School of the Troublemakers” (Escola dos Criadores de Caso), é uma das mais famosas peças árabes dos tempos modernos.

Salem se sobressai no mundo árabe por seu humor satírico e sua falta de inibição em expressar seus pontos de vista no seu trabalho. Um liberal secular, ele há muito tem criticado os regimes totalitários do Egito, o que ficou evidente já em 1969 com sua peça “Oedipus Comedy: You are the One Who Killed the Monster” (Comédia Édipo: Você foi o Único que Matou o Monstro). Essa peça criticava o regime de Gamal Abdel Nasser enquanto Nasser era vivo. E foi traduzida por Rosenbaum para o hebraico.

Estudantes do Oriente Médio e alunos de estudos árabes e palestinos do colégio da Universidade Rothberg International também tiveram a oportunidade de encontrar Salem, cujos filmes eles viram e interpretaram seus textos em sala de aula. Numa aula, Salem e Rosenbaum leram juntos, em árabe, da Comédia Édipo.

E quando Salem entrou no salão de conferências onde cerca de 30 acadêmicos o aguardavam, um desconfortável silêncio tomou conta.

"É muito difícil sentar-se junto com todas essas grandes mentes", disse ele numa voz grave com um grande sorriso, para a gargalhada geral.

" Ele nos visitou durante tempos muito difíceis e ele corajosamente tem falado contra os suicidas-bomba”, disse o professor Menachem Milson, um especialista em Egito na Universidade.

Agora, Salem disse, sua missão tornou-se mais fácil desde que as relações entre o Egito e Israel se aqueceram. "Nos dias atuais, pelo menos as pessoas pensam sobre isso”, observou.

Alguns acreditam que ele ainda esteja em perigo. "Ele corre o risco de ser ferido por fundamentalistas muçulmanos por vir aqui", disse o professor Meir Bar-Asher, diretor do Instituto Universitário de Estudos Asiáticos e Africanos.

Em sua palestra para o grupo, Salem disse que o caminho para a paz passa pelo setor de negócios. "Os empresários vão determinar o nível de paz entre Israel e o Egito," declarou o teatrólogo. "O papel dos intelectuais é secundário”.
Ele observou que 20 empresários egípcios estiveram em Israel naquela semana. "No próximo ano eu espero que sejam 200”.

Ele comentou as recentes reformas políticas em seu país e o fato de que o governo permitiu que as manifestações da oposição tivessem lugar. Desde que o presidente Anwar Sadat foi assassinado por extremistas islâmicos em 1981, leis de emergência foram editadas e manifestações foram proibidas.

" Precisamos respeitar o desejo do povo de sair e gritar e então, quando estivermos calmos, discutiremos [esses assuntos]," ele acrescentou.

Muitos receiam que liberdade de expressão e eleições democráticas nos países muçulmanos liberariam as forças extremistas. Mas Salem pensa de outra forma: “A única solução para o extremismo é o liberalismo – econômico e político", ele diz, "porque isso leva as pessoas a pensarem realisticamente”.
Ele só espera que tudo aconteça logo. “Estou cansado de ser um alvo".

* Orly Halpern é repórter do jornal Jerusalém Post. Material publicado na edição de 31 de março de 2005. Traduzido pro Szyja Lorber.