Yad Vashem

Antonio Carlos Coelho *

Não sei se numa coluna de turismo seria adequado escrever sobre o memorial das vítimas da Shoá, pois o Yad Vashem não é um local comum e não pode ser visitado com o mesmo espírito que se visita um monumento histórico, religioso, um museu. No entanto, estou certo de que, aquele que o visita terá seu sentimento tomado de grande emoção e responsabilidade. O Yad Vashem, Memorial da Shoá, embora não se compare a nenhum outro local de visitação turística, deveria estar contemplado em todos os roteiros turísticos e de peregrinação a Israel, pois além do que representa para a história judaica, é um alerta a toda humanidade.

O que visitar no Yad Vashem? Tudo, desde o bloco central, onde há fotos, filmes e objetos recolhidos nos campos de extermínio, até o monumento às comunidades, localizado no final da área do memorial. A caminhada de um espaço ao outro permite que o visitante faça uma reflexão sobre os perversos efeitos do sentimento de superioridade racial, cultural e religiosa.

Para mim, o local mais impressionante no Yad Vashem, é o monumento onde está a “Chama da Memória”. Ele me desperta um sentimento de profunda dor e de responsabilidade e pelo que aconteceu a 6.milhões de pessoas. Se esse local me diz que houve pessoas responsáveis pelo sofrimento e morte imposta aos judeus, me diz também que, somos responsáveis pela indiferença que leva à descriminação, ao descomprometimento com o outro tão presente em nossa sociedade. O Yad Vashem quer ensinar ao visitante que enquanto houver uma pessoa sofrendo descriminação não é possível calar. Este é o seu sentido.

Nada mais importante do que visitar o Yad Vashem, principalmente quando vemos que os 60 anos que nos separam da Shoá, poucas pessoas lembram ou sabem o que ocorreu. Recente pesquisa feita no Brasil apontou que menos de 25% da população sabe o que aconteceu nos anos do nazismo e, certamente desconhecem outros acontecimentos importantes da história. Esquecer ou desconhecer é dar lugar para que tragédias ocorram novamente. É dar lugar à literatura revisionista, é permitir que a mentira vença, que as ideologias se imponham, que regimes totalitários tomem conta do poder, isto porque, sempre haverá quem dê ouvidos às suas mentiras e a suas argumentações aparentemente coerentes.

Há algum tempo conversava com um deputado e pastor que disse, com certo ar de vaidade, que tinha visitado Israel várias vezes. Que tinha até levado uma representação da sua igreja manifestar simpatia ao povo judeu e a Israel, no entanto, disse não ter visitado, em nenhuma das vezes, o Yad Vashem. Não posso aceitar que uma peregrinação de caráter religioso ignore ou não inclua em seu roteiro o Memorial do Holocausto. No entanto, não são poucas aquelas que concentram suas visitas somente aos locais de interesse exclusivamente relacionados à sua fé e passam ao largo do que fatalmente os faria refletir sobre os efeitos do sentimento da supremacia religiosa, ideológica, cultural. Duvido dessa fé. Duvido que alguém possa crer em D-us e, ao mesmo tempo, não se responsabilizar pela dignidade humana. Duvido das intenções daqueles que se aproximam do povo judeu para fortalecer seus argumentos teológicos e se omitem da responsabilidade humana para com os seus semelhantes, ou atribuem a responsabilidade aos outros que, ao seu modo de ver, não se enquadram na sua denominação religiosa. Esses sim, ao se desresponsabilizar ou ao atribuir a responsabilidade a outros, manifestam seu gênio totalitário e segregador, como aquele responsável pelo Holocausto.

* Antonio Carlos Coelho é professor, colaborador do jornal Visão Judaica e diretor do Instituto Ciência e Fé.