Visão Judaica - Edição N° 16
:. Raízes judaicas no Brasil.:

Por: Sérgio Feldman*

Na última semana de julho passado, tive o privilégio de participar do XXII Simpósio Nacional da ANPUH (Associação Nacional de História). Uma experiência profissional muito enriquecedora e uma troca de saberes muito significativa para um historiador. No que tange a este espaço, gostaria de compartilhar alguns resultados de minhas pesquisas e apenas duas vivências: um curso que ministrei e um passeio que realizei.
Minha participação no simpósio consistia de uma comunicação no Simpósio Temático de História Antiga e um mini-curso. As duas atividades versavam sobre a condição judaica e sobre o antijudaísmo. Evita-se utilizar o termo anti-semitismo por ser anacrônico. Esta expressão surgiu na Alemanha no século XIX, com Wilhelm Marr, criador do termo e um dos idealizadores da Liga Anti-Semita. Por isso no mundo antigo preferimos usar a expressão "antijudaísmo". Minha comunicação versava sobre a postura dos Padres da Igreja, um grupo de teólogos que desenvolveu e consolidou a religião cristã (católica), definindo seus fundamentos básicos: a divindade de Jesus, a Trindade e os fundamentos teológicos. Uma das coisas que foram definidas foi a exclusão dos judeus da cidadania e dos direitos jurídicos respeitados sob o Império Romano e alterados desde que os imperadores se converteram e aliaram o Império com a Igreja (desde 313 d.E.C.). Os teólogos fundamentaram que o Antigo Testamento (denominado pelo Judaísmo como Tanach ou Bíblia hebraica), existia para prever e provar a verdade do Novo Testamento.
Algumas das crenças de pensadores cristãos deste período: 1) Os patriarcas hebreus não eram judeus, mas sim cristãos. Os judeus eram desobedientes e seguidamente reprimidos por suas atitudes. Os hebreus já eram cristãos e conheciam a Trindade. 2) A destruição do Templo, o Exílio e a perda da Terra Santa seria resultado da descrença dos judeus em Jesus e por sua postura inadequada em relação às advertências de D-us, feitas pelos profetas. Os judeus são acusados de deicidas (morte de Jesus) e assassinos dos profetas. 3) Os judeus não enxergavam a verdade. Eram "carnais", vivendo em função dos prazeres e bens materiais. Essa visão colocava os judeus num grupo que se aproximava do Diabo. Muitos dos padres fundadores da Igreja consideravam os judeus como aliados do Diabo. O principal acusador foi João Crisóstomo. Suas homilias e prédicas foram proferidas na cidade de Antioquia, na Síria. Todos os padres posteriores manifestaram a mesma opinião. Alguns destes são: Jerônimo, Agostinho de Hipona, o Papa Gregório Magno Isidoro de Sevilha. Esta realidade e estas idéias seguirão e se agravarão através da Idade Média.
Meu mini-curso ampliou este tema. Falamos do antijudaísmo através do mundo antigo (sob o helenismo e sob o Império Romano) e na Idade Média. Os participantes eram professores de História do interior do Brasil: nordestinos (Paraíba, Sergipe, Alagoas Pernambuco, etc.); alunos da região Centro-Oeste (Tocantins, Mato Grosso) e até um do Pará. A maioria tinha enorme simpatia pelos judeus e buscavam saber mais do judaísmo; alguns repletos de dúvidas e de críticas, questões e curiosidades, me perguntavam antes e depois das aulas, de maneira incessante; todos eram pessoas relativamente desejosas de entender as raízes do preconceito e os "porquês" de tanto ódio aos judeus. Foi uma experiência única e maravilhosa. Eu espero ter colaborado para diminuir o preconceito.
Outra experiência magnífica foi a visita à sinagoga Kahal Tzur Israel situada na Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, em plena Recife. Construída e utilizada durante o domínio holandês, ficou escondida por alguns séculos. A comunidade do Recife com o apoio de inúmeras instituições e pesquisadores e com patrocínio da família Safra, pesquisou, promoveu escavações e restauração das paredes e pisos. Surgiu um museu magnífico e uma sinagoga sefaradi (simbólica) foi montada nos dois últimos pisos do prédio. É uma obra e um projeto digno de louvor. Recomendo todos que viajarem para o Nordeste, que coloquem este local no seu roteiro: simples, bem elaborado e muito significativo. Eu senti um forte tremor e uma emoção intensa ao visitar o local e saber de tudo o que foi feito. O site do arquivo judaico pode ajudar a quem queira adquirir os livros e materiais divulgados e criados pelo Arquivo. Anotem: www.arquivojudaicope.org.br
Isto tudo mostra que a continuidade e a resistência do judaísmo, levou a renovação da cultura e da identidade, apesar de todas as perseguições: dos Padres da Igreja no final do mundo antigo, e da Inquisição no final da Idade Média e primórdios da história do Brasil. Como entender esta resistência judaica? Sugiro que releia meu artigo na ultima edição e o próximo que escreverei sobre o assunto. O debate segue na pauta.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.

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