Por: Sérgio
Feldman*
Na última semana de
julho passado, tive o privilégio de participar do XXII
Simpósio Nacional da ANPUH (Associação Nacional
de História). Uma experiência profissional muito
enriquecedora e uma troca de saberes muito significativa para
um historiador. No que tange a este espaço, gostaria de
compartilhar alguns resultados de minhas pesquisas e apenas duas
vivências: um curso que ministrei e um passeio que realizei.
Minha participação no simpósio consistia
de uma comunicação no Simpósio Temático
de História Antiga e um mini-curso. As duas atividades
versavam sobre a condição judaica e sobre o antijudaísmo.
Evita-se utilizar o termo anti-semitismo por ser anacrônico.
Esta expressão surgiu na Alemanha no século XIX,
com Wilhelm Marr, criador do termo e um dos idealizadores da Liga
Anti-Semita. Por isso no mundo antigo preferimos usar a expressão
"antijudaísmo". Minha comunicação
versava sobre a postura dos Padres da Igreja, um grupo de teólogos
que desenvolveu e consolidou a religião cristã (católica),
definindo seus fundamentos básicos: a divindade de Jesus,
a Trindade e os fundamentos teológicos. Uma das coisas
que foram definidas foi a exclusão dos judeus da cidadania
e dos direitos jurídicos respeitados sob o Império
Romano e alterados desde que os imperadores se converteram e aliaram
o Império com a Igreja (desde 313 d.E.C.). Os teólogos
fundamentaram que o Antigo Testamento (denominado pelo Judaísmo
como Tanach ou Bíblia hebraica), existia para prever e
provar a verdade do Novo Testamento.
Algumas das crenças de pensadores cristãos deste
período: 1) Os patriarcas hebreus não eram judeus,
mas sim cristãos. Os judeus eram desobedientes e seguidamente
reprimidos por suas atitudes. Os hebreus já eram cristãos
e conheciam a Trindade. 2) A destruição do Templo,
o Exílio e a perda da Terra Santa seria resultado da descrença
dos judeus em Jesus e por sua postura inadequada em relação
às advertências de D-us, feitas pelos profetas. Os
judeus são acusados de deicidas (morte de Jesus) e assassinos
dos profetas. 3) Os judeus não enxergavam a verdade. Eram
"carnais", vivendo em função dos prazeres
e bens materiais. Essa visão colocava os judeus num grupo
que se aproximava do Diabo. Muitos dos padres fundadores da Igreja
consideravam os judeus como aliados do Diabo. O principal acusador
foi João Crisóstomo. Suas homilias e prédicas
foram proferidas na cidade de Antioquia, na Síria. Todos
os padres posteriores manifestaram a mesma opinião. Alguns
destes são: Jerônimo, Agostinho de Hipona, o Papa
Gregório Magno Isidoro de Sevilha. Esta realidade e estas
idéias seguirão e se agravarão através
da Idade Média.
Meu mini-curso ampliou este tema. Falamos do antijudaísmo
através do mundo antigo (sob o helenismo e sob o Império
Romano) e na Idade Média. Os participantes eram professores
de História do interior do Brasil: nordestinos (Paraíba,
Sergipe, Alagoas Pernambuco, etc.); alunos da região Centro-Oeste
(Tocantins, Mato Grosso) e até um do Pará. A maioria
tinha enorme simpatia pelos judeus e buscavam saber mais do judaísmo;
alguns repletos de dúvidas e de críticas, questões
e curiosidades, me perguntavam antes e depois das aulas, de maneira
incessante; todos eram pessoas relativamente desejosas de entender
as raízes do preconceito e os "porquês"
de tanto ódio aos judeus. Foi uma experiência única
e maravilhosa. Eu espero ter colaborado para diminuir o preconceito.
Outra experiência magnífica foi a visita à
sinagoga Kahal Tzur Israel situada na Rua do Bom Jesus, antiga
Rua dos Judeus, em plena Recife. Construída e utilizada
durante o domínio holandês, ficou escondida por alguns
séculos. A comunidade do Recife com o apoio de inúmeras
instituições e pesquisadores e com patrocínio
da família Safra, pesquisou, promoveu escavações
e restauração das paredes e pisos. Surgiu um museu
magnífico e uma sinagoga sefaradi (simbólica) foi
montada nos dois últimos pisos do prédio. É
uma obra e um projeto digno de louvor. Recomendo todos que viajarem
para o Nordeste, que coloquem este local no seu roteiro: simples,
bem elaborado e muito significativo. Eu senti um forte tremor
e uma emoção intensa ao visitar o local e saber
de tudo o que foi feito. O site do arquivo judaico pode ajudar
a quem queira adquirir os livros e materiais divulgados e criados
pelo Arquivo. Anotem: www.arquivojudaicope.org.br
Isto tudo mostra que a continuidade e a resistência do judaísmo,
levou a renovação da cultura e da identidade, apesar
de todas as perseguições: dos Padres da Igreja no
final do mundo antigo, e da Inquisição no final
da Idade Média e primórdios da história do
Brasil. Como entender esta resistência judaica? Sugiro que
releia meu artigo na ultima edição e o próximo
que escreverei sobre o assunto. O debate segue na pauta.
* Sérgio Feldman é
professor adjunto de História Antiga do Curso de História
da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História
pela UFPR.