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Visão
Judaica - Edição N° 16 |
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O que Israel pode ensinar aos EUA sobre guerra urbana?.: |
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Por: Yagil Henkin*
Agora que as tropas norte-americanas
sofrem ataques diários no Iraque, seus comandantes fariam
bem em dar uma boa examinada nas lições duramente
aprendidas por Israel na sua experiência com o combate urbano.
A "Operação Escudo de Defesa", um ataque
ocorrido no início do ano passado, que os israelenses definiram
como "antiterrorista", gerou muita polêmica, mas
também consistiu num bom modelo de táticas militares.
Após uma série de ataques suicidas cometidos por
palestinos, o exército israelense invadiu várias
cidades densamente povoadas no território ocupado da Cisjordânia,
incluindo Nablus e Jenin. Em um prazo de uma semana, Israel obteve
o controle sobre ambas.
Vinte e nove soldados israelenses morreram nessas batalhas, todos
eles, com exceção de seis, nos combates pelo controle
do campo de refugiados de Jenin. Embora o número de mortes
palestinas seja, é claro, uma questão altamente
polêmica, os israelenses calculam que mataram 132 pessoas
em Nablus e Jenin. Quando comparados com as baixas em combates
urbanos ocorridos nos últimos anos - tais como as da luta
na T
Chechênia, onde o exército russo perdeu pelo menos
1.500 soldados durante o seu primeiro assalto a Grozny - esses
números parecem ser impressionantemente baixos. O combate
urbano é o tipo de ofensiva militar mais difícil
que existe porque as tropas defensivas contam com vantagens capazes
de neutralizar a força e a tecnologia superiores dos invasores.
Os defensores estão não só mais bem familiarizados
com o terreno, mas muitas vezes contam com tempo para instalar
minas, posicionar franco-atiradores e organizar emboscadas.
E, embora as forças terrestres invasoras sejam apoiadas
por tanques e veículos blindados de transporte de tropas,
o exército de defesa é capaz de neutralizar o apoio
aéreo e de artilharia ao "abraçar" as
tropas do adversário - enfrentando-as a curta distância,
o que aumenta o risco para os invasores de sofrerem baixas causadas
pelo chamado "fogo amigo". Além do mais, os soldados
invasores precisam manter um nível especialmente elevado
de alerta: Os franco-atiradores podem atacá-los não
só pela frente, pelas costas e pelas laterais, mas são
também capazes de se ocultar nos andares superiores ou
telhados de edifícios ocupados por civis, ou mesmo em esgotos
subterrâneos. A fumaça e o fogo inevitáveis
fazem com que a localização dos alvos seja muito
mais difícil: cada tiro pode atingir um civil, e cada projétil
de morteiro destrói a casa de alguém.
Essa confusão aumenta ainda mais quando as forças
defensoras se aproveitam da existência de população
civil. Conforme as tropas norte-americanas descobriram em Umm
Qasr e em Nasiriya, os soldados e combatentes paramilitares iraquianos
não hesitam em se vestir com trajes civis e se misturar
à população. Além do mais, a fim de
criarem um pretexto para denunciar a agressão norte-americana,
eles atiram de posições localizadas atrás
de residências, e a seguir aguardam que tropas norte-americanas
retornem fogo. Embora o poder aéreo e as munições
guiadas por sistemas de precisão possam parecer ser a alternativa
lógica ao caos do combate urbano, elas raramente são
suficientes para que se vença uma guerra. É possível
obliterar o inimigo a partir do alto, mas não dá
para se obter o controle do solo sem soldados a pé e veículos
blindados pesados.
Assim, uma vitória norte-americana exige que tropas terrestres
penetrem em Bagdá, aonde vão se deparar de frente
com as condições complicadas do campo de batalha
urbano. Não obstante, conforme demonstra a experiência
dos israelenses na Cisjordânia, os obstáculos encontrados
não têm que necessariamente ser insuperáveis.
Em Nablus, o exército israelense conseguiu alcançar
o seu mais notável sucesso - assumindo o controle da casbah
da cidade, um labirinto densamente povoado composto de ruelas
estreitas e casas de pedra - em poucos dias. As forças
israelenses não fizeram uso de artilharia, e apesar de
as estimativas terem indicado que haveria dezenas de baixas, tiveram
apenas quatro soldados mortos. A chave para o sucesso foi uma
espécie de "imprevisibilidade planejada". Ao
invés de utilizarem táticas lineares convencionais
- capturando primeiro os arredores da cidade, e a seguir atacando
sistematicamente casa por casa - as forças israelenses
atacaram simultaneamente a partir de várias direções.
Elas utilizaram uma técnica conhecida no jargão
militar como "enxameamento", na qual várias unidades
pequenas, se movimentando em ziguezague e outras formações
aparentemente aleatórias, se infiltraram até o meio
da cidade e atacaram de dentro para fora. As unidades desapareciam
constantemente, apenas para reaparecerem em locais totalmente
diferentes, atacando de novos ângulos que mantinham os defensores
desorientados e incapazes de se entrincheirarem. É claro
que a tática do "enxameamento" não se
constitui em um remédio milagroso para os problemas associados
ao combate urbano. Ele é um pesadelo para os estrategistas
que procuram coordenar as ações das várias
unidades, e é extremamente difícil para os próprios
combatentes saber o que está acontecendo em larga escala.
Mesmo assim, as forças norte-americanas, que possuem mais
tecnologia de comunicação do que até mesmo
os israelenses, são certamente capazes de se engajar em
táticas de combate não convencionais. Além
do mais, os iraquianos não são bem coordenados e,
tendo estado por muito tempo sem contato com o mundo externo e
com a história militar recente, provavelmente terão
dificuldade para entender o que as forças "enxameantes"
pretendem fazer, e titubearão em enfrentá-las.
A experiência israelense demonstra que a maior parte das
baixas em conflitos urbanos ocorre quando os soldados se movimentam
ao longo das ruas da cidade, expostos ao fogo inimigo. Portanto,
quando Israel capturou a casbah em Nablus, os soldados se deslocaram
através de buracos que cortaram ou explodiram em muros
e paredes entre casas vizinhas. Os franco-atiradores israelenses
se posicionaram nos prédios mais altos e trabalharam em
conjunto com as tropas nas ruas a fim de identificar alvos e confundir
a expectativa dos defensores das cidades invadidas. Conforme disse
um combatente palestino após o conflito: "Os israelenses
estavam por toda parte: na retaguarda, nas laterais, à
direita e à esquerda. Como poderíamos lutar desse
jeito?".
Há também lições importantes a serem
aprendidas com a batalha travada por Israel no campo de refugiados
de Jenin. Aquela parte da operação foi manchete
nos jornais de todo o mundo, após os palestinos terem anunciado
a morte de 500 moradores e afirmado que houve uma destruição
indiscriminada por parte de Israel - alegações que
foram contestadas pela ONU. Ironicamente, foi a relutância
demonstrada por Israel para atacar Jenin com força total,
assim como o seu compromisso de proteger vidas e propriedades
palestinas a quase todo custo, que resultaram em mais mortes israelenses
e palestinas e em mais destruição de propriedades
do que teria ocorrido de outra forma.
Em um esforço para evitar baixas civis e uma má
publicidade, Israel resistiu ao impulso inicial de utilizar tratores
de demolição e tanques de guerra no campo de refugiados.
Somente após 13 dos seus soldados terem morrido em uma
emboscada foi que o exército autorizou o uso generalizado
dos tratores. Porém, como a batalha já estava em
andamento, a operação de entrada dessas máquinas
no conflito foi muito menos precisa e bem mais ruinosa do que
seria uma batalha com força total desencadeada desde o
início. Seria bom que os estrategistas militares norte-americanos
tivessem tais fatos em mente, mesmo que membros do público
e da mídia condenassem qualquer indício de utilização
de "força excessiva". Em última instância,
o combate urbano sempre se constitui em uma operação
suja, não importa quais sejam os armamentos e as táticas
utilizados por determinado exército. Mas, conforme demonstra
a experiência de Israel, com a utilização
das táticas corretas, a vitória pode ser alcançada
e as baixas minimizadas.
* Yagil Henkin é historiador militar e
pesquisador das forças armadas israelenses
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