Visão Judaica - Edição N° 16
:. O anti-semitismo e a má consciência européia .:
Por:Gilles Lapouge *


(Paris) - Raros são os Estados cuja história foi tão agitada quanto Israel. Disperso, negado, massacrado durante 2 mil anos, Israel renasce em 1948. Depois, de guerra em guerra, a história contemporânea de Israel é apenas uma longa tragédia, à semelhança, embora também diferente, do que foi outrora a história dos judeus, desde o exílio de Babilônia, as destruições do Templo, a ocupação romana ou a morte do Cristo. Uma das singularidades da "diáspora" judaica, como do Estado de Israel depois de 1948, é que seu destino está entrelaçado com o destino e as vicissitudes de outros países, embora se mantendo autônomo. Todo judeu de ontem, todo israelense de hoje, possui duas histórias, dois calendários: por uma parte, a cronologia própria e exclusiva do povo judaico - embora essa cronologia "judaica" varie de uma comunidade para outra: o "tempo" dos judeus franceses é medido pelo chamado "Affaire Dreyfus" (o Caso Dreyfus), o escândalo do Panamá ou as leis antijudaicas do Marechal Pétain em 1940, enquanto o "tempo" dos judeus poloneses é o dos "pogroms", das expulsões, das sinagogas hassídicas da Europa Central.
Se analisarmos o período contemporâneo (a partir de 1948), encontramos a mesma mistura do tempo de Israel e do tempo universal: país criado sob a pressão da Diáspora, mas com o consentimento das nações, o Estado de Israel foi um façanha arriscada na época da Guerra Fria e depois nas relações entre o Ocidente e os árabes.
É preciso acrescentar que a demografia de Israel (antes ou depois de 1948) é controlada desde o exterior: depende ao mesmo tempo do ventre das mulheres israelenses e dos grandes fluxos mundiais: os primeiros "sionistas", a começar pelo húngaro Theodor Herzl, depois pelos pioneiros, (os David Ben Gurion, os Menahen Beguin...) vêm da esfera russa e da Mitteleuropa (Europa Central) e também da Alemanha, portanto, ashkenazim (asquenazitas) e sepharadim (sefarditas).
Finalmente, com a dissolução da União Soviética, chegou uma segunda onda de emigrantes russos - não mais antigos súditos do Czar, mas ex-súditos de Stálin. Ora, cada um desses fragmentos da Diáspora tinha suas tradições, sua cultura, seus cantos, sua cozinha, sua língua. Podemos, portanto, calcular como a história de Israel é singular, sem precedentes.
Um relance sobre a formação do Sionismo confirmará isso (a idéia sionista foi lançada por Herzl, então correspondente do jornal austríaco Die Neue Freie Presse em Paris. Herzl publicou em 1896 o livro Der Judenstaat (O Estado Judeu), antes de reunir, no ano seguinte, o Congresso de Basiléia). A idéia sionista impressionou muitos judeus da Europa, mas os judeus franceses continuaram céticos.
Entretanto, o "caso Dreyfus" - esse oficial judeu acusado em 1894 de ter traído a França em favor da Alemanha - mostrou a virulência do anti-semitismo francês. Contudo, esse mesmo "caso Dreyfus" dilacerou a França, dividindo-a em duas e fez surgir, diante do campo dos anti-semitas, o campo da tolerância. E, além disso, os judeus franceses davam grande valor à "memória a longo prazo". Certamente, ali como em outras partes, houve pogroms e infâmias na Idade Média, mas a época moderna tinha a infâmia da "integração". Os judeus da França, como os Rothschild, os Camondo, os Perreire... sentiam-se herdeiros do Iluminismo do século 18, dos "direitos do homem", de Racine e de Voltaire... "Feliz como um judeu na França", rezava o provérbio. Por isso, quando Herzl imaginou o "lar judeu" lá embaixo, perto do deserto e sonhou em misturar os burgueses parisienses com os hassidim sujos e místicos da Polônia, o Sionismo sofreu na França um fracasso total.
Trata-se de um fato pouco conhecido: na própria França, houve judeus tradicionais que tentaram limitar a vinda de imigrantes judeus oriundos do Leste, temerosos de que a distinta comunidade francesa ficasse emporcalhada com camponeses lituanos.
Houve a mesma reação diante de Herzl: ninguém tinha o desejo de ir para Sião. Na realidade - e aqui está o paradoxo - o sionismo não foi aprovado na França a não ser pelos anti-semitas, que acolheram a idéia com entusiasmo: o jornal de Drummont, La libre parole, propagador de ignomínias contra os judeus, aprovou Herzl. Eis a solução: amontoar todos os judeus em navios cargueiros e despachá-los para a Palestina. Assim nos livramos deles! O desprezo dos judeus franceses em relação ao sionismo se reproduziu nas altas esferas: o Quai d'Orsay (Ministério das Relações Exteriores francês) não entendeu nada do sonho sionista. Somente a Guerra de 1939 irá mover os diplomatas parisienses em favor do sionismo. Os sionistas por sua vez devolvem à França a sua frieza: Herzl dá preferência à Alemanha e mais ainda à Inglaterra.
Na Inglaterra, o caminho é diferente. A partir de 1918, os ingleses inclinam-se com amor sobre a Palestina. Era lógico. O Império Otomano desaparecera e vastas províncias otomanas ficaram deserdadas. É uma coisa boa, pensaram os ingleses. E começaram a infiltrar-se em toda a parte: o coronel Lawrence da Arábia apóia então os árabes contra seus senhores turcos. Londres lança também olhares ternos sobre a Palestina.
No dia 2 de novembro de 1917 foi publicada a "Declaração de Balfour": "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de uma pátria nacional para o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar este objetivo, contanto que não se faça nada que possa prejudicar os direitos das comunidades não-judaicas na Palestina, bem como os direitos de que gozam os judeus em todos os outros países".
Três anos depois, a Sociedade das Nações assume a Declaração e concede à Grã-Bretanha um mandato sobre a Palestina. Por isso, as simpatias de Herzl pela Grã-Bretanha parecem justificadas.
Entretanto, o que depois acontece irá frustrar suas esperanças. Não vamos entrar no labirinto dos anos que se seguiram. A potência britânica, detentora do mandato, é mal aceita pela sociedade judaica da Palestina. A princípio, a Inglaterra quer manter o equilíbrio entre os judeus e os árabes. Depois, Londres endurece o tom em relação aos judeus. E publica, em 1939, um "documento oficial", proibindo a compra de terras pelos judeus e limitando a imigração. Explode a guerra de 1939. A declaração do futuro primeiro-ministro israelense, David Ben Gurion, é um testemunho da lucidez e da audácia dos judeus. Para Ben Gurion, duas palavras de ordem: os judeus farão guerra contra a Alemanha. Os judeus também farão guerra contra o "documento" de Londres.
A partir de 1942, desenvolve-se o terrorismo na Palestina, sob o impulso de grupos como o Etzel (dirigido por Menahem Begin, futuro primeiro-ministro) ou o terrível "grupo Stern". E esse terrorismo judaico tem dois alvos: os árabes e os ingleses.
Explode então a guerra no Oriente Médio - um acontecimento decisivo para o nascimento do jovem Estado. O nazismo já tinha redistribuído as cartas. Foi depois da Noite das Longas Facas, em 1938, quando se desencadeou a infâmia nazista, que os refugiados começaram a chegar aos países livres, Pouco depois da vitória das divisões de tanques nazistas - as Panzerdivisionnen - instala-se na França o governo do marechal Pétain: libera-se então o anti-semitismo contido da França bien pensante: finalmente, um governo-honestidade, que manda embora os judeus, que os prende em acampamentos, os interna. Milagre!
O fim do nazismo faz com que o fiel da balança se incline uma vez mais para o outro lado: a partir de 1944, o mundo descobre o horror dos "Campos da Morte", os seis milhões de judeus queimados nas câmaras de gás, essa ignomínia conhecida por poucos até 1944. Desenvolve-se um sentimento de simpatia pelos judeus e, ao mesmo tempo, uma "culpabilidade" formidável e inteiramente legítima. Envergonhada de seu passado recente, a Europa sente seu coração comover-se em relação aos judeus e portanto a Israel.
O Holocauso, a maior abjeção da história, é um grande ator do pós-Guerra. Os fundadores do Estado judeu não se enganaram: a declaração de independência, preparada por Ben Gurion no dia 14 de maio de 1948, faz referência aos dois pilares do novo Estado: o vínculo histórico do povo judeu com o povo de Israel e o Holocausto.
A culpabilidade irá durar muitos anos e acompanhará os primeiros passos do jovem Estado. Se os Estados Unidos apóiam Jerusalém, em contrapartida, os ingleses, preocupados em não desagradar aos árabes, continuam inflexíveis. A história de Israel será marcada, por um lado, por guerras fulminantes contra os árabes e, por outro, pelas "mudanças de posição" das grandes potências, segundo seus interesses. Os soviéticos, que haviam sido favoráveis à criação de Israel, tornam-se cada vez mais hostis.
Os americanos continuam ao lado de Israel. A França é um dos países que tomaram parte na perversidade antijudaica. Mas, à medida que nós vamos nos afastando da "vergonha", do ano de 1944, vemos renascer o anti-semitismo e o antijudaísmo. O partido fascista de Jean-Marie le Pen, que recolhe 15% dos votos nas eleições, é racista e os judeus ocupam, na demência racista, lugar especial.
É na França (e também na Áustria e um pouco nos Estados Unidos) que prospera o "negacionismo" - esta doutrina segundo a qual os campos da morte nazistas jamais teriam existido. Quanto ao resto, há 50 anos a França navega com dificuldade entre dois desejos: agradar aos árabes por um lado, reparar por outro os sofrimentos inauditos suportados pelo povo judeu na época do Holocausto.

* Giles Lapouge é correspondente da Agência Estado em Paris

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