| Por:Gilles
Lapouge *
(Paris) - Raros são os Estados cuja história foi tão
agitada quanto Israel. Disperso, negado, massacrado durante 2 mil
anos, Israel renasce em 1948. Depois, de guerra em guerra, a história
contemporânea de Israel é apenas uma longa tragédia,
à semelhança, embora também diferente, do que
foi outrora a história dos judeus, desde o exílio
de Babilônia, as destruições do Templo, a ocupação
romana ou a morte do Cristo. Uma das singularidades da "diáspora"
judaica, como do Estado de Israel depois de 1948, é que seu
destino está entrelaçado com o destino e as vicissitudes
de outros países, embora se mantendo autônomo. Todo
judeu de ontem, todo israelense de hoje, possui duas histórias,
dois calendários: por uma parte, a cronologia própria
e exclusiva do povo judaico - embora essa cronologia "judaica"
varie de uma comunidade para outra: o "tempo" dos judeus
franceses é medido pelo chamado "Affaire Dreyfus"
(o Caso Dreyfus), o escândalo do Panamá ou as leis
antijudaicas do Marechal Pétain em 1940, enquanto o "tempo"
dos judeus poloneses é o dos "pogroms", das expulsões,
das sinagogas hassídicas da Europa Central.
Se analisarmos o período contemporâneo (a partir de
1948), encontramos a mesma mistura do tempo de Israel e do tempo
universal: país criado sob a pressão da Diáspora,
mas com o consentimento das nações, o Estado de Israel
foi um façanha arriscada na época da Guerra Fria e
depois nas relações entre o Ocidente e os árabes.
É preciso acrescentar que a demografia de Israel (antes ou
depois de 1948) é controlada desde o exterior: depende ao
mesmo tempo do ventre das mulheres israelenses e dos grandes fluxos
mundiais: os primeiros "sionistas", a começar pelo
húngaro Theodor Herzl, depois pelos pioneiros, (os David
Ben Gurion, os Menahen Beguin...) vêm da esfera russa e da
Mitteleuropa (Europa Central) e também da Alemanha, portanto,
ashkenazim (asquenazitas) e sepharadim (sefarditas).
Finalmente, com a dissolução da União Soviética,
chegou uma segunda onda de emigrantes russos - não mais antigos
súditos do Czar, mas ex-súditos de Stálin.
Ora, cada um desses fragmentos da Diáspora tinha suas tradições,
sua cultura, seus cantos, sua cozinha, sua língua. Podemos,
portanto, calcular como a história de Israel é singular,
sem precedentes.
Um relance sobre a formação do Sionismo confirmará
isso (a idéia sionista foi lançada por Herzl, então
correspondente do jornal austríaco Die Neue Freie Presse
em Paris. Herzl publicou em 1896 o livro Der Judenstaat (O Estado
Judeu), antes de reunir, no ano seguinte, o Congresso de Basiléia).
A idéia sionista impressionou muitos judeus da Europa, mas
os judeus franceses continuaram céticos.
Entretanto, o "caso Dreyfus" - esse oficial judeu acusado
em 1894 de ter traído a França em favor da Alemanha
- mostrou a virulência do anti-semitismo francês. Contudo,
esse mesmo "caso Dreyfus" dilacerou a França, dividindo-a
em duas e fez surgir, diante do campo dos anti-semitas, o campo
da tolerância. E, além disso, os judeus franceses davam
grande valor à "memória a longo prazo".
Certamente, ali como em outras partes, houve pogroms e infâmias
na Idade Média, mas a época moderna tinha a infâmia
da "integração". Os judeus da França,
como os Rothschild, os Camondo, os Perreire... sentiam-se herdeiros
do Iluminismo do século 18, dos "direitos do homem",
de Racine e de Voltaire... "Feliz como um judeu na França",
rezava o provérbio. Por isso, quando Herzl imaginou o "lar
judeu" lá embaixo, perto do deserto e sonhou em misturar
os burgueses parisienses com os hassidim sujos e místicos
da Polônia, o Sionismo sofreu na França um fracasso
total.
Trata-se de um fato pouco conhecido: na própria França,
houve judeus tradicionais que tentaram limitar a vinda de imigrantes
judeus oriundos do Leste, temerosos de que a distinta comunidade
francesa ficasse emporcalhada com camponeses lituanos.
Houve a mesma reação diante de Herzl: ninguém
tinha o desejo de ir para Sião. Na realidade - e aqui está
o paradoxo - o sionismo não foi aprovado na França
a não ser pelos anti-semitas, que acolheram a idéia
com entusiasmo: o jornal de Drummont, La libre parole, propagador
de ignomínias contra os judeus, aprovou Herzl. Eis a solução:
amontoar todos os judeus em navios cargueiros e despachá-los
para a Palestina. Assim nos livramos deles! O desprezo dos judeus
franceses em relação ao sionismo se reproduziu nas
altas esferas: o Quai d'Orsay (Ministério das Relações
Exteriores francês) não entendeu nada do sonho sionista.
Somente a Guerra de 1939 irá mover os diplomatas parisienses
em favor do sionismo. Os sionistas por sua vez devolvem à
França a sua frieza: Herzl dá preferência à
Alemanha e mais ainda à Inglaterra.
Na Inglaterra, o caminho é diferente. A partir de 1918, os
ingleses inclinam-se com amor sobre a Palestina. Era lógico.
O Império Otomano desaparecera e vastas províncias
otomanas ficaram deserdadas. É uma coisa boa, pensaram os
ingleses. E começaram a infiltrar-se em toda a parte: o coronel
Lawrence da Arábia apóia então os árabes
contra seus senhores turcos. Londres lança também
olhares ternos sobre a Palestina.
No dia 2 de novembro de 1917 foi publicada a "Declaração
de Balfour": "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente
o estabelecimento na Palestina de uma pátria nacional para
o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar
este objetivo, contanto que não se faça nada que possa
prejudicar os direitos das comunidades não-judaicas na Palestina,
bem como os direitos de que gozam os judeus em todos os outros países".
Três anos depois, a Sociedade das Nações assume
a Declaração e concede à Grã-Bretanha
um mandato sobre a Palestina. Por isso, as simpatias de Herzl pela
Grã-Bretanha parecem justificadas.
Entretanto, o que depois acontece irá frustrar suas esperanças.
Não vamos entrar no labirinto dos anos que se seguiram. A
potência britânica, detentora do mandato, é mal
aceita pela sociedade judaica da Palestina. A princípio,
a Inglaterra quer manter o equilíbrio entre os judeus e os
árabes. Depois, Londres endurece o tom em relação
aos judeus. E publica, em 1939, um "documento oficial",
proibindo a compra de terras pelos judeus e limitando a imigração.
Explode a guerra de 1939. A declaração do futuro primeiro-ministro
israelense, David Ben Gurion, é um testemunho da lucidez
e da audácia dos judeus. Para Ben Gurion, duas palavras de
ordem: os judeus farão guerra contra a Alemanha. Os judeus
também farão guerra contra o "documento"
de Londres.
A partir de 1942, desenvolve-se o terrorismo na Palestina, sob o
impulso de grupos como o Etzel (dirigido por Menahem Begin, futuro
primeiro-ministro) ou o terrível "grupo Stern".
E esse terrorismo judaico tem dois alvos: os árabes e os
ingleses.
Explode então a guerra no Oriente Médio - um acontecimento
decisivo para o nascimento do jovem Estado. O nazismo já
tinha redistribuído as cartas. Foi depois da Noite das Longas
Facas, em 1938, quando se desencadeou a infâmia nazista, que
os refugiados começaram a chegar aos países livres,
Pouco depois da vitória das divisões de tanques nazistas
- as Panzerdivisionnen - instala-se na França o governo do
marechal Pétain: libera-se então o anti-semitismo
contido da França bien pensante: finalmente, um governo-honestidade,
que manda embora os judeus, que os prende em acampamentos, os interna.
Milagre!
O fim do nazismo faz com que o fiel da balança se incline
uma vez mais para o outro lado: a partir de 1944, o mundo descobre
o horror dos "Campos da Morte", os seis milhões
de judeus queimados nas câmaras de gás, essa ignomínia
conhecida por poucos até 1944. Desenvolve-se um sentimento
de simpatia pelos judeus e, ao mesmo tempo, uma "culpabilidade"
formidável e inteiramente legítima. Envergonhada de
seu passado recente, a Europa sente seu coração comover-se
em relação aos judeus e portanto a Israel.
O Holocauso, a maior abjeção da história, é
um grande ator do pós-Guerra. Os fundadores do Estado judeu
não se enganaram: a declaração de independência,
preparada por Ben Gurion no dia 14 de maio de 1948, faz referência
aos dois pilares do novo Estado: o vínculo histórico
do povo judeu com o povo de Israel e o Holocausto.
A culpabilidade irá durar muitos anos e acompanhará
os primeiros passos do jovem Estado. Se os Estados Unidos apóiam
Jerusalém, em contrapartida, os ingleses, preocupados em
não desagradar aos árabes, continuam inflexíveis.
A história de Israel será marcada, por um lado, por
guerras fulminantes contra os árabes e, por outro, pelas
"mudanças de posição" das grandes
potências, segundo seus interesses. Os soviéticos,
que haviam sido favoráveis à criação
de Israel, tornam-se cada vez mais hostis.
Os americanos continuam ao lado de Israel. A França é
um dos países que tomaram parte na perversidade antijudaica.
Mas, à medida que nós vamos nos afastando da "vergonha",
do ano de 1944, vemos renascer o anti-semitismo e o antijudaísmo.
O partido fascista de Jean-Marie le Pen, que recolhe 15% dos votos
nas eleições, é racista e os judeus ocupam,
na demência racista, lugar especial.
É na França (e também na Áustria e um
pouco nos Estados Unidos) que prospera o "negacionismo"
- esta doutrina segundo a qual os campos da morte nazistas jamais
teriam existido. Quanto ao resto, há 50 anos a França
navega com dificuldade entre dois desejos: agradar aos árabes
por um lado, reparar por outro os sofrimentos inauditos suportados
pelo povo judeu na época do Holocausto.
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Giles Lapouge é correspondente da Agência Estado em
Paris
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