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Por: Bruno
Kampel*
(Ao
ataque que são gigantes, Sancho Pança!... Não,
dom Quixote, não são gigantes. São moinhos
de vento!)
Infelizmente,
o combate ao anti-semitismo nos meios de comunicação
fica geralmente nas mãos e na linguagem de professores universitários,
catedráticos, bispos, rabinos, políticos, filósofos
e similares.
Seus argumentos - quase sempre profundos e muito bem documentados
- não ficam a dever nada a qualquer tese a ser defendida
perante uma junta de Sábios, e com isso - paradoxalmente
- se transformam em difíceis e chatos de serem lidos pela
maioria esmagadora dos compradores de jornais e revistas, os quais,
como é fácil de adivinhar, são majoritariamente
pouco instruídos no assunto, como a maioria dos alunos da
maioria das faculdades, e como a maioria dos que preenchem cargos
públicos dos primeiros escalões, e como a maioria
dos jornalistas, e como a maioria da maioria.
Se o combate ao anti-semitismo continuar nas mãos e nos discursos
de candidatos ao Nobel de Filosofia ou de História ou de
Religião, apenas um pequeno grupo de privilegiados entenderá,
ou se interessará, pelo conteúdo da matéria
publicada, pois a soma de citações bibliográficas
e referências históricas transpira sempre demasiada
pomposidade erudita, e bom seria se o tema pudesse ser apresentado
já decodificado e traduzido à linguagem que a generalidade
do povo entende, aceita e digere com facilidade.
Muito poucas pessoas estão realmente interessados nas raízes
históricas do fenômeno do anti-semitismo, mas muitas
sim o estão nos efeitos que ele produz sobre um papel em
branco como é a cabeça da maioria dos leitores no
que diz respeito a esse tema específico.
O anti-semitismo existe e perdura não pela seriedade do seu
ideário, mas pela facilidade com que falsas acusações
adquirem perfil de realidades sagradas.
Pessoas que acreditam piamente em viagens ao passado e ao futuro;
em invasões de seres de outro planeta; que esperam ansiosos
a hora da novela das oito; que acendem uma vela a deus e outra ao
diabo, e, principalmente, que carregam na sua bagagem genética
um anti-semitismo patológico, inculcado ao longo de vinte
séculos de velha e caduca catequese cristã, não
estão interessadas na verdade dos fatos, mas desejam ouvir
uma versão da realidade que os isente da acusação
de que eles são os verdugos, e que garanta que eles são
as pobres vítimas, e infelizmente, o judeu de nariz comprida,
chapéu e capota preta, tem servido às mil maravilhas
para preencher o papel de pai de todos os males havidos e por haver.
Esse tem sido um dos muitos, muitíssimos erros em que habitualmente
incorrem e nos quais reincidem os chamados formadores de opinião.
Uma elite intelectual dirigindo-se a uma massa semi-alfabetizada
no que ao ódio aos judeus se refere (e não há
nesse semi-analfabetismo qualquer demérito ou desdouro),
discursando como se o ouvinte entendesse qualquer coisa além
da certeza de que há exploradores e explorados, manipuladores
e manipulados, ladrões que roubam muito e ficam impunes,
e famintos que roubam um pão e são severamente castigados.
Por tudo isso é que o assunto não pede profundidade
na análise nem riqueza no vocabulário, já que
nenhum artigo contra o anti-semitismo ou contra os anti-semitas
em particular conseguirá desfazer por arte de magia os efeitos
já acumulados e assimilados desse anti-semitismo visceral,
porque qualquer manifestação anti-judaica não
gera nenhuma reação que já não esteja
na cabeça de muitos dos leitores.
O que sim - e se soubermos despir o nosso discurso dos floreios
que usamos cada vez que dizemos a nossa verdade - temos chances
de que ele seja ouvido ou lido até o fim. Mas não
nos enganemos: a predisposição anti-semita ficará
onde ela está, e cada vez que a TV mostrar que algumas crianças
palestinas morreram pelas balas dos soldados de Israel, o efeito
aflorará, e cada vez que um suicida palestino explodir 20
crianças judias na porta de um colégio, o efeito contrário
surgirá, quase que justificando o evento como se de um ato
de pura defesa se tratasse.
Esse é um filme que já assistimos demasiadas vezes,
e deveríamos saber que a palavra é um excelente veículo
transmissor do ódio, mas que enfrenta sérias dificuldades
na hora de transmitir tolerância.
A mentira é uma excelente amazona que cavalga com facilidade
sobre o terreno da opinião pública, enquanto que a
verdade cai do cavalo a cada fato que a contesta ou desafia.
Portanto, detalhar exaustivamente dados históricos e mencionar
referências bibliográficas transforma qualquer artigo
que tenha como objetivo combater o anti-semitismo num hieróglifo
similar a certas entrevistas que médicos dão pela
TV.
- Doutor: por que é que me dói a cabeça?
- Minha filha. Como bem sabe, a conjunção de fatores
sintomatológicos de diversa e antagônica procedência
fazem que muitos de nós optemos por ...
Ou seja... Depois de ouvir, a perguntona sai com mais dor de cabeça
da que tinha antes de fazê-lo. A menos - é claro -
que o locutor meta o bedelho e indague ao médico se ele poderia
falar para seres humanos, a fim de que a audiência possa entender.
Creio que artigos completos, com citações, bibliografia,
erudição, riqueza de definições, podem
e devem ser escritos e enviados a destinatários escolhidos
a dedo. Professores universitários, Cúria Metropolitana,
Instituições de Direitos Humanos, Instituições
judaicas, Associações palestinas, Supremo Tribunal,
e até vir a ser incluídos como prova num processo
penal contra o autor e o editor de qualquer texto/artigo/opinião/livro
anti-semita, podendo inclusive ser traduzido para o inglês
e outros idiomas e distribuído no exterior.
Mas no que à imprensa tupiniquim se refere, julgo que tem
que ser usada a linguagem que os editores sempre recomendam para
que o leitor leia até o fim: primeiro parágrafo contundente
e insinuante, e o resto de fácil digestão. Palavras
inteligíveis, frases curtas e claras.
Essa é pelo menos a minha opinião, que como todas
as minhas opiniões, é filha natural da experiência
e de pai desconhecido.
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Bruno Kampel é judeu e vive na Suécia. Mantém
site e blog em http://shalom.kampel.com
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